[ES] Pierre Guaraci transforma o Transtorno Dissociativo de Identidade em arte

[ES] Pierre Guaraci transforma o Transtorno Dissociativo de Identidade em arte

Apresentado como “10 artistas, 1 corpo”, o projeto 10x1 do artista maranhense-capixaba convida o público a refletir sobre identidade, memória e saúde mental.

Por Gustavo Domingos
Fotos: acervo do artista

Reunir em um mesmo espaço produções com propostas, técnicas e assinaturas diferentes foi o ponto de partida do 10x1. Criado por Pierre Guaraci, o projeto reúne desenhos, pinturas, fotografias, poemas, colagens, registros de dança e um fanzine. A abertura dos trabalhos ao público começa ainda no mês de agosto.

O projeto nasceu porque Krow queria participar de exposições, Ofélia queria enviar poesias para concursos, Hárpia queria ser performer, e eu queria ser diretor de animação e produtor cultural. Ficariam assinaturas demais, então quis reunir tudo em um lugar só para organizar melhor”, conta Pierre.

No 10x1, as diferentes identidades que Pierre relata vivenciar, conhecidas como alteres no contexto do Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), participam do processo de criação. Cada uma possui interesses, técnicas e formas próprias de escrever, produzir e interpretar uma proposta.

Entre os trabalhos concluídos até o momento estão criações de Pierre, Krow, Ofélia e Nô. Algumas produções envolvem todos os integrantes, enquanto outras são desenvolvidas individualmente, em duplas ou em trios.

Temos obras e projetos que envolvem todo mundo, mas, muitas vezes, surge uma ideia e eu tento escolher até dois alteres para desenvolvê-la em conjunto ou produzir duas versões diferentes. É realmente uma dinâmica de coletivo”, afirma.

Para organizar a convivência e o desenvolvimento dos trabalhos, Pierre conta que foi necessário mudar a maneira como o próprio projeto era compreendido.

Para esse projeto funcionar, foi fundamental trocar a ideia de ‘transtorno’ ou ‘doença’ por ‘coletivo’ e garantir que cada um tivesse respeito pelo outro e não brigasse”, explica.

A pesquisa, a escolha das técnicas e a organização do processo fazem com que algumas produções levem de alguns meses até um ano para serem finalizadas.

Pierre também deseja realizar uma exposição própria do 10x1, reunindo as artes e instalações desenvolvidas no projeto. Ele gostaria de transformar a mostra em seu trabalho de conclusão de curso.

Uma trajetória feita de muitas linguagens

A vontade de experimentar acompanha Pierre desde a infância. A mãe sonhava em estudar artes e incentivava seu interesse. A irmã, que ingressou no curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), apresentava movimentos artísticos e ensinava a produzir tintas aquareladas.

Pierre já escrevia e fotografava quando, no nono ano do ensino fundamental, começou a aprender animação por conta própria. Durante o ensino médio, estudou produção de animação, participou de um projeto de pintura na escola, teve aulas de piano e aprendeu a dançar carimbó. Na família, era visto como alguém inquieto, sempre envolvido em uma nova experiência.

Hoje, aos 21 anos, cursa Artes Plásticas na Ufes e estuda para atuar como produtor cultural e diretor de animação. Sua produção passa por diferentes linguagens e inclui desenhos figurativo-abstratos sobre papel reciclato, roteiros de animação e trabalhos construídos a partir das técnicas escolhidas para cada proposta.

Para Pierre, experimentar linguagens diferentes também ajuda a compreender o lugar ocupado pela criação em sua vida. “Eu experimento com tudo até encontrar o que mais sinto que se encaixa na minha proposta. Para que isso aconteça, tenho que passar meses estudando diversas técnicas. Com o tempo, fica mais fácil, porque todas acabam tendo semelhanças”, explica.

Não tem como separar a arte de mim. É como eu aprendi a me relacionar com o mundo ao meu redor.”

Nascido em São Luís, no Maranhão, ele chegou ao Espírito Santo aos nove anos. Ao se apresentar como maranhense-capixaba, fala de uma relação construída com os dois estados, sem sentir que pertence completamente a apenas um deles.

Eu tenho uma relação muito forte de não-lugar e não-existência com os dois. Não pertenço a nenhum e, portanto, pertenço aos dois. Ser maranhense é uma condição que só existe quando estou no Espírito Santo, e ser capixaba é uma condição que só existe quando estou no Maranhão”, relata.

Arte, identidade e acolhimento

Em maio e junho de 2026, Pierre participou da TRANSocupação, mostra realizada no Centro de Artes da Ufes como resposta a episódios de transfobia no ambiente universitário.

Artista não-binário, ele encontrou na exposição um espaço seguro para apresentar sua produção ao lado de outras pessoas trans. A experiência ganhou um significado especial diante das perguntas invasivas, dos olhares insistentes e das reações de estranhamento que relata ter enfrentado durante seu processo de transição hormonal.

Foi confortante estar cercado de artistas trans e ver as pessoas procurando a nossa arte e as nossas narrativas. Estar em uma exposição trans é confortável e seguro. Espero que existam mais exposições desse tipo em cidades menores”, conta.

O processo de conclusão do laudo de TDI ainda está em andamento. Ao falar sobre o assunto, Pierre destaca o receio de que um diagnóstico altere a forma como sua capacidade seja percebida nas relações pessoais e profissionais.

Diagnósticos, para mim, equivalem a medo. É importante seguir com essa arte e essa visão neurodivergente, mas tenho pensado muito no sofrimento que vem acompanhado disso”, afirma.

Tornar essa experiência pública também envolve a possibilidade de enfrentar incompreensão e preconceito. No 10x1, Pierre encontrou uma forma de criar e compartilhar essa vivência com mais tranquilidade.

Penso que, para abrir caminhos, é necessário vulnerabilidade. Tive que estar de acordo com a possibilidade de sofrer bullying e assédio depois de me abrir publicamente sobre isso, se for necessário para existir de uma forma que me traga a paz que o 10x1 oferece”, completa.

Coletividade e próximos caminhos

Pierre integra o Coletivo Atipicamente, grupo de artistas neurodivergentes que surgiu na Ufes e vem ampliando sua atuação para receber pessoas de fora da universidade.

A importância desse espaço ficou evidente durante uma das primeiras exposições do grupo. Enquanto montava uma obra sobre TDI, Pierre explicou brevemente o tema a um visitante, que perguntou: “Isso realmente existe?”.

Essa pergunta justificou imediatamente a importância do coletivo e daquela exposição para mim”, conta.

Nos próximos anos, Pierre pretende criar o estúdio de animação Filmestufa e produzir Dandara Verde, websérie infantil de fantoches voltada para a fauna, a flora e as culturas capixabas.

O trabalho do artista e os próximos passos desses projetos podem ser acompanhados pelo perfil @pierre.guaraci. Em breve, o portal da Traços irá apresentar mais artistas do Coletivo Atipicamente. Acompanhe!