“Luz Azul” aposta na delicadeza para narrar a infância negra no Distrito Federal

“Luz Azul” aposta na delicadeza para narrar a infância negra no Distrito Federal

Curta dirigido por Thainara Nascimento nasce na UnB e transforma vivências da periferia em linguagem sensível sobre memória, amizade e racismo

Por Igor TX
Fotos: Divulgação/@lookatsampaio

Em um cenário onde a infância negra ainda é pouco representada no audiovisual brasileiro, o curta-metragem Luz Azul escolhe um caminho menos óbvio: falar de racismo, luto e memória a partir da delicadeza.

Dirigido por Thainara Nascimento, estudante de Audiovisual da Universidade de Brasília (UnB), o filme acompanha Raíto, um menino de 8 anos que passa a enxergar o mundo a partir das experiências que atravessam seu território. Entre descobertas e silêncios, a narrativa se constrói com elementos simbólicos, como a luz azul que dá nome ao curta, para abordar temas complexos sem abrir mão da sensibilidade.

“A ‘Luz Azul’ funciona como uma analogia à Polícia Militar. No filme ela é uma alegoria ligada ao trauma de Raíto, o protagonista”, explica Thainara. “A narrativa utiliza essa luz para denunciar a violência policial contra pessoas negras, mas através de uma temática infantil e lúdica”, completa a diretora.

Mais do que um trabalho de conclusão de curso, Luz Azul se insere em um movimento maior de jovens realizadores que têm transformado o Distrito Federal em um território fértil para o cinema independente. Produções que nascem dentro da universidade, mas que rapidamente extrapolam seus muros ao dialogar com a cidade, suas periferias e suas urgências.

Vinda de raízes baianas e maranhenses, Thainara Nascimento vive seus 27 anos de vida no Paranoá (DF), onde a maioria de seus familiares também residem. A motivação para tratar de negritude e periferia vem de dentro de casa, devido ao constante medo de que seus parentes vivam o retrato abordado no curta.

No centro da história está uma escolha narrativa importante: falar da infância negra sem recorrer exclusivamente à dor ou à violência explícita. Em vez disso, o filme aposta no afeto, nas relações e nas memórias como caminhos possíveis para construir outras imagens e imaginários.

“No curta, trago características que sempre observei nas crianças do Paranoá: soltar pipa, correr, jogar futebol… Mas o ponto principal é a união e a amizade entre elas, que é o que mais me admira. São vivências comuns da periferia”, contou Thainara.

Essa perspectiva também se reflete na forma como o projeto vem sendo viabilizado. Em vez de depender exclusivamente de editais ou grandes estruturas, a equipe tem mobilizado a própria cena cultural do DF para tirar o filme do papel.

Um dos exemplos foi a festa “Thai na Cena”, que reuniu artistas e DJs locais em uma noite que misturou música e cinema como parte de um mesmo ecossistema criativo. O evento aconteceu no Banks Bar, no Setor Bancário Sul, na sexta-feira (20/3).

O line trouxe os DJs Noze, Zapatta e Jak3, todos em apoio à produção independente do curta. “Graças ao bar e aos DJs, que abraçaram a proposta do projeto, conseguimos realizar um evento incrível que foi do funk ao pagode baiano, deixando clara a ligação do tema com a cultura negra”, comentou Thainara sobre a festa.

A iniciativa reforça uma característica marcante da produção cultural independente: a construção coletiva. Entre eventos, rifas e campanhas online, o filme vai se desenhando a muitas mãos, em um processo que é tão importante quanto o resultado final.

Com cerca de R$ 2 mil arrecadados, o evento trouxe um respiro para o projeto. No entanto, o valor ainda está distante dos R$ 15 mil necessários para garantir a produção independente do curta.

Enquanto se prepara para as filmagens, Luz Azul também começa a formar sua própria comunidade. São pessoas que não apenas assistem, mas participam do nascimento da obra. As gravações estão previstas para começar no dia 1º de maio, com extensão de 5 diárias espaçadas entre os finais de semana.

A primeira exibição está prevista para a banca de conclusão de curso na UnB, mas o desejo da equipe é que o filme circule para além da universidade, alcançando outros espaços e públicos. Thainara pretende também expor o curta em festivais de cinema nacionais e internacionais, além de compartilhar o filme com algumas escolas do Paranoá.

Mais do que um TCC, Luz Azul é parte de uma geração que insiste em contar suas próprias histórias e, ao fazer isso, amplia o repertório de imagens possíveis sobre o Distrito Federal, suas infâncias e seus futuros.

Serviço
Para acompanhar o projeto:
Instagram: @curtaluzazul
Para contribuir: vakinha e rifa digital