Filipe Londe estreia na literatura com a obra “Tudo O Que Preciso é… Amor”

Filipe Londe estreia na literatura com a obra “Tudo O Que Preciso é… Amor”

Surdo moderado e oralizado, o multiartista Filipe Londe surge com obra que transforma o isolamento em manifesto sobre a força da conexão humana

Por Igor TX
Foto: Eduarda Gabriele

O ator, dançarino, produtor e agora também escritor Filipe Londe, transformou suas anotações da pandemia em um livro que explora a importância de conexões íntimas em tempos de crise. Lançado em abril pela editora UICLAP, o livro “Tudo O Que Preciso é… Amor” marca a sua primeira obra literária.

Formado em Recursos Humanos e Teatro, Filipe está inserido na cena artística brasiliense desde 2012 e contou com o apoio do colega Freelipe, Surdo moderado e oralizado, o multiartista vê na arte uma possibilidade de expansão da sua linguagem: “minha surdez não me limita, ela potencializa minha expressão corporal”, completa.

Foi a partir dessa necessidade de se comunicar pela arte que ele ampliou seus caminhos, conectando-se ao grupo ExpresSomos, um coletivo de artes surdas e múltiplas linguagens, onde também passou a explorar a dança.

Ao longo dos anos, o artista acumulou experiências marcantes, como se apresentar para uma plateia de 2 mil pessoas. Para ele, “cada uma dessas conquistas foi uma afirmação de que a arte não tem barreiras e que eu posso ocupar qualquer lugar. A literatura surge agora como uma nova e fundamental etapa dessa minha jornada”.

A jornada como autor

O livro “Tudo o Que Preciso é… Amor” nasce de um gesto íntimo: escrever para não se perder. Durante o isolamento da Covid-19, em 2020, o artista encontrou no chamado “caderno alaranjado” um espaço de respiro, onde passou a registrar memórias, inquietações e elocubrações. O que era hábito virou narrativa. E, com o incentivo de amigos, esses registros ganharam forma até se transformarem em um conto de amor.

Na história, Filippo e Vicente se encontram pelas telas dos celulares, em meio ao distanciamento físico. A relação, construída à distância, não se sustenta apesar disso, mas justamente a partir dessa condição. É nesse território atravessado por ausência, desejo e imaginação que o livro se desenha.

“Tudo o Que Preciso é… Amor é, acima de tudo, uma celebração à vida e às memórias que nos mantêm em pé”, afirma o autor. A obra percorre as angústias do isolamento sem perder de vista a necessidade de conexão, tratando o afeto como algo que insiste, mesmo em cenários adversos.

Com uma escrita sensível, o texto avança por camadas de coragem, segredos e descobertas. Há também referências à cultura pop que atravessam a narrativa, da força estética de Beyoncé ao imaginário do grupo Rouge, ampliando o repertório afetivo que sustenta a história.

“Espero que goste de ler tanto quanto eu precisei escrever”, diz o autor logo nas primeiras páginas, estabelecendo um pacto direto com quem lê.

O livro está disponível em formato digital, pela Amazon, e em versão física pela UICLAP.


Para além dos rótulos

Filipe se define como um artista multifacetado. A dança, o teatro e a escrita aparecem como linguagens que se atravessam em sua trajetória, construindo um percurso que não cabe em uma única definição.

Ainda assim, esse caminho não se faz sem tensionamentos.

“A cena ainda tem dificuldade em enxergar o artista surdo para além da deficiência. Muitas vezes, somos vistos como um recurso de acessibilidade, e não como criadores”, afirma. Para ele, é urgente ampliar esse olhar: reconhecer que pessoas surdas ocupam o palco em sua totalidade, como protagonistas, intérpretes, criadores.

Com o lançamento do livro, Filipe aposta justamente nesse deslocamento. A escrita aparece como mais uma frente de atuação e também como forma de expandir sua presença na cena cultural.

“Espero alcançar o máximo de pessoas possível e tocar cada uma delas. E levar essa mesma sensibilidade das páginas de volta para o palco”, diz.

Para acompanhar seus próximos trabalhos, o artista está no Instagram: @londdinho.