[DF] Onde Athos Bulcão continua conversando com Brasília

[DF] Onde Athos Bulcão continua conversando com Brasília

Na Fundação que leva seu nome, em Brasília, o artista deixa de ser apenas o autor dos icônicos azulejos modernistas para revelar uma obra múltipla, inquieta e permanentemente aberta ao diálogo com novas gerações

Por Carol Boueri (com informações de Maria Clara Miranda)
Fotos: Maria Clara Miranda

Há artistas que produzem obras. Outros produzem paisagens. Athos Bulcão pertence a uma categoria ainda mais rara: a daqueles que alteram a forma como uma cidade é percebida. Em Brasília, sua arte não se limita às galerias nem ocupa um lugar de contemplação silenciosa. Ela atravessa fachadas, acompanha o caminhar dos pedestres, colore hospitais, escolas, igrejas e edifícios públicos. Tornou-se parte da experiência cotidiana da capital, integrada à arquitetura de Oscar Niemeyer de maneira tão natural que, muitas vezes, deixa de ser notada.

Quem chega à Fundação Athos Bulcão costuma reconhecer imediatamente os padrões geométricos que se tornaram marca registrada do artista. A visita, porém, revela uma produção muito mais diversa, reunindo obras, documentos e objetos que mostram diferentes momentos de sua trajetória.

Antes das obras, chegam os livros

Logo na entrada, uma biblioteca especializada reúne publicações sobre Athos Bulcão, arquitetura, urbanismo, arte moderna e a própria história da capital federal. Não se trata apenas de um acervo disponível para consulta. O ambiente funciona como uma espécie de antessala intelectual, sugerindo que compreender Athos exige também compreender o contexto cultural que moldou sua produção.

Você só precisa atravessar esse primeiro espaço para abandonar completamente a ideia de que o artista pode ser resumido aos seus famosos azulejos.

Ao longo do percurso, gravuras, estudos, pinturas, composições e painéis revelam um criador inquieto, cuja pesquisa visual transitava com naturalidade entre diferentes suportes. A geometria aparece como sua marca registrada, mas ainda assim não pode ser entendida como repetição pois é composta também pelo improviso, acaso e uma permanente disposição para experimentar, características que fizeram de Athos Bulcão um dos artistas mais singulares do modernismo brasileiro.

A Fundação preserva esse legado sem transformá-lo em monumento. Na verdade, o espaço parece interessado em manter sua obra em circulação, permitindo que novas leituras continuem surgindo décadas depois de sua criação.

Athos Bulcão e o legado que continua sendo reinterpretado

Essa vocação se manifesta de maneira especialmente sensível na Galeria Bulcão, dedicada às exposições temporárias.

Durante a visita, a mostra Tudo se transforma em alvorada, do artista visual Ismael Monticelli, estabelecia um diálogo delicado com uma produção pouco conhecida de Athos Bulcão: sua série de máscaras.

É curioso perceber como um conjunto quase ausente do imaginário popular torna-se ponto de partida para novas investigações poéticas. Em vez de reproduzir a estética de Athos, Monticelli aproxima-se dela para construir uma linguagem própria, reunindo pinturas, serigrafias e uma intervenção mural que expande o espaço expositivo e convida o visitante a perceber a continuidade entre passado e presente.

O encontro entre os dois artistas mostra bem o que a Fundação faz de mais interessante: não trata o acervo como algo estático.

Embora Athos Bulcão seja lembrado, sobretudo, como um dos símbolos da arquitetura moderna brasileira, sua produção nunca se limitou a isso. Pintura, desenho, gravura, ilustração, cenografia e experimentações visuais também fazem parte do percurso do artista.

Além das exposições, a Fundação promove oficinas abertas ao público que colocam a mão na massa com a linguagem visual de Athos, seja criando versões de obras de Athos por meio da aplicação de adesivos geométricos em azulejos, usando a técnica de estêncil para estampar padrões icônicos em tecidos ou ainda recriando padrões geométricos por meio de origami. 

Ao final da visita, uma pequena loja da Fundação vende livros, reproduções autorizadas, objetos de design, cerâmicas, jogos e peças inspiradas na linguagem visual de Athos. E essa é uma forma incrível de levar para casa um pouco desse pensamento estético que sempre defendeu a presença da arte no cotidiano.

Depois de conhecer o acervo e participar das oficinas, os azulejos espalhados pela cidade deixam de parecer apenas revestimento: voltam a ser reconhecidos como o que são, obra de arte integrada à arquitetura.

SERVIÇO - Fundação Athos Bulcão  

Endereço: SCRS 510, Bloco B, Loja 51 – W3 Sul, Asa Sul, Brasília  
Funcionamento: segunda a sexta-feira, das 9h às 18h; sábados, das 9h às 14h
Entrada: gratuita 
A programação de exposições é renovada periodicamente  
Visitas mediadas: escolas, universidades e grupos podem agendar visitas mediadas pelo e-mail fundathos@fundathos.org.br
Cursos e formação: a programação varia conforme o calendário cultural da instituição .