As boas histórias que não terminam quando uma geração chega ao fim. Elas atravessam mães, filhas, netas e comunidades, carregando memórias, crenças, ensinamentos e formas de enxergar o mundo. É a partir dessa ideia que a Festa Literária das Periferias (FLUP) realiza sua 16ª edição, de 23 a 27 de setembro, no Centro do Rio, com o tema “As Filhas das Filhas das Filhas”
Por: Angélica Cabral
Foto: divulgação
Inspirada na obra e na trajetória de Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras e homenageada deste ano, a FLUP propõe uma reflexão sobre as heranças que resistem ao apagamento e sobre as mulheres que, ao longo do tempo, ajudaram a construir comunidades, saberes, linguagens e futuros.
Um Defeito de Cor, principal obra da escritora, atravessa a identidade visual e a programação do festival. A escolha também ajuda a explicar uma das novidades desta edição: a presença das mais velhas, que farão bênçãos antes das mesas literárias. Na abertura, a bênção será conduzida por Ekedi Nicinha.

A Revista Traços falou com Julio Ludemir, diretor da Feira, sobre a presença das mães de santo estar diretamente ligada ao universo da publicação e à formação espiritual da população brasileira. Segundo ele, “de alguma forma, o livro da Ana Maria Gonçalves, homenageada deste ano na FLUP, é um romance que fala muito da formação espiritual do povo brasileiro, particularmente da mulher brasileira. Do quanto esta mulher negra bebeu ali no Candomblé, bebeu nas forças dos orixás para enxergar um futuro melhor para ela e, principalmente, para seus descendentes”.
A programação traduz essa proposta em diferentes linguagens. Além das mesas literárias, o festival terá performances, rodas de conversa, lançamentos de livros, slams, batalhas de rima e de esquetes, apresentações de afoxés, samba, passinho e outras manifestações culturais.
Na abertura, no dia 23, Ana Maria Gonçalves participa da mesa “As filhas das filhas das filhas - Uma carta de Kehinde para Dona Antônia”, ao lado de Djamila Ribeiro, com mediação de Angélica Ferrarez. A agenda também inclui a entrega do Prêmio Na Palma da Mão, a performance “A Babá Quer Passear”, de Ana Flávia Cavalcanti, e o Festival de Acarajé do Rio, entre outras atrações.
Nos dias seguintes, o evento reúne nomes como Conceição Evaristo, Cidinha da Silva, Lívia Sant’Anna Vaz, Emília Roig, Afua Hirsch e Yuderkys Espinosa Miñoso, e também debates sobre temas que atravessam o tempo e a identidade. O guia completo está no site vempraflup.com.br
Um ponto forte para a realização da FLUP é a localização geográfica: ao ocupar o Teatro Carlos Gomes, a Praça Tiradentes e o Salão Guarani, é possível aproximar diferentes experiências e linguagens no coração do Centro do Rio. Os espaços ficam lado a lado e podem ser percorridos a pé, reforçando a proposta de fazer da festa um verdadeiro encontro entre literatura, cultura e cidade.
No fim, a pergunta proposta pelo próprio tema da edição permanece: o que recebemos de quem veio antes de nós e o que escolhemos deixar para quem virá depois? Na Festa Literária das Periferias, a resposta passa pela palavra, seja ela escrita, falada, cantada ou contada, e pela tradição de mulheres que continuam abrindo caminhos para as próximas gerações.
Serviço - FLUP 2026 - Festa Literária das Periferias
Data: 23 a 27 de setembro
Locais: Teatro Carlos Gomes, Praça Tiradentes e Salão Guarani - Centro, Rio de Janeiro
Entrada: gratuita