"A literatura é capaz de construir pontes onde muitas vezes existem fronteiras."
— Isabella de Andrade
Por Carol Boueri
Fotos: Divulgação
O que nos define quando deixamos nossa terra natal? Como as cozinhas de infância, as estradas desconhecidas, as periferias urbanas e os rios de águas densas desenham quem somos? É na busca por responder a essas inquietações que nasce "Mulheres em Travessia: uma cartografia literária do pertencimento" (Diadorim Editora), obra organizada pelas escritoras e jornalistas Isabella de Andrade e María Elena Morán.
Com lançamento marcado para o dia 25 de julho na Casa Acaso, durante a efervescência da FLIP 2026, a coletânea reúne 18 escritoras de diferentes gerações e trajetórias do Brasil e da Venezuela. Ao longo de 152 páginas, o livro tece um mapa sensível de contos marcados por perdas, recomeços, corpos e memórias.

Para compreender os bastidores dessa vigorosa cartografia literária, conversamos com a co-organizadora Isabella de Andrade. Autora premiada e idealizadora do podcast Elas na Escrita (finalista do Prêmio Elas Publicam 2026), a brasiliense nos conduz pelos caminhos que transformaram o "deslocamento" de simples tema em um modo de encarar o mundo.
Uma ponte sobre as fronteiras
A semente de Mulheres em Travessia germinou a partir dos microfones do podcast comandado por Isabella. Ao entrevistar escritoras de todo o Brasil, ela percebeu um eco constante: por trás da criação literária, residiam sempre as marcas de intensas migrações geográficas e subjetivas.
"A coletânea surgiu do desejo de criar um espaço de encontro entre vozes que dificilmente estariam lado a lado em uma mesma publicação", revela Isabella. "Percebi que o tema dos territórios aparecia constantemente. Por mais que eu grave em São Paulo, as autoras vêm de diversos cantos do país, e essas migrações afetam diretamente o processo criativo, a escrita e os livros."
A parceria na organização com a venezuelana María Elena Morán (vencedora do Prêmio Café Gijón 2022) selou a pluralidade da obra. "A parceria com a María aconteceu de forma muito natural. Ela traz um olhar atravessado pela experiência da migração, da escrita entre países e línguas, enquanto eu venho pensando muito as diferentes formas de pertencimento das brasileiras", conta a organizadora, lembrando ainda que María foi a editora de seu premiado romance Baixo Paraíso.
O espaço como personagem
Na coletânea, os espaços têm papel importante na construção das histórias. Os contos passam por cozinhas de família, cidades e paisagens estrangeiras, e cada lugar interfere na forma como as personagens vivem suas experiências e tomam decisões.
“Os lugares guardam memória. Eles moldam a forma como olhamos para o mundo, como falamos, como nos relacionamos e até como lembramos das pessoas. Os espaços não são apenas pano de fundo; eles participam das escolhas das personagens, carregam afetos, ausências e conflitos”, aponta Isabella.
A coletânea reúne 18 autoras, entre elas Lilia Guerra, Mar Becker, Jana Viscardi e Elizandra Souza. A maioria participou das gravações do Elas na Escrita, presencialmente ou à distância, o que também ajudou a aproximar os diferentes textos reunidos no livro.
Durante a leitura dos originais, as organizadoras identificaram temas que apareciam com frequência, como deslocamento, memória, família, corpo, linguagem, perdas e recomeços. Foi a partir dessa recorrência que a ideia de travessia ganhou força e passou a orientar a coletânea.
“Percebemos que havia questões recorrentes: deslocamentos, memória, família, corpo, linguagem, perdas, recomeços. A travessia acabou deixando de ser apenas um tema para se tornar uma forma de olhar o mundo.”
O que significa pertencer?
Em tempos de conexões velozes e muros invisíveis, os conceitos de "lar" e "identidade" se ressignificam. Para Isabella, a noção de pertencimento contemporâneo abandonou a rigidez de um ponto estático no mapa.
"Acho que pertencimento hoje tem menos a ver com um lugar fixo e mais com aquilo que conseguimos construir ao longo do caminho. Muitas mulheres vivem atravessamentos constantes de cidade, de país, de profissão, de papéis sociais... Nesse contexto, pertencer talvez seja encontrar espaços onde seja possível existir com complexidade, sem precisar simplificar quem somos. A literatura tem essa potência de criar comunidades que não dependem de proximidade física."
Essa mesma pluralidade desafiou e enriqueceu o próprio fazer literário de Isabella. Habituada a investigar o processo criativo alheio, ela extraiu uma lição de liberdade ao editar suas pares:
"Aprendi que a literatura não precisa buscar uma única forma de excelência. Existem muitas maneiras de construir um bom conto: pela linguagem, pela atmosfera, pelo ritmo, pela estrutura ou pela delicadeza dos detalhes. Ler essas autoras me lembrou que a escrita não precisa responder a expectativas externas o tempo inteiro."
O encontro marcado na FLIP 2026
Com apresentação assinada pela escritora e historiadora Dia Nobre, Mulheres em Travessia será entregue ao público em um dos palcos mais charmosos do circuito literário nacional. No dia 25 de julho, a Casa Acaso, na FLIP, abrirá as portas para acolher o lançamento e reunir parte das autoras para debater a literatura como espaço de escuta e imaginação.
Para Isabella, o sentimento que coroa a jornada do leitor ao fechar a última página resume-se em duas palavras-guia: reconhecimento e identidade.
"Espero que, ao terminar a leitura, cada pessoa encontre alguma parte de si nessas histórias. Mesmo quando os cenários ou as personagens parecem distantes, a literatura revela algo profundamente humano. Se o livro provocar esse reconhecimento, do outro e de si mesmo, ele terá cumprido o seu papel."
Serviço: Livro: Mulheres em Travessia: uma cartografia literária do pertencimento (152 págs)
Organizadoras: Isabella de Andrade e María Elena Morán
Editora: Diadorim Editora (Preço: R$ 79,90)
Lançamento: 25 de julho de 2026, na Casa Acaso – FLIP 2026
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