Da descoberta da MPB ainda na infância às rodas de samba de Irajá, Gabrielzinho construiu uma trajetória singular como cantor, compositor e guardião da memória do samba. Nesta entrevista, ele relembra encontros com grandes mestres, fala sobre inclusão e compartilha a história que o levou dos bastidores ao palco
Por Angélica Cabral
Fotos: Michelle Beff
Aos dois anos de idade, enquanto a maioria das crianças se encantava com desenhos animados e canções infantis, Gabriel Gitahy da Cunha já tinha outra obsessão: ouvir, repetidas vezes, o tema de abertura da minissérie Hilda Furacão, exibida pela TV Globo em 1998. Era "Resposta ao Tempo", na voz de Nana Caymmi. O fascínio foi tão grande que o menino quis saber quem era aquela cantora. A partir dali, nasceu uma paixão que mudaria sua vida para sempre.
Conhecido como Gabrielzinho do Irajá, o cantor, compositor, ator e versador, de 30 anos, construiu uma trajetória singular dentro do samba brasileiro. Mas antes de ser reconhecido pelo público, ele foi um ouvinte apaixonado, daqueles que mergulham fundo nas histórias por trás das canções. Depois de descobrir Nana, vieram Dorival, Danilo e Dori Caymmi. Em seguida, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, MPB-4, Toquinho, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia passaram a ocupar os dias de um garoto que parecia ter nascido em outra época.
A música chegou cedo. A deficiência visual também. Nascido prematuro, de sete meses, Gabriel passou mais de dois meses em uma incubadora. Durante esse período, sofreu três paradas cardíacas e 48 paradas respiratórias. O excesso de oxigênio utilizado para mantê-lo vivo provocou uma retinopatia da prematuridade, condição que causou a perda quase total da visão. Hoje, ele percebe apenas vultos, claridade e escuridão. Mas, como faz questão de ressaltar, isso nunca o impediu de viver plenamente.
Ainda criança, ingressou no Instituto Benjamin Constant, referência nacional na educação de pessoas cegas. Foi ali que aprendeu braille, desenvolveu autonomia, trabalhou a coordenação motora e teve acesso a atividades que moldariam sua formação artística. Teatro, música, idiomas, esportes e convivência fizeram parte de uma rotina que ajudou a construir o homem que viria depois.
Uma escola chamada Irajá
Se a MPB foi a porta de entrada para a música, o samba seria o grande amor da sua vida. O encontro aconteceu por intermédio da cantora Dorina, uma das vozes mais respeitadas do gênero e também cria de Irajá. Foi ela quem lhe apresentou um disco de samba pela primeira vez. O então menino ouviu, gostou e não parou mais. Vieram Fundo de Quintal, Arlindo Cruz, Sombrinha, Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto, Reinaldo e tantos outros artistas que ajudaram a formar seu repertório afetivo. Durante a entrevista para a Revista Traços, ele fez uma declaração emocionada: "A música entrou na minha vida através da família Caymmi, mas eu entrei na música através do samba".

E Irajá teve papel decisivo nessa história. O bairro da Zona Norte carioca, berço também de Zeca Pagodinho e Nei Lopes, funcionou como uma verdadeira universidade a céu aberto. Ainda bem pequeno, Gabrielzinho frequentava rodas, pagodes e encontros de compositores. Aos seis anos de idade, já surpreendia veteranos ao cantar sambas antigos, identificar autores e conhecer histórias que muita gente adulta desconhecia. Foi assim que conquistou a admiração de mestres como Monarco, Tia Surica, Bira Presidente, Nelson Sargento, Wilson Moreira e tantos outros que abriram as portas de um mundo que ele passaria a chamar de casa. "Eu fui abraçado por todo mundo do samba".
A ligação com a Portela nasceu desse convívio. Curiosamente, não foi o Carnaval que o conquistou primeiro, mas a Velha Guarda e a ala dos compositores. Levado por Dorina à quadra da Azul e Branco de Madureira, impressionou Monarco logo de cara, ao interpretar um samba pouco conhecido da obra do bamba portelense. Mais tarde, ajudou a fundar a escola mirim Filhos da Águia, tornando-se intérprete e autor de seu hino oficial. Foi também nesse período que conheceu artistas como Paulinho da Viola e Marisa Monte.
Inclusão além da tela
Outro capítulo fundamental de sua caminhada aconteceu em 2005. Durante uma apresentação teatral no Instituto Benjamin Constant, Gabriel chamou a atenção da autora Gloria Perez, que preparava o elenco da novela América. O convite para participar da produção mudou sua vida e, além de integrar a trama, ele viu a discussão sobre inclusão ganhar espaço em horário nobre.

Bastidores da novela América/Rede Globo
Para o artista, a novela representou um marco importante na visibilidade das pessoas com deficiência no Brasil. Desde então, ele acompanha avanços significativos, mas acredita que ainda há muito a ser feito. A falta de audiodescrição em cinemas, cardápios adaptados, recursos acessíveis e de tecnologias ao alcance da população ainda faz parte da realidade de milhões de PCDs.
Na plateia, Nana
Mas talvez nenhuma história simbolize melhor sua trajetória quanto a que aconteceu no Canecão. Molequinho, Gabriel assistiu ali ao primeiro show de sua vida: justamente um espetáculo de Nana Caymmi. Anos depois, retornou ao mesmo palco para lançar seu primeiro disco. Desta vez, não estava na plateia. Estava no centro das atenções, acompanhado por ídolos como Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila, Fundo de Quintal, Almir Guineto, Dorina, Velha Guarda da Portela e a própria Nana. "Eu fui ao show dela e ela foi ao meu, no mesmo lugar."
Hoje, Gabrielzinho de Irajá segue percorrendo o Brasil com sua música. Entre shows, projetos e produções para as redes sociais, compartilha histórias, curiosidades e personagens que ajudaram a construir a memória do samba. Ele não é só um cantor e/ou compositor... Virou o guardião de uma tradição que atravessa gerações. E quando tenta resumir o que recebeu desse caminho iniciado ainda na infância, a resposta vem simples e direta: "O samba me deu tudo."
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