Entre jazz, metal e experimentação, Rafael Bacellar desafia convenções em espetáculo que será gravado ao vivo em Brasília
Por Carol Boueri
Fotos: Maria Aiune. e Xavier Braun
Na casa onde Rafael Bacellar cresceu, ninguém precisava escolher entre rock, jazz ou música brasileira. Seus pais, militantes políticos nos anos 1980, ouviam MPB, punk, música clássica e o que mais despertasse interesse. A bisavó havia sustentado a família dando aulas de violão, numa época em que o instrumento ainda era associado à malandragem. Foi com familiares que Rafael aprendeu os primeiros acordes, aos oito anos.
Mais tarde, ganhou uma guitarra e passou a se interessar por rock e heavy metal. Na adolescência, começou a experimentar a composição musical no computador. O piano veio depois, quando percebeu que precisava de um instrumento que lhe permitisse trabalhar com diferentes vozes e harmonias ao mesmo tempo.
“O piano é como se fosse uma orquestra. Você consegue enxergar muito bem tudo nele”, explica.
Rafael estudou piano clássico e popular, fez graduação e mestrado na Universidade de Brasília (UnB) e hoje, aos 36 anos, é professor da Escola de Música de Brasília. A formação acadêmica lhe deu domínio de diferentes linguagens, mas também aumentou seu interesse por aquilo que escapa às regras.
“Eu não consigo mais fazer música convencional. Não estou menosprezando de forma alguma, mas, para mim, não funciona mais”, afirma.
Essa disposição para experimentar está no espetáculo Tô aqui pra te confundir – Rafael Bacellar & Orquestra, que será apresentado em 31 de outubro, na Casa Thomas Jefferson, em Brasília. O repertório tem 14 faixas, seis delas inéditas, além de novos arranjos para composições dos trabalhos Sincrético (2025) e Quatro Vias (2026). A apresentação contará com projeções audiovisuais, improvisações e músicos de diferentes formações. O show será gravado para dar origem a um álbum ao vivo.
A música que Brasília faz
Rafael conta que, quando era adolescente, não tinha ideia da quantidade de músicos e projetos que encontraria em Brasília. A percepção começou a mudar quando passou a frequentar apresentações, conhecer instrumentistas e participar de iniciativas ligadas à música instrumental e experimental.
Ele acompanhou o trabalho de artistas como Pedro Martins e de integrantes da banda Engrenagem. Em 2016, durante uma ocupação na UnB, participou de encontros de improvisação livre que o aproximaram de outros músicos interessados em experimentar novas sonoridades.
“O processo musical é coletivo, por mais que você esteja na sua casa, no seu quarto. Tive vários momentos em Brasília que me abriram muito a cabeça. Hoje acho que estamos em um lugar muito bom culturalmente. Aprendo muito com as amizades”, conta.
Entre os músicos brasileiros que admira estão Hermeto Pascoal, Amaro Freitas, César Camargo Mariano e Iara Gomes, pianista e professora da Escola de Música de Brasília.
Hermeto é homenageado na composição inédita “Carcará”, que mistura samba maxixado e ijexá. Rafael lembra que conheceu interpretações mais livres da obra do músico alagoano e ficou impressionado com sua irreverência, especialmente com a maneira como incorporava sons de objetos cotidianos às apresentações.
Fora da música, seus interesses também são variados. Casado com uma professora de literatura, Rafael conta que os livros fazem parte da rotina da casa. Já passou por períodos de interesse intenso por filosofia, psicologia e neurociência e, nos últimos anos, tem estudado tecnologia. Também mantém cadernos nos quais registra ideias e uma coleção de discos de vinil e CDs.
“Eu ouço música obsessivamente desde a vida inteira. Gosto de ouvir tudo. Isso cria um repertório na minha cabeça que começa a aparecer nas composições, às vezes de forma inconsciente.”
É desse hábito de ouvir, estudar e experimentar que surgem suas composições. Muitas começam como improvisos, sem que ele saiba exatamente o resultado que pretende alcançar. Outras nascem de exercícios ao piano ou de alguma música que esteja ouvindo com frequência.
Para Rafael, não há motivo para estabelecer limites entre essas influências. E, se o público sair do espetáculo com mais perguntas do que respostas, isso não será necessariamente um problema.
“Acho que aprendi a ser eu mesmo”
Traços – O título Tô aqui pra te confundir parece uma provocação. Afinal, o que você pretende confundir?
Rafael Bacellar – Eu toquei este ano em uma peça de teatro sobre autismo. Eu também sou autista e recebi esse diagnóstico. Uma das frases do ator principal, que é um amigo muito querido, Mattoso Ribeiro, era algo como: “Estou aqui para quebrar as suas certezas, para você perceber que esse mundo que acha que faz tanto sentido talvez não faça tanto assim. Estou aqui para te confundir”. Aquilo ficou comigo e até pedi autorização para usar a frase.
