Do fundo do mar à encruzilhada: a cartografia afetiva abrindo os caminhos do carioca

Do fundo do mar à encruzilhada: a cartografia afetiva abrindo os caminhos do carioca

Fevereiro começa com o Rio de Janeiro em movimento... E um movimento que não vem apenas da agitação conhecida dos passos apressados do cotidiano, mas dos corpos que dançam, cantam e ocupam a cidade como quem reivindica o direito ao encantamento. É nesse território simbólico, onde o sagrado encontra o profano e o teatro encontra a rua, que o Grupo Tá na Rua realiza dois de seus mais tradicionais eventos: o Cortejo de Yemanjá, no dia 2, e o Bloco do Seu Zé, no dia 7.

Por Angélica Cabral
Fotos: @clickdetransmasc (Cortejo de Yemanjá) e Mariana Pêgas (Bloco do Seu Zé)

Na segunda-feira, a partir das 15h, a Lapa se abre para a 16ª edição do Cortejo de Yemanjá. Fiéis, foliões e quem mais se deixar levar se juntam ao grupo em um percurso que sai da sede do Tá na Rua, sob os Arcos da Lapa, e segue até a Praia do Flamengo. Ao longo do caminho, músicas da MPB que evocam o orixá, a travessia e a força feminina conduzem o público até o momento mais simbólico do trajeto: a entrega de um balaio com oferendas à Rainha do Mar. Mais do que uma homenagem, o cortejo se transforma num ritual coletivo, aberto, com a fé e a festa caminhando lado a lado.

Poucos dias depois, na sexta-feira, às 19h, é a vez da Lapa ser tomada pela irreverência do Bloco do Seu Zé, que chega à sua 18ª edição celebrando o exu Zé Pilintra. O desfile começa na Casa do Tá na Rua, em direção à Escadaria Selarón, passa pelo Santuário de Zé Pilintra e continua pela Rua Joaquim Silva, ao som de músicas autorais, compostas pelos próprios atores do grupo. Na volta, marchinhas de carnaval conduzirão a folia até a porta de casa, num encerramento marcado pela intensa participação popular.

Assim, a cidade muda quando a procissão passa... A Lapa vira terreiro, o asfalto vira altar, e o público deixa de ser plateia para se tornar parte do rito. E tudo isso é possível, porque os dois eventos integram o projeto “Tá na Rua 45 Anos – Reciclando as Estruturas”, contemplado pelo Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas. O aporte garante não só a realização dos cortejos, mas a manutenção das apresentações de rua, oficinas gratuitas, processos formativos, preservação do acervo e melhorias na acessibilidade da sede, fundado por Amir Haddad e referência no teatro popular brasileiro há quase cinco décadas.

E o grande apelo do grupo está na sua linguagem própria, que mistura carnaval, futebol e cultura religiosa numa proposta que eles mesmos definem como “liturgias carnavalizadas”. São manifestações teatrais onde a alegria, o improviso e a coletividade quebram hierarquias e relativizam discursos autoritários. “As coisas são assim, mas elas podem ser diferentes”, resume a artista Luciana Pedroso, traduzindo a essência de um teatro que nasce da rua e retorna a ela como gesto político, poético e profundamente brasileiro.

Por tudo isso, em fevereiro, o Rio (abençoado!) assiste e celebra junto. Entre o mar e a
malandragem, o Tá na Rua reafirma sua vocação de transformar a cidade em espaço de encontro. A união entre o espiritual e o carnal. A comunhão da cultura popular com o corpo da cidade. Todos os caminhos levam à Lapa. Odoyá, Yemanjá!! Saravá, Seu Zé!!

SERVIÇO

Cortejo de Yemanjá -
2 de fevereiro
Horário: 15h
Local: Saindo da Casa do Tá na Rua em direção à Praia do Flamengo
Endereço: Av. Mem de Sá, 35 – Lapa

Bloco do Seu Zé -
7 de fevereiro
Horário: 19h
Local: Saindo da Casa do Tá na Rua em direção à Escadaria Selarón
Endereço: Av. Mem de Sá, 35 – Lapa