[RJ] “O disco continua o mesmo. Nós é que mudamos”

[RJ] “O disco continua o mesmo. Nós é que mudamos”

Sabe aqueles discos que atravessam o tempo sem perder a capacidade de surpreender? O primeiro trabalho de Céu, lançado em 2005, é um deles. Vinte anos depois, a jornalista Fabiane Pereira volta àquele momento para contar, em livro, o que existia por trás das 13 faixas que apresentaram a cantora ao Brasil e ao mundo. 

Por: Angélica Cabral
Foto: divulgação

Em “Céu: Céu”, da Editora Cobogó, ela recupera encontros, escolhas, memórias e acasos de uma estreia que ajudou a ampliar os caminhos da música contemporânea.

A escolha da artista veio por conexão emocional. Quando Céu surgiu, Fabi estava na casa dos vinte e poucos anos, começando a construir sua carreira e completamente mergulhada no universo musical. “É um disco que também faz parte da minha memória afetiva.” Mas havia também uma inquietação profissional: entender como uma produção independente brasileira havia alcançado uma dimensão internacional tão expressiva.

A investigação aproximou ainda mais autora e personagem. A intérprete abriu arquivos, compartilhou lembranças e revisitou acontecimentos de duas décadas atrás. A autora combinou esses relatos com documentos, entrevistas e materiais da época. “Meu papel não era escrever a versão oficial da história, mas cruzar recordações, documentos, entrevistas e contexto”. O resultado nasceu, nas palavras dela, de uma escrita “a quatro mãos”.

Entre as descobertas, uma das mais surpreendentes foi perceber que o reconhecimento que viria depois não era garantido. “Hoje olhamos para a carreira internacional da Céu e parece que havia um plano perfeitamente desenhado. Não havia”. Encontros, acasos, escolhas e intuição ajudaram a conduzir aquele trabalho por rumos que, olhando em retrospecto, podem parecer inevitáveis.

Também estava ali uma liberdade que, em 2005, ainda não era tão óbvia. Samba, reggae, jazz, soul, hip hop e música eletrônica conviviam sem que fosse preciso escolher entre tradição e contemporaneidade. Para Fabiane, aquela geração mostrou que era possível valorizar as referências brasileiras e, ao mesmo tempo, dialogar com outras sonoridades e com o mundo. Céu, segundo ela, foi e é uma figura importante dessa transformação.
Indo além, a repercussão internacional também pode ser explicada a partir disso, até porque o álbum tinha uma identidade que incorporava naturalmente diferentes influências. “O disco não oferece uma versão turística ou exótica do Brasil.” E isso é maravilhoso, concordam?

Duas décadas depois, a própria Fabiane passou a ouvir aquelas canções de outra maneira. Se, na época, o impacto sonoro estava em primeiro plano, hoje ela consegue perceber também o contexto: uma produção anterior ao streaming, quando a internet começava a transformar radicalmente a circulação da música. “O disco continua o mesmo, mas nós, não. E, quando mudamos, a obra também revela coisas novas”.

A ideia de desacelerar a escuta atravessa a publicação. Em uma época em que praticamente toda a história da música cabe na tela de um telefone, a escritora propõe recuperar o tempo necessário para compreender uma criação. “Um livro sobre um disco diz: espera um pouco. Tem gente aqui, tem contexto, tem escolhas, tem uma cidade, tem uma época, tem histórias por trás desses quarenta minutos de música”.

A reflexão chega naturalmente ao jornalismo musical, área em que Fabiane Pereira atua há mais de duas décadas. Rádio, televisão e internet ampliaram o acesso e abriram espaço para novas vozes, mas, para ela, também trouxeram uma perda de tempo e mediação. No Papo de Música, na Rádio NovaBrasil e no Sem Censura, as linguagens podem até mudar, mas a essência permanece: a ideia sempre será ouvir e encontrar a pergunta capaz de levar uma conversa para um lugar inesperado.

Ao trocar o lugar de entrevistadora pelo de autora, Fabiane descobriu ainda outra dimensão do próprio ofício. “Cada entrevista também é um documento para o futuro”. Escrever sobre Céu fez com que ela percebesse com mais clareza que seu trabalho está ligado à construção da memória cultural. “A memória cultural não se constrói depois. Ela está sendo construída agora. E deixa um recado ao leitor: “se alguém fechar o livro querendo ouvir Céu de novo, ou ouvir pela primeira vez, para mim, já aconteceu alguma coisa bonita”.

E aí, está esperando o quê para comprar o livro?! O lançamento, aqui no Rio, está marcado para o dia 13 de outubro, na Casa Manouche, no Jardim Botânico. Ainda vai rolar uma conversa entre a autora e a cantora Céu, com mediação do historiador Fred Coelho. Siga o perfil de @afabianepereira no Instagram para ficar por dentro dos próximos projetos dessa eterna apaixonada por música!

Serviço - Lançamento do livro “Céu”, de Fabiane Pereira
 Conversa entre a autora e a cantora Céu, com mediação de Fred Coelho
 Dia 13 de outubro, às 19h
 Clube Manouche - Rua Jardim Botânico, 983, Jardim Botânico, Rio de Janeiro
 Entrada gratuita
Angélica Cabral