Ilus faz da liberdade de experimentar um caminho para construir espaço próprio por meio da música, da dança, da performance e da poesia.
Por Gustavo Domingos
Foto de capa: Melina Furlani
Há trajetórias em que a arte não surge apenas como escolha, mas como necessidade de existência. No caso de Ilus, o universo artístico aparece como forma de organizar o mundo. Aos 46 anos, Ilus faz da própria trajetória um campo contínuo de experimentação.
“Eu acho que a liberdade é uma busca constante em todos os aspectos da minha vida. Eu tenho que construir um espaço para mim, porque esse espaço não existe. E eu acho injusto eu querer construir alguma coisa sem antes experimentar coisas”, afirma.
Construir esse lugar passa, antes de tudo, pela liberdade de testar possibilidades, viver deslocamentos e experimentar caminhos antes mesmo de definir escolhas. A relação com a arte também se conecta a uma vontade intensa de seguir em movimento, mesmo depois de períodos difíceis.
“Tirando a parte que eu estava deprimido, a minha vontade de viver é enorme, sabe? E eu acabei criando uma relação com a arte que é de gerir o mundo. Então, parece que é muita coisa, mas para mim é uma coisa só”, destaca.
Natural do Rio de Janeiro, Ilus vive no Espírito Santo desde de 1997. Ao longo do tempo, transita com desenvoltura pelos palcos, explorando poesia, música eletrônica, óperas, funk, jazz e blues, entre outros estilos.
Suas experiências, incluindo ser pessoa com deficiência (PCD), autista e de identidade não binária, atravessam e inspiram diretamente a forma como cria e pensa sua produção artística.
A arte atravessou diferentes fases da vida de Ilus
Na infância, ainda no Rio de Janeiro, o incentivo à arte veio de casa, sobretudo pela atenção da mãe aos primeiros interesses de Ilus. “Minha mãe me dava quadros para desenhar e oferecia aulas de dança. Eram os meus momentos”, lembra.
Ilus conta que o primeiro hiperfoco foi a física, área em que chegou ao doutorado. “Mas o do canto lírico foi o maior, mais avassalador e o mais permanente até hoje”, afirma.
A tentativa de se encaixar em expectativas externas trouxe desgaste emocional. Em 2021, recebeu o diagnóstico Transtorno do Espectro Autista (TEA), processo que reorganizou a leitura sobre a própria trajetória.
“Muitos fracassos de carreira, até das minhas próprias cobranças, de eu me adequar, me encaixar, querer fazer as coisas de um jeito que desse resultado e eu não consegui. Eu entrei numa depressão. Eu consegui o diagnóstico do TEA, isso foi ótimo para mim, mas foi só o começo de uma terapia em que eu ia descobrindo de novo o que eu era, o que eu gostava de verdade”, diz.
A partir desse processo, a arte passou a ser entendida como eixo de sustentação.
“A primeira coisa que eu e meu terapeuta chegamos à conclusão foi: a música, a arte, ela tem que ser o único pilar que eu tenho que continuar sustentando. O resto tudo eu posso desmanchar e tentar fazer tudo de novo”, afirma.
No palco, Ilus transforma presença em pergunta
A recusa a lugares previamente definidos também aparece na forma como Ilus constrói presença cênica. A linguagem drag surge como possibilidade de deslocar códigos ligados ao gênero, à aparência e à leitura imediata dos corpos. Na performance, cabelo, maquiagem e composição visual reforçam essa ruptura.
Foto: Wendell Freitas
“Eu me considero drag, que quando eu vou me performar é completamente diferente: cabelo, maquiagem, tudo muito exagerado, já para quebrar esse lugar do ‘o que é isso aí?’. Sabe? ‘O que é isso que está no palco?’ ‘Não sei nem se é uma pessoa, se é homem, se é mulher’”, diz.
Na produção autoral, experiências ligadas ao autismo também aparecem em trabalhos como o álbum Natureza Líquida (2023). Atualmente, a ópera ocupa o centro das atenções.
Na fase final do curso de Música da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ilus desenvolve o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) a partir da composição da primeira ópera autoral sobre autismo.
“Eu estou voltando-me à questão da ópera agora, voltando a estudar canto com toda força e estou no finalzinho do meu curso da Ufes com o projeto de TCC, que é a composição da minha primeira ópera. Esse é o meu projeto: terminar de compor essa ópera. A temática é sobre autismo”, afirma.
O processo de composição e dramaturgia segue avançando, enquanto Ilus projeta o retorno aos palcos. “Estou muito feliz com o que já consegui compor até agora, mas a ópera é um trabalho hercúleo. Já tenho a dramaturgia e pretendo voltar aos palcos com produções minhas”, completa.
Circular para além dos espaços reservados
A relação entre arte e existência também aparece quando experiências ligadas ao autismo ganham outra leitura em cena. No III Simpósio Adultos no Espectro (2025), no Rio de Janeiro, diante de um público majoritariamente autista, Ilus relata o impacto de ressignificar vocalidades e gestos.

Foto: Rebento Virgílio Libardi
“As pessoas me disseram que foi muito lindo me ver fazer estereotipias, ecolalia, tudo no palco e ressignificando isso. Porque se você joga na internet, aparece um monte de coisa ruim, como se fosse um pesadelo. E eu acho que a gente não merece isso. A gente merece ajuda, merece apoio, sabe das barreiras sociais, mas não merece ser descrito como um ser humano falhado”, relata.
Nesse movimento, a criação também se torna afirmação.
“Eu quero mostrar que a gente também é beleza, que a gente também é poesia, que a gente também produz coisas significativas”, afirma.
Mais do que participar de recortes específicos, a reivindicação está em não permanecer restrito a eles.
“Quer me chamar para festival exclusivamente de pessoas com deficiência? Ótimo, maravilhoso, eu gosto de cantar para esse público, é um público que eu tenho muito afeto. Mas eu também quero estar nos outros festivais. Eu também quero cantar junto com os outros artistas, porque eu sou uma artista também”, completa.
Ao insistir em ocupar diferentes palcos e circular para além dos espaços previamente reservados, Ilus reafirma a arte como lugar de presença, criação e permanência. Siga nas redes @sou.ilus.