Com um musical autoral, dois novos projetos em cena e uma trajetória construída entre resistência e criação, a artista carioca fala sobre deficiência, autonomia e o que ainda precisa mudar no mercado cultural.
Por Angélica Cabral
Fotos: divulgação
Há artistas que aprendem a fazer arte. E há aqueles que nascem atravessados por ela. Sara Bentes parece não conhecer outra forma de existir. Cantora, atriz, escritora e compositora, ela não descreve sua trajetória como escolha, mas como continuidade: “Acho que já entrei na vida com a arte na minha essência”.
Nascida em Volta Redonda, no interior do Rio de Janeiro, cresceu em uma casa onde a música era presença constante. O pai artista, a família musical, a escuta fazendo parte do cotidiano, desde o clássico ao popular. Antes mesmo de entender o mundo, já era impactado por ele em forma de som. Aos sete anos, não teve dúvida: queria cantar e atuar.
Vieram os corais, as primeiras apresentações, e o palco parecia pequeno, mas já definitivo. Depois, como acontece com quem insiste no próprio caminho, vieram também os deslocamentos, inclusive geográficos. O Rio de Janeiro surgiu como território de busca, mas também de enfrentamento. Entre oportunidades e recusas, Sara construiu permanência.

Hoje, sua obra não se organiza em compartimentos. Música, artes cênicas e escrita não competem entre si, se expandem mutuamente. Em algumas fases da vida, uma linguagem se impõe, mas nenhuma existe isolada. O teatro, então, aparece como síntese dessa travessia. Em 2024, ela estreou seu primeiro musical autoral, “Nosso Lugar”, e segue desenvolvendo novas criações, onde palavra, corpo e som sempre se encontram.
Pessoa com deficiência visual congênita, causada por glaucoma, Sara não reduz sua arte a essa experiência, mas tampouco a ignora. Ela usa sua criação como tema, como perspectiva e, sobretudo, como percepção. “A gente fala muito do que vê. Mas e o cheiro? E o som? E a textura das coisas?”, provoca. Sua escrita e sua música expandem o sensorial, deslocam o foco da imagem e convidam o público a experimentar o mundo de maneira mais inteira.
O momento atual é de expansão e afirmação. Além da remontagem de Nosso Lugar, ela desenvolve um novo musical com Edgar Jacques e segue em circulação com “Meu Amor é Cego”, comédia romântica criada com Jefinho Farias, um marco por ser escrita e protagonizada por dois artistas cegos. Em cena, também integra um espetáculo infanto-juvenil no Museu da Vida, dentro da Fiocruz, onde acessibilidade não é recurso adicional, mas linguagem incorporada.
Ainda assim, percebe o cenário longe de ser o ideal. “A presença de PCDs está aumentando, mas muito lentamente”. Aqui no Rio, são poucos os que conseguem viver exclusivamente da própria arte. “Dá para contar nos dedos”. Para ela, a mudança precisa ser estrutural: não basta abrir espaço, é preciso dividir poder. “Não pode faltar a nossa participação em todas as etapas, inclusive nas decisões, na criação de leis, de editais, de políticas culturais”.

Mas há uma outra transformação, talvez mais profunda: a do olhar. Sara quer ser vista como artista sem o peso do capacitismo, sem o desconforto do coitadismo, sem a distorção da heroificação. Ela acredita num processo que envolva conquistas individuais e também uma necessária mudança coletiva: de mercado, de público, de sociedade.
Seu desejo é direto e sem ornamentos: excelência, alcance, autonomia. Tornar-se uma profissional cada vez mais consistente, mais visível, mais capaz de sustentar e conduzir os próprios projetos. Porque sua arte carrega mensagens, e essas mensagens precisam circular.
É nesse ponto que sua trajetória encontra seu sentido mais amplo. A arte, para Sara Bentes, não é apenas expressão. É ferramenta. É ponte. É forma de reorganizar percepções e desmontar certezas. Um trabalho contínuo, paciente, muitas vezes invisível, mas profundamente transformador.

E é também convite. Seus trabalhos musicais estão nas plataformas digitais, seus livros disponíveis na Amazon, e suas redes sociais no YouTube, Instagram, TikTok e Facebook reúnem agenda e novos projetos sob o nome - Sara Bentes Oficial. Lembrando que, a quem chega, ela oferece encontro. E, a quem escuta, uma outra forma de perceber o mundo. Bora acompanhar??