Nem todo bloco nasce para atravessar a avenida. Alguns nascem para atravessar estruturas. No Rio de Janeiro, há um cortejo que não pede passagem: exige acesso! E mostra que inclusão é sim compromisso com a folia.
Por Angélica Cabral
Fotos: divulgação
Antes mesmo de o carnaval oficialmente começar, o Largo do Machado já tem encontro marcado com um bloco que desfila muito mais do que música e fantasia. Há 18 anos, o “Senta Que Eu Empurro” traz pessoas com deficiência para comandar a própria festa. Hoje, quem está à frente da agremiação é Camila Silva Cabral, 33 anos, presidente e herdeira de uma tradição que une samba, luta cotidiana e memória familiar.
A história começou em 2008, em uma reunião no Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD). Entre apaixonados por carnaval, uma pessoa com deficiência visual comentou que tinha curiosidade de saber como era andar em uma cadeira de rodas. A resposta veio em tom de brincadeira: “senta, que eu empurro”, e virou, ali mesmo, o nome e o espírito do grupo. Aquilo que era uma piada interna se transformou em um dos cortejos mais potentes da cena carnavalesca carioca.

Por mais de uma década, a agremiação foi liderada por Ana Cláudia Monteiro, mãe de Camila, que permaneceu à frente do projeto até 2021, quando faleceu em decorrência da Covid-19. A atual presidente cresceu acompanhando de perto a dedicação da mãe para garantir que a festa ocupasse as ruas todos os anos, apesar das dificuldades. Em 2023, comandou oficialmente seu primeiro desfile e, em meio à celebração, ergueu os olhos para o céu, avistou uma estrela de brilho intenso e sentiu que era uma espécie de sinal. Desde então, vem conduzindo o Senta Que Eu Empurro como quem recebe uma herança e mantém viva uma promessa.
Desde a criação, o desfile é 100% inclusivo e coloca pessoas com deficiência no centro da experiência. A sexta-feira que antecede o carnaval virou data sagrada para muitos foliões PCDs que encontram ali um espaço seguro, acessível e livre de preconceitos. A escolha do Largo do Machado não é casual: metrô, ônibus e rampas de acesso garantem que o trajeto até a festa seja possível. Pena que isso ainda não seja regra no Rio, né?

Para Camila Cabral, a ideia do carnaval ser a festa mais democrática do mundo ainda esbarra na realidade. Falta inclusão e sobra medo para quem não encontra estrutura para brincar com tranquilidade. O bloco, nesse sentido, funciona como manifesto sambado. Humor, irreverência e crítica social caminham juntos, na tradição de mestres como Candeia, que provou que alegria também é linguagem política.
Os números reforçam a urgência: segundo o IBGE, 7,3% da população brasileira é formada por pessoas com deficiência, muitas ainda afastadas do acesso à cultura. “Acesso não é favor, é direito”, resume Camila. A relação com o poder público existe, mas é instável. O bloco sobrevive entre apoios pontuais e editais, enquanto os custos crescem a cada ano.
Fora da “avenida”, o Senta Que Eu Empurro também planeja o futuro. Um novo projeto, aprovado na Lei Rouanet, prevê oficinas de percussão para PCDs, com direito à formatura em grande estilo: tocando com a bateria do bloco no carnaval. A ideia é ampliar a presença dessas pessoas na linha de frente do espetáculo, não como convidados, mas como protagonistas.
Mais do que um bloco, o Senta Que Eu Empurro é um lembrete que grita, sem atravessar o samba. E a letra desse samba diz que inclusão não combina com improviso. Combina com empatia, estrutura e vontade política. E, acima de tudo, com festa!!!