No ano de seu centenário, o mercado histórico do Centro de Vitória reúne gastronomia, comércio e uma programação cultural que passa pelas rodas de samba, feiras e diferentes estilos musicais
Por Gustavo Domingos
Fotos: divulgação
Uma visita ao Mercado da Capixaba pode ter diferentes motivos. Tem quem vá conhecer as lojas de artesanato, procurar produtos locais ou fazer uma refeição. Tem também quem chegue por causa de uma roda de samba, de um show ou de uma feira. No Centro de Vitória, essas atividades convivem no mesmo endereço, que chega ao ano de seu centenário com uma programação cultural diversificada e negócios de diferentes segmentos.
A curadora do mercado, Rozilene de Sá, acompanha essa movimentação de perto. Além de organizar os eventos, ela também é comerciante no espaço e participa de sua rotina por outro lado. Ao falar sobre a proposta da programação, ela explica que a intenção é reunir diferentes públicos e manter atividades que deem continuidade à ocupação cultural do edifício.
“Mais do que promover eventos isolados, nosso objetivo é contribuir para a construção de uma programação contínua, democrática e diversificada, que dialogue com diferentes gerações e públicos. Acreditamos que a cultura, o turismo e o empreendedorismo precisam caminhar juntos para fortalecer a ocupação dos espaços históricos e estimular o desenvolvimento econômico da região central”, afirma.
Os números compartilhados pela curadora ajudam a dimensionar essa variedade. A programação já contou com 13 encontros de brecholeiras, cinco feiras ligadas a municípios do interior do Espírito Santo e oito encontros de troca de mudas e sementes. O Disco Voador, que também passou pelo mercado, teve quatro edições. As rodas de samba ganharam espaço em parcerias com bares do Centro, como o Bar da Zilda, a Casa Àràbà e o Bar do Nei, com o projeto Samba da Xepa.
A música também passa por outros caminhos. Segundo Rozilene, a programação das noites de sexta-feira tem alternado rodas de samba com MPB, blues, jazz e forró. O mercado recebe ainda excursões turísticas e atividades ligadas à cultura afro-religiosa, além de aulas de dança, capoeira e encontros de corais.
A variedade de iniciativas mostra como o espaço pode ser ocupado de diferentes maneiras ao longo do tempo. Algumas atividades se voltam à música e à convivência; outras aproximam o público do artesanato, da reutilização de roupas e da produção de municípios capixabas. No meio disso, as lojas e os negócios de gastronomia integram a experiência de quem frequenta o mercado.
Um endereço que atravessou diferentes épocas
O Mercado da Capixaba foi inaugurado em 1926, durante o governo de Florentino Avidos, para funcionar como mercado municipal de abastecimento. Localizado na antiga Avenida Capixaba, hoje Avenida Jerônimo Monteiro, o edifício acompanhou as transformações do Centro de Vitória e teve diferentes usos ao longo de sua história.
Com o passar das décadas, o mercado perdeu parte de sua função original. Um incêndio em 2002 comprometeu sua estrutura, e o prédio atravessou um longo período de deterioração até o início das obras de restauração, em 2022. A Prefeitura de Vitória apresentou o edifício restaurado em julho de 2024. As primeiras lojas começaram a funcionar em abril de 2025, quando o mercado retomou suas atividades comerciais.
A recuperação da estrutura e a abertura das lojas marcaram etapas diferentes dessa retomada. Durante o intervalo entre a entrega das obras e a abertura comercial, o espaço já recebia atividades culturais, conforme registrado na cobertura da reabertura. Com os negócios em funcionamento, o mercado passou a reunir, no mesmo endereço, a programação de eventos e as atividades comerciais.
Em 2026, ano de seu centenário, o edifício chega a uma nova etapa de sua trajetória. A programação atual ajuda a perceber as possibilidades de uso de um espaço histórico que abriga comércio, gastronomia e manifestações culturais. A maneira como essas atividades se relacionam com a rotina do mercado é parte importante dessa experiência.
Cultura e comércio dividem o mesmo espaço
Para a curadoria, aproximar essas atividades é uma das propostas centrais do mercado. A ideia é que quem chega para um evento também conheça as lojas e os produtos locais, enquanto quem vai às compras possa encontrar uma apresentação musical ou outra atividade acontecendo no pátio.

Rozilene resume essa intenção ao falar sobre a convivência entre os negócios e a programação cultural.
“Não queremos que o comércio e a cultura funcionem de maneira isolada, mas que um impulsione o outro. O que buscamos é transformar a visita ao Mercado da Capixaba em uma experiência completa, na qual cada produto conte uma história, cada empreendimento represente uma oportunidade e cada atividade cultural fortaleça o sentimento de pertencimento à cidade”, afirma.
Essa relação permite observar a economia criativa a partir do cotidiano do mercado. O artesanato coloca em circulação o trabalho de produtores locais, a gastronomia reúne diferentes experiências e os eventos abrem espaço para iniciativas culturais que dialogam com públicos variados. As feiras e as parcerias com bares do Centro também aproximam o mercado de outras atividades que fazem parte da vida cultural de Vitória.
A proposta reúne, assim, diferentes formas de produzir, vender e compartilhar experiências no mesmo endereço.
Manter o mercado em movimento
A continuidade da programação exige organização, articulação e ações permanentes. Na avaliação de Rozilene, a restauração foi uma etapa importante, mas manter o mercado ativo depende do envolvimento de diferentes setores e da atenção às condições de funcionamento do espaço.

Ao falar sobre os próximos passos, a curadora destaca a necessidade de ampliar a cooperação entre o poder público, os comerciantes, os produtores culturais, o setor turístico e a comunidade. Ela também aponta aspectos como acessibilidade, mobilidade, segurança, sinalização turística e comunicação integrada como questões que precisam continuar recebendo atenção.
“Entendemos, ainda, que é fundamental ampliar o diálogo e a cooperação entre o poder público, os comerciantes, os produtores culturais, as entidades de apoio ao empreendedorismo, o setor turístico e a comunidade. Questões como acessibilidade, mobilidade, segurança, sinalização turística, conservação do patrimônio, comunicação integrada e melhoria da experiência dos visitantes também merecem atenção permanente”, afirma Rozilene.
A trajetória do Mercado da Capixaba chega ao centenário com diferentes atividades dividindo o mesmo espaço. As lojas, a gastronomia e a programação cultural mostram algumas das possibilidades dessa nova etapa, enquanto a continuidade das iniciativas e a relação com quem frequenta o mercado seguem como partes importantes de sua ocupação.
A programação e as novidades do Mercado da Capixaba podem ser acompanhadas pelo Instagram @mercadodacapixabaoficial.