[ES] Pelas mãos da arte, Suely Lima encontrou seu caminho

[ES] Pelas mãos da arte, Suely Lima encontrou seu caminho

“Criar para mim não é apenas fazer uma peça bonita, é transformar sentimentos em arte”, diz a artista de Cariacica, que utiliza o artesanato como forma de expressão, acolhimento e inclusão

Por Gustavo Domingos 
Fotos: acervo da artista

Um currículo marcante. Graduada em Pedagogia, com formação em Intérprete e Tradução em Libras, Suely Lima se descreve como uma mulher criativa, comunicativa e engajada em causas sociais, especialmente na defesa da inclusão, da acessibilidade e dos direitos das pessoas com deficiência (PCDs), realidade da qual também faz parte.

Foi na pandemia, em um momento tão impactante para todos nós, que a moradora de Cariacica precisou reorganizar a própria vida e relembrou um aprendizado da infância com a avó, ainda aos sete anos de idade: o artesanato.

Uma tradição de família, que ela levava como hobby, mas que passou a ocupar um novo espaço no seu fazer artístico e também na forma de ganhar o seu ganha-pão. Hoje, é através das peças produzidas artesanalmente que Suely transforma a arte em profissão e também encontra uma forma de geração de renda.

“‘Isso não é apenas algo que eu gosto de fazer, isso já faz parte de quem eu sou’. Aí você começa a pensar e observar quando as pessoas começam a valorizar seu trabalho, quando surgem encomendas, elogios, reconhecimento ou até a necessidade de empreender. O artesanato começou a ocupar também um espaço profissional na minha vida sem eu perceber o afeto e a essência dele”, afirmou.

Aos 37 anos, o processo criativo da Suely acontece de forma muito espontânea e afetiva. As inspirações aparecem nas pequenas coisas do cotidiano, nas memórias, nas emoções e também nas experiências que carrega ao longo da própria trajetória, transformando sentimentos em peças produzidas manualmente.

Por trás de cada trabalho produzido por Suely, existe também uma parte da sua história. Antes mesmo de começar a criar, ela pensa no significado que aquela peça pode despertar em quem a recebe.

“Antes de começar a criar, gosto de imaginar o que aquela peça pode representar e agregar para alguém, o carinho que ela pode transmitir e a emoção que pode despertar, porque cada detalhe é pensado com calma, paciência e muito amor”, relatou.

Ela acrescenta ainda que o artesanato também faz parte do seu próprio processo emocional e pessoal.

“Cada trabalho acaba carregando um pouco da minha essência, da minha fé, da minha sensibilidade e da minha vontade de levar algo positivo para as pessoas através das minhas mãos”, destacou.

Uma parceria construída em família

Aí de quem pensa que ela está sozinha nessa. Ao seu lado está Suzana Lima, irmã e parceira no projeto Empreendedoras Inclusivas. Além da relação familiar, as duas também compartilham da mesma condição como PCDs. Enquanto Suely fica mais focada na criação e produção das peças, Suzana atua na parte de administração e planejamento do projeto. Uma parceria que, segundo a artista, aconteceu de forma natural.

“Ela sempre acreditou no meu trabalho e no potencial do artesanato como algo que vai além da arte. Enquanto eu me dedicava mais à criação e produção das peças, ela passou a contribuir na parte estratégica, ajudando na organização, nas ideias, na divulgação e no planejamento do projeto”, afirmou.

Segundo Suely, a parceria fortaleceu ainda mais o trabalho ao unir criatividade, dedicação e visão estratégica, ajudando o projeto a ganhar ainda mais força.

“Sempre digo que ter alguém da família caminhando ao meu lado fez toda diferença nessa trajetória, principalmente nos momentos mais difíceis, porque a presença dela trouxe mais segurança, apoio e motivação para continuar crescendo e buscando novos objetivos juntas”, disse.

Arte, inclusão e geração de renda caminham juntas

No projeto Empreendedoras Inclusivas, que une produção artesanal, inclusão e geração de renda, a proposta da arte inclusiva aparece justamente na forma como Suely pensa cada peça produzida artesanalmente. Além do artesanato, a iniciativa também busca incentivar a autonomia financeira, a inclusão e o fortalecimento de outras mulheres e PCDs em contextos muitas vezes invisibilizados.

O toque e as experiências através do tato têm um papel importante no trabalho da artista, que busca criar peças capazes de aproximar, acolher e incluir diferentes pessoas através das texturas, dos detalhes e das emoções.

“Eu, como mulher, artesã, empreendedora e pessoa com deficiência, sei que ainda existem muitos desafios nesses espaços. Muitas vezes, enfrentamos barreiras relacionadas à acessibilidade, à falta de oportunidades, ao preconceito e até à dificuldade de sermos reconhecidas pela nossa capacidade profissional”, afirmou.

E mesmo em momentos em que parece precisar provar o tempo todo a própria capacidade, Suely acredita na força da representatividade e da inclusão. Para ela, cada espaço conquistado mostra que PCDs também podem empreender, criar, liderar e inspirar outras pessoas.

“Procuro usar minha arte e meu talento não apenas como expressão criativa, mas também como uma forma de conscientização, valorização da diversidade e incentivo para que mais pessoas acreditem em seus talentos, no seu potencial e na sua capacidade de fazer a diferença por onde passarem”, destacou.

Ao ser perguntada sobre o que espera construir através da arte, ela diz querer continuar levando inclusão, inspiração e acolhimento através do artesanato. Ainda assim, quer conseguir algo que, na verdade, já está acontecendo:

“Que minha trajetória possa inspirar outras pessoas, outras mulheres a persistirem, insistirem, se reinventarem e descobrirem que a arte tem o poder de transformar não apenas materiais, mas também histórias de vida”, concluiu.

Para quem ficou interessado em acompanhar mais de perto o trabalho da artista, no perfil do Instagram @arteliciasdasu, Suely compartilha mais das produções artesanais, dos processos criativos e também do projeto Empreendedoras Inclusivas.