Um filme sobre falhar... E sobreviver!

Um filme sobre falhar... E sobreviver!

Como nem só de folia vive o carioca, a Revista Traços pula para a Sétima Arte e chama a atenção para uma estreia nas telonas!! Nesta quinta-feira, 5 de fevereiro, chega aos cinemas de todo o Brasil, o instigante (Des)Controle, filme que promete mexer com o público não só pela performance de seu elenco, mas pela sensibilidade com que trata de um tema tão presente e, ao mesmo tempo, tão negligenciado nas grandes produções: a dependência e a busca pelo equilíbrio em uma rotina sufocante.

Por Angélica Cabral
Fotos: divulgação

A direção é feita em parceria por Rosane Svartman e Carol Minêm. E o longa traz no centro de sua narrativa a escritora Kátia Klein, vivida brilhantemente por Carolina Dieckmmann, uma mulher de 45 anos, cuja vida parece ser um malabarismo interminável entre criação literária, demandas familiares e expectativas sociais. Quando o bloqueio criativo se junta ao desgaste emocional de uma relação que desmorona, ela volta a recorrer ao álcool, uma antiga zona de conforto que, rapidamente, se transforma em uma espiral perigosa de descontrole.

Carol Dieckmmann, que transita com muita versatilidade entre a TV e o cinema, entrega aqui uma de suas performances mais densas e complexas. A atriz contou em entrevistas recentes que a construção da personagem passou por um lugar íntimo: ela revisitou vivências ligadas à trajetória de sua mãe com o alcoolismo para dar profundidade à Kátia, o que, segundo ela, foi doloroso e também libertador.

O roteiro, assinado por Iafa Britz, com colaboração de Felipe Sholl e Bia Crespo, aposta em uma mistura de leveza e intensidade... A trama se desenrola como um retrato quase clínico da exaustão moderna: uma mulher competente, bem-sucedida no que faz, mas sufocada por cobranças que não cessam, desde prazos de entrega até a constante exigência para “dar conta de tudo”. Nesse contexto, a bebida surge não como vilã absoluta, mas como um reflexo de como, em nossa sociedade, lidamos ou falhamos em lidar com fragilidades e contradições que moram dentro de nós.

O elenco de apoio contribui significativamente para a fluidez da história: Caco Ciocler interpreta o marido de Kátia, e sua presença é mais simbólica do que atuante nas tarefas do lar; Júlia Rabello e Irene Ravache adicionam nuances que oscilam entre a empatia e o julgamento social; Daniel Filho e Stéfano Agostini completam um time que respira autenticidade nas cenas mais duras e nas mais leves.

À primeira vista, (Des)Controle pode parecer um drama centrado em um problema individual, mas a força do filme está justamente em torná-lo coletivo, até por ser um espelho do que muita gente enfrenta todos os dias. A duração de 97 minutos foi pensada também para que a audiência acompanhe, com paciência e respeito, a degradação gradativa da personagem de Carolina Dieckmmann e, ao mesmo tempo, sua tentativa de reencontrar um ponto de equilíbrio.

Mais do que falar sobre alcoolismo, a obra é um convite à reflexão: como encaramos nossas frustrações? Até que ponto a pressão social por produtividade, perfeccionismo e multitarefas nos empurra para caminhos arriscados? E como olhamos (sem moralismos) para quem falha, seja em um casamento, na escrita de um livro ou em simplesmente sobreviver a mais um dia? (Des)Controle lança mão da dramaticidade e do humor sutil para responder essas perguntas sem simplificá-las.

E vai além... Com o cinema brasileiro ganhando cada vez mais espaço, tanto entre realizadores consagrados quanto em vozes emergentes, (Des)Controle representa um salto importante: uma produção que dialoga com públicos amplos e, ao mesmo tempo, preserva a coragem de falar sobre dores que muitas vezes preferimos ignorar.