Por Carol Boueri
Fotos: acervo do artista
Nascido em Brasília, formado pela Universidade de Brasília (UnB) e criado em meio à arte, Agman acaba de alcançar um marco que poucos artistas podem reivindicar: ter uma obra exposta no Palácio do Planalto, um dos espaços mais simbólicos do país.
A conquista veio com "Gira Mundo", obra que passou a ocupar um lugar de destaque atrás da rampa presidencial, por onde passam chefes de Estado, autoridades e visitantes da sede do Poder Executivo federal. E não se trata de uma exposição temporária - a peça foi doada pelo artista e agora integra permanentemente o acervo do palácio.
Para Agman, a chegada da obra ao Planalto tem um significado especial também por sua ligação com a capital federal. "Eu, que sou brasiliense, sei da importância dali, do prédio, do simbolismo", afirma.
Filho do artista Agadman Alves Benvindo, Agman cresceu cercado pela produção artística. Embora o pai tenha deixado Brasília quando ele ainda era criança, foi no ateliê familiar no Prado, Sul da Bahia, que encontrou sua principal escola. A técnica do entalhe em madeira, uma das marcas de sua produção, foi aprendida diretamente com o pai.
"Ele ensinou a técnica, mas sempre fez questão de deixar o caminho da criação muito livre para que eu mesmo decidisse", conta.
A relação com Brasília também atravessa sua formação acadêmica. Foi na UnB que se graduou em Design de Produto, área que continua influenciando sua produção artística e seus projetos ligados ao mobiliário e ao design contemporâneo.
Hoje, depois de anos conectado ao litoral, o artista revive a cena e as inspirações artísticas da capital federal. Voltou a Brasília há um ano e meio.
As voltas que o mundo dá
A concepção de "Gira Mundo" começou muito antes de a obra encontrar seu destino definitivo. O artista desejava criar um trabalho em formato circular, inspirado também por produções anteriores do pai. O projeto chegou a ser pensado para outro concurso, mas acabou ficando arquivado por alguns meses.
O rumo da história mudou quando Agman foi apresentado a Rogério Carvalho, curador de arte responsável pela restauração de obras danificadas nos ataques de 8 de janeiro e envolvido com os acervos dos palácios presidenciais. O encontro aconteceu por intermédio de uma amiga em uma história que o artista descreve como quase mística.
Segundo ele, havia a busca por uma obra capaz de dialogar com dois trabalhos contemporâneos já expostos no local, dos artistas Daiara Tukano e Galeno, conhecidos pelo uso intenso das cores. Ao conhecer a produção de Agman, Rogério enxergou em "Gira Mundo" a possibilidade de criar essa conexão visual.
O resultado foi além do esperado.
Instalada diante de uma parede espelhada projetada por Oscar Niemeyer, a obra parece flutuar no espaço. Como o painel é vazado, o reflexo permite que o visitante se veja dentro da composição.

"Você se insere ali dentro. De repente, está do lado dos personagens do trabalho", explica.
A escultura reúne figuras humanas de diferentes idades, origens e características, todas conectadas em movimento circular. A proposta não era representar cada grupo da diversidade brasileira de forma literal, mas sugerir a convivência entre diferentes pessoas compartilhando o mesmo mundo.
"São pessoas de diversas etnias, diversas idades. A vida acontecendo. Às vezes você está em cima da roda da vida, às vezes está embaixo."
A alegria também ocupa um papel central em sua produção. O artista gosta de retratar pessoas em celebração, brincando ou compartilhando momentos coletivos. É uma característica que, para ele, dialoga diretamente com a identidade brasileira.
Mas "Gira Mundo" guarda ainda outras camadas. Entre estampas, roupas e pequenos detalhes, o trabalho esconde referências a artistas e criadores que marcaram sua trajetória. Estão ali homenagens a Galeno, ao mestre do couro Expedito Seleiro, ao artista uruguaio Joaquín Torres García e ao próprio pai, representado discretamente em uma das figuras.
Enquanto ainda tenta processar a dimensão do momento, Agman admite que não consegue imaginar um destino melhor para a obra.
"Se você me perguntasse em qualquer lugar do Brasil onde eu gostaria de ver uma obra minha, eu não saberia falar um lugar melhor."
Para quem cresceu em Brasília observando a cidade, estudou em suas salas de aula e construiu nela sua identidade artística, a roda da vida parece ter completado mais uma volta. Conheça mais obras do artista: @agmanart