Documentário revela como a espionagem industrial americana e os porões do regime militar sabotaram o projeto revolucionário do cinema nacional nos anos de chumbo
Por Carol Boueri
Foto: Divulgação / É tudo verdade
No próximo dia 6 de agosto, o cinema brasileiro ganha um novo e poderoso manifesto histórico com a estreia nacional do documentário Os Ruminantes.
Dirigido pelo pesquisador e cineasta Marcelo Mello em parceria com a cineasta Tarsila Araújo, o longa — que também terá uma sessão especial em Brasília no dia 17 de agosto — joga luz sobre um dos maiores mistérios e injustiças da nossa história cultural: o sufocamento de A Hora dos Ruminantes, projeto do genial Luiz Sergio Person que poderia ter revolucionado o cinema mundial.
Mergulhar nesse documentário é entender como os porões da ditadura militar e o glamour dos grandes estúdios americanos operaram em uma simbiose silenciosa para ditar o que o brasileiro podia ou não assistir.
O "recibo" de Glauber Rocha: o achado no Arquivo Nacional
A engrenagem do filme começou a girar quando Marcelo Mello, durante a pesquisa para sua tese de doutorado, deparou-se com um documento estarrecedor no Arquivo Nacional, em Brasília. Trata-se de uma correspondência de 1972 na qual Harry Stone, o poderoso lobista e "embaixador de Hollywood" no Brasil, atua diretamente como uma extensão do aparato repressivo, trocando informações com a cúpula da ditadura.
"Durante muito tempo, se especulou sobre essa intervenção de Hollywood nos cinemas do Terceiro Mundo", explica Marcelo. "Essa associação [MPEAA], que representa gigantes como Universal e MGM, desmontou indústrias na África e na Ásia. No Brasil, encontrei a prova material: uma triangulação onde um general da repressão, após receber uma denúncia, aciona Harry Stone para investigar quem estava exibindo o filme O Caso dos Irmãos Naves no prestigiado Carnegie Hall, em Nova York".
O filme de Person, lançado em 1966, havia driblado os "censores burros" da época por se passar historicamente na Era Vargas, mas era uma óbvia e corajosa denúncia contra a tortura praticada pelo regime militar contemporâneo. Ao cruzar as fronteiras e alcançar os Estados Unidos em 1972, o longa acendeu o alerta dos militares brasileiros. Stone agiu rápido, acionou seus contatos em Nova York e repassou o relatório para o seu "amigo general".
O impacto foi devastador. Poucos meses após essa quebra de braço invisível, Person viajou aos Estados Unidos na tentativa de angariar fundos para tirar do papel A Hora dos Ruminantes. "Ele não era maluco, tinha portas que achava que iam se abrir, tinha estudado fora. Mas não deu em nada. Juntando as peças desse quebra-cabeça que tentaram apagar, a hipótese é clara: ele entrou em uma lista negra cultural", pontua Marcelo.
A ilha de edição: dando imagem ao invisível
Se a censura e o boicote econômico minaram a carreira de Person — que realizou pouquíssimos longas, mas cravou obras-primas eternas no nosso cinema —, o desafio de Tarsila Araújo e Marcelo Mello na direção foi estético: como fazer um documentário sobre um filme que nunca foi filmado?
"Essa era a nossa grande pergunta na ilha de edição: qual vai ser a imagem do filme?", relembra Tarsila. A solução encontrada pela diretora foi um mergulho profundo na história da própria cinematografia nacional, utilizando imagens de arquivo em domínio público do acervo de Nitratos da Cinemateca Brasileira, abrangendo registros das décadas de 1920 a 1960.
"Para ilustrar as cenas do roteiro original escrito por Person e Jean-Claude Bernardet, fomos costurando pedaços de outros filmes. Se o roteiro pedia uma boiada ou uma cidadezinha do interior sendo invadida por homens uniformizados, nós passávamos horas infinitas assistindo a materiais antigos para achar aquela imagem exata", conta a cineasta. O documentário cria uma tapeçaria visual riquíssima, resgatando fragmentos de Humberto Mauro, Rogério Sganzerla e Zé do Caixão, além de trazer o próprio autor do livro original, José J. Veiga, lendo trechos da obra.
O roteiro de A Hora dos Ruminantes (escrito em 1967, mesmo ano de lançamento de Cem Anos de Solidão) usava o realismo fantástico como escudo político. A invasão de uma pacata cidade por forasteiros, cachorros e bois era a metáfora perfeita para o sufocamento psicológico e o medo imposto pelos militares. Em uma provocação irônica que liga o passado ao presente, a montagem do documentário faz uma crítica atualíssima: o ex-ministro Ricardo Salles faz uma "aparição" surpresa nos minutos finais do filme com sua célebre frase sobre "passar a boiada".
O legado destemido e o resgate da soberania
Para além da denúncia histórica sobre a colonização cultural promovida pelo mercado americano — "Uma forma de colonizar os outros países e silenciar nossas narrativas", define Tarsila —, Os Ruminantes se consolida como uma grande declaração de amor ao cinema nacional e à figura mítica de Luiz Sergio Person.
O documentário revela um diretor obstinado, que pensava grande e sem medo. Person chegou a planejar o convite a Marlon Brando para atuar no longa e, mesmo quando o produtor original recuou e o projeto desmoronou, ele vendeu latas valiosas de negativos coloridos para comprar películas em preto e branco e rodar Cássia Valéria, tentando usar a bilheteria para autofinanciar seu sonho fantasmagórico.
Hoje, em um momento em que produções nacionais que investigam as feridas da ditadura voltam a ser aplaudidas internacionalmente, o documentário resgata o direito à memória coletiva. "Depois de virmos de um período recente terrível para a cultura, onde tentaram apagar a história e chamar ditadura de 'revolução', poder contar a verdade através do cinema é um ato de soberania", defende Tarsila.
Realizado com a garra de um orçamento enxuto viabilizado pela Lei Paulo Gustavo, Os Ruminantes prova que, embora tenham tentado confiscar o futuro de Luiz Sergio Person, a sua coragem permanece impossível de censurar.
Nota de bastidor de Brasília
Para Marcelo, a conexão afetiva com a capital federal amarra toda a história. Corroteirista do projeto original, Jean-Claude Bernardet foi professor da Universidade de Brasília (UnB) e um dos muitos demitidos pela perseguição política do golpe. Foi nos corredores da UnB que Person e Bernardet se uniram.
E, em um daqueles acasos poéticos que parecem saídos do realismo mágico, Marcelo deu a entrevista de dentro do Cine Brasília. O mesmo cinema onde, em 1967, a mãe dele assistiu à exibição original de O Caso dos Irmãos Naves. O quebra-cabeça, finalmente, está completo.
Serviço - Os Ruminantes (Documentário)
- Estreia nacional: 6 de agosto de 2026 nos cinemas
- Sessão especial em Brasília: 17 de agosto de 2026