Julia Spadaccini e o avesso da escuta

Julia Spadaccini e o avesso da escuta

Entre a trajetória pessoal e o palco, Julia Spadaccini estreia “Surda” e convida o público a experimentar outras formas de ouvir o mundo

Por Angélica Cabral
Fotos: acervo pessoal/divulgação

Olhos e ouvidos atentos a esta dica: a dramaturga Julia Spadaccini estreia no dia 9 de maio o monólogo “Surda”, no Teatro Poeirinha, em Botafogo, colocando sob os holofotes uma experiência ainda pouco compreendida: a surdez invisível. O texto é escrito a partir de sua própria vivência, com a interpretação de Benedita Casé Zerbini, direção de Débora Lamm e tem a produção de Dadá Maia.

A peça, que foi escrita há seis anos e só agora ganha montagem, traz uma mulher que convive com a perda auditiva progressiva. Esse processo, ao contrário do que se imagina, não é marcado apenas pelo silêncio, mas por uma sobreposição de sons, memórias e ruídos internos.

A história por trás do palco parte de um lugar íntimo. Julia é surda bilateral sensorial, com perda profunda nos dois ouvidos, e utiliza aparelhos auditivos. Foi justamente essa experiência, vivida desde a juventude, que atravessou sua trajetória artística. “Eu comecei no teatro ainda criança, queria ser atriz. Mas comecei a perder a audição entre os 17 e 18 anos e não via representatividade. Não via atrizes usando aparelho auditivo, nem no teatro, nem na TV, nem no cinema. Eu não me sentia pertencendo”.

Esse deslocamento acabou conduzindo a autora para outro caminho dentro da arte. Formada em artes cênicas e, posteriormente, em psicologia, ela encontrou na escrita um espaço possível de expressão. “Foi um caminho tortuoso, mas muito bom. Eu comecei a escrever, a trabalhar com saúde mental, a fazer registros, e isso foi me levando para a dramaturgia”. Há 15 anos, ela também escreve para a TV Globo, como a série “Segunda Chamada”, feita em parceria com a roteirista Carla Faour.

Em Surda, essa experiência pessoal ganha dimensão estética e política. Ao colocar uma atriz surda em cena interpretando uma personagem atravessada pela mesma condição, o espetáculo desloca a deficiência do lugar de tema e a coloca como ponto de vista. “Quando você tem uma atriz surda falando de surdez, isso traz uma experiência real. Claro que cada pessoa vive isso de uma forma diferente, mas existe uma concretude que muda tudo”.

A montagem também tem um compromisso direto com o letramento do público. Julia chama atenção para o fato de que ainda há pouca compreensão sobre as múltiplas formas de surdez. “Existem vários níveis. Tem surdos oralizados, não oralizados, pessoas que usam Libras, outras que precisam de legenda. A peça traz Libras e legendagem porque isso amplia o acesso”. Para ela, a acessibilidade ainda é um dos principais desafios no campo cultural, especialmente quando se trata de pessoas com deficiência auditiva. “Os filmes brasileiros, por exemplo, muitas vezes não têm legenda. Muitos surdos deixam de assistir no cinema e esperam chegar ao streaming. É algo simples de resolver, mas ainda negligenciado”.

O encontro com Benedita Casé Zerbini, que faz sua estreia no teatro com a peça que estreia neste sábado, também é central para a força da obra. As duas já trabalharam juntas no filme 90 Decibéis, ainda inédito, e compartilham não apenas uma parceria artística, mas uma vivência em comum. “A Benedita está estreando como atriz por causa daquela atriz que desistiu, que fui eu. Existe um ciclo muito interessante aí”, reflete Julia. A diretora Débora Lamm e a produtora Dadá Maia completam o time, em um processo que a autora define como um “encontro potente entre mulheres”. Ela também destaca a colaboração da pesquisadora Márcia Brasil, parceira de longa data em seus projetos.

Com uma narrativa fragmentada, construída a partir de recursos sonoros e projeções, Surda atravessa temas como afeto, isolamento, comunicação e pertencimento. Ao mesmo tempo em que mergulha em uma experiência individual, o espetáculo amplia o debate sobre como a sociedade ainda está estruturada a partir de uma ideia de normalidade que exclui diferentes formas de existir e perceber o mundo.

Para Julia Spadaccini, pensar o futuro das artes passa necessariamente por esse deslocamento. “O futuro é diverso. A gente precisa sair desse lugar de perfeição, dessa ideia de normalidade. Todo mundo tem suas limitações. O importante é criar, transformar, letrar e trazer isso para o público”.

Em cartaz até o dia 28 de junho, no Teatro Poeirinha, Surda não se propõe apenas a ser vista, mas a ser escutada de outras formas. E, principalmente, a fazer o público sentir o que significa, de fato, ouvir. Vamos conferir?? Os ingressos estão à venda no site da Sympla e na bilheteria do teatro.

Serviço:
SURDA

Temporada: 09 de maio a 28 de junho de 2026
Teatro Poeirinha: Rua São João Batista, 104 - Botafogo
Telefone: (21) 2537-8053
Dias e horários: quintas, sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h.
Ingressos: R$ 100,00 (Inteira) / R$ 50,00 (meia entrada)
Capacidade: 40 pessoas
Duração: 60 minutos
Classificação etária: Livre
Venda de ingressos: Sympla e na bilheteria do teatro.
Funcionamento da bilheteria: de terça a sábado das 15h às 20h; domingo das 15h às 19h.