[DF] Lúcio Piantino: A explosão cromática e a vanguarda da arte inclusiva no quadradinho

[DF] Lúcio Piantino: A explosão cromática e a vanguarda da arte inclusiva no quadradinho

O expressionismo vibrante do artista do DF que uniu a força do gesto à conquista inédita de espaço no mercado nacional 

Por Igor TX
Fotos: acervo do artista; Barbara Queiróz

O cenário das artes plásticas em Brasília carrega uma identidade única, moldada pelo concreto de Niemeyer, mas preenchida pela vivacidade de artistas que desafiam o óbvio. Entre eles, Lúcio Piantino se destaca pela força de suas telas e por sua trajetória que redefine os conceitos de autonomia e expressão artística no Brasil.

Aos 31 anos, a trajetória de Lúcio Piantino carrega um pioneirismo fundamental na cena cultural do Distrito Federal e do país. Sendo um artista com síndrome de Down, ele subverteu a lógica do "assistencialismo" para se firmar estritamente pelo valor e pela qualidade de sua produção. Lúcio foi o primeiro artista com a condição a obter o registro profissional (DRT) de artista plástico no Brasil e a ser associado à União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP).

Sua carreira internacional inclui exposições marcantes em locais como a Itália (Perugia) e Portugal (Lisboa), além de passagens por importantes galerias nacionais e espaços institucionais em Brasília, como o Museu Nacional da República e o Complexo Cultural de Planaltina.

“Tive a oportunidade de levar minha arte para outros lugares além do Brasil e me conectar com pessoas com condições e sonhos parecidos com os meus. Gosto de pensar que não tenho limites, mas sim novas possibilidades pela arte”, afirmou Piantino para a Revista Traços.

As pinturas de Lúcio são puro movimento. O trabalho do artista dialoga diretamente com o expressionismo abstrato, uma vertente onde o processo de pintar importa tanto quanto o resultado final.

Em seu ateliê, o chão e as paredes muitas vezes se tornam extensões da obra. Lúcio trabalha com contrastes vibrantes, criando camadas que convidam o espectador a decifrar os caminhos percorridos pelo artista.

“Quando pinto eu me desconecto. Viro só eu, a tela e as tintas, uma sensação única. É tanto prazer que me sinto em outro estado, que consigo tirar de mim alguns dos sentimentos mais profundos”, respondeu Lúcio sobre a sensação ao pintar.

Além das Telas: Performance e Literatura

A inquietude criativa de Lúcio não cabe apenas no suporte bidimensional da pintura. Ele expande sua atuação para as artes cênicas e a performance, integrando o corpo como elemento de questionamento e ocupação dos espaços urbanos.

Essa potência cênica ganha uma de suas expressões mais vibrantes quando Lúcio dá vida à drag queen Ursula Up. Através de Ursula Up, o artista participa de eventos, performances e peças que promovem a diversidade, subvertendo padrões e levando o debate sobre inclusão para os palcos e para a cultura pop de forma festiva, política e autêntica.

Ainda em 2025, Ursula Up foi aos palcos com o espetáculo “Conversa de Drags”, ao lado da também drag queen Odete Croquete, interpretada por sua mãe, Lurdinha Danezy Piantino. A peça foi apresentada no Espaço Cultural Renato Russo e no Instituto Federal de Brasília, e marcou a estreia de Ursula nos palcos.

“É engraçado pois por eu ter a minha condição, as pessoas imaginam que eu não tenha uma orientação sexual, quando na verdade sou bem resolvido quanto a isso. Sou abertamente gay e me posiciono na arte também em defesa da diversidade”, comentou Lúcio.

Em tempos onde o mercado de arte busca vozes autênticas e que fujam do hermetismo tradicional, Lúcio Piantino se firma como um dos nomes mais vitais e dinâmicos de Brasília. Suas telas continuam a circular, provando que a verdadeira vanguarda artística reside na liberdade absoluta de criar.