Por Angélica Cabral
Fotos: acervo do autor
Houve um dia em que Chica Xavier leu, em voz alta, um texto assinado por Victor Meirelles. Para o ator, escritor e pesquisador criado em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio, esse encontro se tornaria uma das lembranças mais caras de uma relação que atravessa anos de trabalho dedicado a manter viva a memória da atriz, uma das artistas negras mais importantes da cultura brasileira.
Essa relação ganhou agora um novo capítulo: ao lado de Paty Fonte, Victor assina o verbete poético-biográfico dedicado a Chica Xavier (1932-2020) em "Um Rio de Resistências: Dicionário Biográfico – Histórias Entrelaçadas de Mulheres Amefricanas do Rio de Janeiro", obra lançada durante a abertura dos Processos Formativos da Flup 2026.

Para Victor, o convite representa mais do que um reconhecimento profissional. É a continuidade de uma missão iniciada muito antes da publicação. Ao longo dos últimos anos, ele participou de diferentes iniciativas voltadas à preservação da memória da atriz, entre elas a criação do Centro Cultural Chica Xavier, no Complexo do Alemão, a colaboração na biografia “Chica Xavier: A Mãe do Brasil”, na exposição “Chica Xavier: 80 Anos de Amor e Fé” e na pesquisa do enredo da Acadêmicos do Cubango inspirado na artista.
"É uma emoção, mas também um trabalho de muita responsabilidade. Manter essa trajetória viva permite que outras pessoas, como eu, encontrem nela inspiração para acreditar que é possível construir uma carreira por meio da arte, da educação e do conhecimento."
A relação entre Victor e Chica Xavier também foi construída em encontros ao longo da vida. O escritor lembra com emoção da oportunidade de vê-la ler um texto de sua autoria e afirma que o maior legado da atriz vai além dos personagens que interpretou. "Ela acolhia todos como se fossem da família. Mesmo com todo o reconhecimento, nunca perdeu a humanidade."
Criado em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Victor faz questão de levar suas origens para onde quer que vá. Para ele, a periferia é um território de criatividade, solidariedade e produção cultural, muito distante da imagem limitada que frequentemente ocupa o noticiário. "Existe uma riqueza imensa dentro das favelas. Ela está na arte, no afeto, na coletividade e no conhecimento que tantas vezes permanece invisível."
Essa vivência influencia diretamente sua atuação como ator, escritor, jornalista, arte-educador e pesquisador. Com projetos realizados em mais de 500 cidades, 32 estados e sete países, Victor Meirelles defende a literatura como ferramenta de transformação social e acredita que ela precisa dialogar com o cotidiano das pessoas. "A literatura não está apenas nos livros. Ela está no rap, no samba, nas histórias contadas em casa, nas redes sociais e nas experiências que compartilhamos todos os dias. Quando as pessoas se reconhecem nessas narrativas, percebem que também podem escrever suas próprias histórias."
Ao refletir sobre a trajetória de Chica Xavier, o autor também chama atenção para os desafios que persistem para artistas negros. Embora reconheça avanços na representatividade, acredita que ainda faltam oportunidades, protagonismo e igualdade de condições no mercado cultural. Mesmo assim, prefere seguir inspirado pelo exemplo da atriz baiana. "Ela me ensinou que quem ama o que faz não pode parar. É preciso continuar criando, estudando e acreditando."

Depois da Flup, Victor segue com novos projetos no Brasil e na Espanha, entre eles lançamentos literários, pesquisas acadêmicas, espetáculos teatrais e a finalização do curta-metragem “Machado Presente, Assis Tenho Dito”, em que interpreta Machado de Assis.
Ao transformar a trajetória de Chica Xavier em literatura, Victor Meirelles reafirma que preservar a memória também é um ato de resistência. É um trabalho que ultrapassa o registro da história de uma artista que abriu caminhos para tantas gerações... E ajuda a garantir que esse legado continue inspirando novos talentos, especialmente aqueles que, como ele, aprenderam desde cedo que a arte pode ser uma poderosa ferramenta para reinventar o próprio destino.