[RJ] Muito além do palco: a arte de transformar olhares

[RJ] Muito além do palco: a arte de transformar olhares

Por Angélica Cabral
Foto: Mandawa Estúdio

Quando Pedro Fernandes entrou pela primeira vez em uma sala de aula de teatro, ainda no colégio, não imaginava que aquela experiência definiria seu futuro. O convite era simples: assistir ao ensaio de uma turma já em andamento. Bastaram alguns minutos para que a dúvida desse lugar à certeza. Ali, descobriu que queria fazer da atuação seu projeto de vida.

Natural de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, aquele jovem com paralisia cerebral e cognitivo preservado seguiu o caminho da formação profissional, passou por cursos livres, estudou no Tablado e concluiu a formação técnica em teatro em 2014. Mais de uma década depois, acumula trabalhos nos palcos, na TV e em projetos que fazem da cultura um espaço mais acessível e plural.

O grande encontro entre teatro e televisão aconteceu de forma quase inesperada. Durante uma apresentação de “Meu Corpo Está Aqui”, espetáculo que estreou em 2023, Pedro estava no palco e, entre os espectadores, estava a autora Rosane Svartman. Impressionada com o trabalho do ator, fez o convite para que ele integrasse o elenco da novela Dona de Mim.

Assim nasceu Peter, personagem que também é uma pessoa com deficiência, mas cuja trajetória não se resume a essa característica. Para Pedro, interpretar o papel foi um exercício de equilíbrio entre realidade e ficção. “Foi uma grande honra fazer o Peter, que tem muitos elementos da minha vida e da minha vivência, mas que também tem sua própria história. Foi muito especial dar vida a ele.”

A experiência na novela reforçou uma convicção que o acompanha desde o início da carreira: o audiovisual brasileiro avançou, mas há ainda um caminho importante a percorrer. “Quando comecei no teatro, praticamente não tinha referências de atores com deficiência. Hoje já conseguimos enxergar esse movimento acontecendo, só que é preciso olhar para esses corpos com naturalidade e reconhecer toda a potência que eles têm.”

Essa mesma perspectiva também conduz “Meu Corpo Está Aqui”, espetáculo criado por Julia Spadaccini. Longe de abordar a deficiência sob o viés da superação, a montagem apresenta histórias inspiradas nas experiências do próprio elenco e propõe um debate ainda raro nos palcos brasileiros: o direito das pessoas com deficiência ao desejo, ao afeto, à sexualidade e à autonomia. A peça, que circula por festivais, cidades brasileiras e apresentações internacionais há três anos, integra a programação do Festival de Teatro do Rio no próximo dia 4 de agosto, no Teatro TotalEnergies.

Mas limitar Pedro Fernandes à atuação seria contar apenas parte da história.

Formado também em Serviço Social, ele decidiu ampliar seus conhecimentos para compreender melhor os direitos das pessoas com deficiência e transformar esse aprendizado em ação. Dessa inquietação, nasceu a Criatípica, empresa especializada em consultoria de acessibilidade para festivais, shows e eventos culturais.

A proposta é pensar a inclusão para além das rampas e dos espaços reservados. A empresa atua para que PCDs estejam presentes em toda a cadeia produtiva da cultura, como artistas, produtores, técnicos e profissionais de diferentes áreas. O olhar também contempla a diversidade da comunidade LGBTQIAPN+, realidade vivida pelos próprios fundadores.

Festivais como Rock The Mountain e Spanta Neném já receberam a consultoria da empresa, que hoje atua em diferentes estados brasileiros, levando acessibilidade para dentro dos bastidores da produção cultural.

Antes de chegar à TV, Pedro também integrou o elenco dos Doutores da Alegria, trabalho que ajudou a fortalecer sua sensibilidade artística e seu compromisso com uma atuação conectada às pessoas. Para ele, todas essas experiências dialogam entre si e ajudam a construir uma visão mais humana sobre as relações e sobre os personagens que interpreta.

Se depender do ator, o futuro da dramaturgia será marcado por menos rótulos e mais liberdade criativa. “Todo corpo com deficiência pode fazer qualquer tipo de personagem. Meu sonho é interpretar um vilão, um protagonista, personagens que não tenham a deficiência como característica principal. Quero que esse corpo possa ocupar todos os lugares.”

Enquanto esse desejo não se concretiza, Pedro já coleciona novos desafios. Ainda este ano, estará no filme “90 Decibéis”, escrito por Julia Spadaccini, produção que reúne um elenco majoritariamente formado por artistas com deficiência e amplia, mais uma vez, a presença desses profissionais no audiovisual brasileiro.

A trajetória de Pedro Fernandes mostra que representatividade não se limita à ocupação de espaço. Ela acontece quando a arte permite que diferentes corpos contem suas próprias histórias, ampliem perspectivas e sejam vistos, antes de qualquer definição, pelo talento que carregam. Para ficar por dentro de tudo o que rola com esse cara tão incrível e plural, siga o perfil dele no Instagram: @mundopedrofernandes