No Rio de Janeiro, a folia não começa; ela se espalha. Toma as ruas, altera os fluxos da cidade e suspende a lógica cotidiana. No coração dessa engrenagem, está Rita Fernandes, jornalista, pesquisadora de carnaval e presidente da Sebastiana, a primeira associação de blocos de rua da cidade maravilhosa
Por Angelica Cabral
Criada em 2000, por agremiações que surgiram no rastro da redemocratização brasileira, Rita já estava à frente da entidade desde 2004. Hoje, o tamanho é monumental. São 462 blocos oficialmente autorizados pela Prefeitura, mas a estimativa ultrapassa mil, considerando os não oficiais que ocupam as ruas desde a virada do ano. O crescimento, segundo Rita, trouxe também um aumento de custos e de burocracia. “O desafio vai do excesso de normas ao patrocínio necessário para um bloco existir. Ainda assim, conter o carnaval é tarefa quase impossível. É uma festa popular garantida pela Constituição. O limite é dado pela cidade ou pelo poder público e, mesmo assim, é difícil segurar”.
Para a presidente da Sebastiana, se compararmos os desfiles atuais com os das décadas de 80 e 90, houve uma mudança significativa no perfil dos foliões. Uma nova geração assumiu o protagonismo e trouxe pautas sociais para o centro da festa. Questões ligadas ao combate ao racismo e ao machismo, à diversidade e à afirmação LGBTQIAPN+ aparecem nas fantasias, nos corpos e no comportamento coletivo. O formato também se transformou: os cortejos estão mais acústicos, fluidos, menos dependentes de trios elétricos e mais abertos aos improvisos urbanos. A rua volta a ser território de experimentação.
Nem sempre esse território foi protegido. Rita lembra uma gestão municipal específica como o período mais difícil de sua trajetória, marcado por tentativas de confinamento dos blocos a um circuito único e por imposições exageradas que contrariavam o espírito livre e democrático do evento. “Transformaram o carnaval numa gincana quase impossível”. Em contraste, guarda com emoção o desfile do Escravos da Mauá, em 2020, às vésperas da pandemia. “Foi o desfile mais emocionante que já vi.” Sem saber, aquele festejo antecedia dois anos de silêncio.
Na sua avaliação, de forma paradoxal, “o Rio ainda trata o carnaval prioritariamente como ativo turístico, e não como patrimônio cultural vivo. Mesmo movimentando a economia e projetando a cidade internacionalmente, ele acaba administrado sob a lógica do mercado. Em capitais como Recife e Salvador, a folia opera como política de identidade; no Rio, é vendida como espetáculo”.

No fim das contas, por aqui, o carnaval de rua não cabe em números, decretos ou mapas oficiais. Ele existe porque insiste. A você, fica o convite para explorar a variedade de opções de blocos de rua... O roteiro completo está no site sebastiana.org.br. “Aproveitem também cordões, bailes, festas e desfiles de escolas de samba!! Tem carnaval para todos os gostos, para todas as pessoas... Perambulem e se deixem levar!! Se entreguem ao espírito de Momo, porque há muito para ver e viver!!” é o conselho de Rita Fernandes.
E nós, da Revista Traços, reconhecemos que, quando o tamborim chama, o carioca responde. E responde em coro, em suor, em purpurina, em multidão. Pulem, brinquem nesses cinco dias, que passam, mas nunca vão embora. Eles ficam impregnados no asfalto, na memória e no corpo de quem atravessa a avenida ou a rua estreita atrás de um bloco. É promessa de retorno. Porque no Rio, mais do que festa, o carnaval é uma linguagem que a cidade inteira fala fluentemente.