[RJ] O direito de contar a própria história além dos rótulos

[RJ] O direito de contar a própria história além dos rótulos

Quem nunca deixou de fazer alguma coisa por medo de ser julgado? Para Pedro Henrique França, essa pergunta atravessa uma história que começou ainda na infância

Por: Angélica Cabral
Fotos: Flora Negri

Aos nove anos, ele já era protagonista de uma peça infantil que ficou três meses em cartaz. Queria viver da arte, mas um convite para participar de um programa de auditório mostrou que pessoas com nanismo nem sempre eram recebidas com respeito. Na época, corpos como o dele costumavam ser usados para provocar risadas, muitas vezes à custa da humilhação. Pedro recusou o convite e se afastou dos palcos. O jornalismo virou seu caminho profissional, até que, em 2020, voltou ao teatro.

A experiência ajuda a entender as questões que movem o artista. Jornalista, ator, diretor e roteirista, Pedro encontrou na cultura uma maneira de discutir as desigualdades que atravessam a sociedade. Seu trabalho passa pelo documentário Corpolítica, sobre a presença LGBTQIAPN+ na política, e pelo PCDPOD, videocast criado em 2023 para dar visibilidade às experiências de pessoas com deficiência e que chegou ao Globoplay.
Para ele, contar histórias é também uma forma de mudar o olhar de quem assiste. “Eu tenho muita consciência do poder do audiovisual”. Um filme, uma peça ou um programa de televisão podem divertir e emocionar, mas também questionar preconceitos que, de tão presentes no cotidiano, muitas vezes passam despercebidos.

É o caso do capacitismo, a discriminação contra pessoas com deficiência. Ele aparece nas piadas ofensivas, na falta de acessibilidade e na ausência dessas pessoas em espaços de convivência, trabalho e decisão. Na indústria do cinema e da TV, Pedro chama atenção para um problema que vai além da falta de protagonistas: profissionais com deficiência também encontram portas fechadas em áreas como roteiro, direção e produção.

“O problema nem é o protagonismo, o problema é o acesso”. Na visão do artista, não basta criar personagens PCD. É preciso contratar profissionais, oferecer oportunidades de formação e permitir que eles participem das decisões sobre as histórias que chegam ao público.

Essa discussão também passa pela intimidade. Em Meu Corpo Está Aqui, espetáculo que aborda sexualidade, desejo e relacionamentos a partir das vivências de artistas com deficiência, Pedro ouviu relatos de pessoas cuja autonomia era questionada até dentro de casa. Uma mulher cadeirante, por exemplo, enfrentou a reação dos pais ao descobrirem sua vida sexual. A história revela como o preconceito pode invadir a esfera mais particular da existência.

“Pessoas com deficiência também trabalham, também têm seus problemas familiares, também têm suas relações afetivas, também transam”. A afirmação, direta e bem-humorada, confronta a ideia de que esses corpos devem ser vistos como frágeis, angelicais ou incapazes de viver experiências comuns a qualquer pessoa.

O humor, que já foi motivo de sofrimento em sua infância, também ganhou outro sentido. Na montagem de O Beijo no Asfalto, ele conversou com a equipe sobre o uso de diminutivos relacionados à sua estatura. A preocupação era evitar que a linguagem reforçasse estereótipos sem necessidade. Para ele, rir pode ser uma forma de provocar reflexão, desde que a pessoa com deficiência não seja reduzida à piada.

Por trás dessa atuação existe uma lembrança que permanece: a criança que precisou lidar com inseguranças, violência e dúvidas sobre o próprio futuro. “Eu faço pensando no Pedro que eu fui criança”. Seu desejo é que outras pessoas possam imaginar caminhos que antes pareciam distantes, seja na arte, na medicina ou em qualquer profissão.

No fundo, a reivindicação de Pedro Henrique França é simples, embora ainda esteja longe de ser plenamente atendida: pessoas com deficiência têm o direito de amar, trabalhar, criar, desejar e ocupar a cidade sem precisar provar o tempo todo que são capazes. Mais do que abrir espaço para esses corpos, é preciso reconhecer suas histórias em toda a sua diversidade. Afinal, ninguém deveria ter seus sonhos limitados pelo olhar do outro.

Curtiu? Acesse o perfil @pfranca no Instagram e saiba mais sobre esse artista tão plural.