Eu nunca me identifiquei muito com uma linguagem. Às vezes, as pessoas olham para mim e pensam: “Você é professor de piano na Escola de Música, então vai fazer um grande show de jazz, de MPB”. E não é bem isso que quero. Quero me mostrar como sou, mostrar o que sinto e penso. Penso que a expressão humana pode ser muito mais do que aquilo que cabe dentro de um molde. O espetáculo terá momentos muito experimentais, outros mais cerebrais e também canções. Quero quebrar esse padrão.
Traços – Essa liberdade de transitar entre estilos foi uma conquista ou sempre fez parte da sua personalidade?
Rafael Bacellar – Sempre fez parte da minha personalidade, mas eu mascarava isso. Estudei muita música clássica e pensava: “Não é bem isso que quero”. Com o rock, também. Eu ouço jazz com a mesma seriedade, vontade e prazer com que ouço rap ou forró. Gosto desse ecletismo.
Entendo que isso é uma característica muito do século XXI. Até os anos 2000 havia muito aquela coisa das tribos, de pertencer a um grupo específico, e isso acaba cerceando a imaginação.
Traços – O que mudou em você como compositor entre Sincrético, Quatro Vias e o novo espetáculo?
Rafael Bacellar – Acho que aprendi a ser eu mesmo. Conforme o tempo vai passando, não tenho mais paciência, não tenho saco e não tenho tempo para ficar performando nada. Entendo que isso ainda existia, em alguma medida, no Sincrético. No Quatro Vias, chutei o balde. Fiz tudo o que queria fazer. Agora quero uma síntese disso tudo.
Traços – Você costuma começar suas composições pela improvisação. Já criou alguma coisa sem saber exatamente aonde queria chegar?
Rafael Bacellar – Acho que na maioria das vezes não sei onde quero chegar! Eu estudei muito, até porque sou professor e preciso ter os conceitos bem resolvidos para conseguir transmiti-los de forma clara. Mas, quanto mais me aproprio desses conceitos, mais naturalmente as coisas aparecem. E também surge uma vontade espontânea de quebrá-los.
Traços – Como funciona o processo criativo com tantos músicos de diferentes trajetórias? Existe espaço para que eles surpreendam até mesmo quem escreveu as composições?
Rafael Bacellar – É uma loucura! Eu escrevo muito pensando na pessoa para quem estou escrevendo. São músicos que conheço, amigos, pessoas com quem toco há muitos anos e outras com quem sempre quis tocar.
Não gosto de deixar tudo muito fechadinho. Sempre digo: “Se chamei você para cá, é porque quero você, sua identidade, quero que coloque a sua cara”. Existem partes muito bem escritas, em que todo mundo precisa seguir a partitura, mas sempre deixo espaço para improvisação.
Consegui fazer com que todos tenham pelo menos um momento para improvisar. Existe espaço para realizar aquilo que imaginei e também para aquilo que cada pessoa vai pensar na hora. Penso que isso torna a música mais orgânica.
Traços – As projeções audiovisuais também fazem parte do espetáculo. Elas ajudam a contar uma história ou ampliam as possibilidades de interpretação?
Rafael Bacellar – Tenho uma parceria com Xavier Braun, um amigo muito querido com quem trabalho desde mais ou menos 2018. Ele trabalha com cinema experimental. Falei para ele pirar nas animações, usar os materiais que tem e trazer também uma questão política.
Gosto muito da ideia de obra aberta. Uma pessoa que me influencia bastante, embora não seja músico, é David Lynch. As pessoas discutem os filmes e as séries dele até hoje porque existe muito espaço para interpretação.
Não quero dizer: “Gente, este é o jeito certo de interpretar as coisas”. Acho isso uma perda de tempo. Estamos trabalhando as animações nesse sentido também, para dar uma confundida nas pessoas.
Traços – É possível gostar de uma música sem necessariamente entendê-la?
Rafael Bacellar – Acredito que sim. E acredito que é possível não gostar também. O não gostar também forma alguma coisa.
Traços – Se pudesse conversar com o Rafael que começou a estudar música, o que diria a ele?
Rafael Bacellar – Diria para ter mais paciência e confiar no processo. O amadurecimento musical é muito difícil, exige muito estudo. Convivi a vida inteira com esse sentimento de síndrome do impostor. Então acho que diria: “Vai com calma, vai curtindo, se diverte mais”. Acho que foi isso que faltou.
Traços – Depois de tanta experimentação, ainda existem fronteiras musicais que você não teve coragem de atravessar?
Rafael Bacellar – Acho que ainda existem muitas. É uma coisa que nunca acaba. A música nunca acaba. Enquanto houver ser humano, vai existir música.
Quanto mais você procura pessoas fazendo coisas diferentes, mais descobre possibilidades estranhas. Tem gente martelando piano, gravando pássaros e misturando esses sons no computador. Quero continuar indo nesse caminho. Espero continuar assim até o dia em que morrer.
Serviço - Tô aqui pra te confundir – Rafael Bacellar & Orquestra
Quando: 31 de outubro de 2026, às 19h30
Onde: Casa Thomas Jefferson, Brasília (DF)