[DF] O tempo é resistência - Traços entrevista Nicolau Araújo

[DF] O tempo é resistência - Traços entrevista Nicolau Araújo

O  diretor  Nicolau  Araújo  conversou  com  a  Traços  sobre  o  o curta Encravado e  o processo  de  filmagem  em película16mm, uma escolha estética e política que  nos transporta para algumas décadas atrás, quando o cinema ainda era analógico. 

Por Marianna França
Fotos: Elisa Souza (1, 2, 4) e João Pedro Coleta (3)

Em meio a um mundo dominado pela automatização e pela abundância de informação, o diretor brasiliense Nicolau Araújo entra na contramão da dinâmica imposta pela globalização: ele desacelera. Com seu novo curta, Encravado, o diretor volta no tempo, para uma época em que ainda se filmava em película 16mm, quando a paciência, o espaço para o inesperado e a confiança no trabalho em equipe faziam parte do processo cinematográfico.

"Essa questão da manualidade, de tornar o processo mais lento, é algo que ganha muito meu coração, exatamente por existir essa vontade de voltar para um tempo em que as coisas pareciam mais fáceis".

O curta é composto por várias camadas que o tornam único. A primeira é a nostalgia presente tanto no processo de filmagem quanto na estética granulada da imagem, característica da película. A segunda está na temática da trama, que questiona a violência de gênero. O roteiro, escrito por Nicolau, parte de experiências reais e utiliza uma narrativa fantástica para abordar situações vividas antes de sua transição de gênero.

A obra traz discussões sobre a automatização do fazer artístico e convida o espectador a refletir sobre o machismo estrutural e suas consequências. Em um tempo marcado pelo excesso de estímulos e pela velocidade das informações, Encravado propõe uma pausa. Um convite para olhar com atenção, pensar e elaborar.

Sem mais delongas, deixamos com vocês a entrevista com Nicolau Araújo, com participação de Elisa Souza, diretora de fotografia do curta.

Como surgiu a ideia de fazer esse filme?

Nicolau: A ideia começou em 2018. Eu já te falei a sinopse?

É sobre uma mulher que encontra um pelo encravado no seio esquerdo. Ao retirá-lo, ele se transforma em um homem que personifica o machismo e o racismo que ela sofreu ao longo da vida. Esse personagem passa a dizer e fazer coisas absurdas, até que chega um momento em que ela decide enfrentá-lo.

É um pelo encravado justamente no seio esquerdo, onde fica o coração. Então a pergunta era: o que seria essa coisa encravada junto das emoções? O que surgiria de um diálogo com algo que eu não quero, mas que está ali?

A ideia veio de uma situação muito simples. Eu estava no banheiro, vi um pelo encravado e pensei: "Nossa, se eu pudesse conversar com ele, como seria essa conversa?". Foi daí que tudo começou.

Uma simbologia do incômodo também, né? Conta um pouco sobre esse diálogo.

Nicolau: O filme tem diálogos, mas eles acontecem em uma língua que não existe. O público entende a conversa por meio das legendas. Teremos versões legendadas em vários idiomas.

Criamos uma voz meio mística para esse personagem. Ele fala de forma gutural, algo que lembra um pouco o Nosferatu. É uma linguagem construída a partir de sons.

Elisa: Talvez seja importante mencionar que isso também nasceu do desejo de fazer um filme que pudesse dialogar com diferentes públicos. Em festivais internacionais, por exemplo, existe uma resistência natural à barreira do idioma.

Nicolau: Inicialmente o filme seria falado em português. Mas fui a um festival nos Estados Unidos com outro curta meu, Descamar, e percebi como a recepção mudava dependendo da língua do filme.

Então Encravado tenta ser universal nesse aspecto. O que o personagem fala não é português, inglês ou francês. É a linguagem de ser um homem escroto. Todas as mulheres já passaram por experiências semelhantes.

Você comentou que esse diálogo nasce de experiências pessoais.

Nicolau: Sim. Escrevi esse filme antes de transicionar. Como homem trans, comecei a acessar espaços masculinos de uma maneira muito específica.

O curta surge muito dessa relação estranha com o universo masculino. Sempre convivi com homens do meio artístico e percebo que até pessoas consideradas muito desconstruídas carregam camadas de machismo que atravessam gerações.

Isso afeta todo mundo. Mulheres, pessoas trans e também homens cis. O machismo cria uma performance muito estranha e caricata.

Como homem trans, muitas vezes sou percebido como um homem cis. E isso abre portas para que algumas pessoas falem coisas absurdas diante de mim, como se eu compartilhasse da mesma visão.

Ao mesmo tempo, muitas vezes eu permaneço em silêncio por medo da violência.

Até a forma como alguns homens se expressam passa pela violência. Eu imagino que uma pessoa que transicionou talvez tenha uma perspectiva mais ampliada de toda essa situação.

Nicolau: Eu sinto isso muito claramente.

Lembro de uma vez em que estava indo a um antiquário e o motorista do Uber começou a dizer coisas absurdas sobre mulheres. Tenho certeza de que ele não faria aquele discurso para qualquer outra pessoa.

Eu tenho uma grande passabilidade e existem diversas pesquisas de gênero que analisam esses comportamentos masculinos. É algo muito curioso de observar.

Mas, ao mesmo tempo, eu não vou confrontar aquele cara dizendo que ele está sendo machista. A possibilidade de aquilo se transformar em uma situação de risco para mim é muito maior.

Você sente que vive com medo?

Nicolau: Com certeza. Acho que o filme fala sobre isso também. Sobre medo. Ainda mais porque a personagem é uma mulher negra. Existe esse lugar representado ali.

É um misto de medo e repulsa. E chega um momento em que você percebe que, se não enfrenta determinadas situações, sua vida não segue adiante.

Ao mesmo tempo, a realidade mostra que muitas mulheres enfrentam e acabam pagando um preço muito alto por isso.

E por que a escolha da película para contar essa história? 

Nicolau: Eu comecei na película e, para mim, ela tem uma aura de passado, de
algo que a gente viveu e que não está mais presente, como uma forma de ver o
mundo, sabe?

A forma que as cores aparecem na película me leva para um lugar de muito conforto. E aí se eu for analisar essas questões de gênero, me leva muito para uma infância onde não existia essa questão de gênero, onde se é criança e não tem que ser menina ou menino, sabe?

Ao mesmo, a película tem uma questão da manualidade que eu acho muito gostosa porque a gente vive num mundo muito tecnológico. Se a gente fosse pensar nisso alguns
anos atrás, a gente ia estar marcando num café, e você estaria com um gravador na
mão. Seria toda uma dinâmica diferente, sabe?

Essa questão da manualidade de você fazer o processo mais lento é uma coisa que
ganha muito meu coração exatamente por ter uma vontade de voltar para um tempo
em que as coisas pareciam mais fáceis.

Elisa: Em 2026, ninguém pode dizer que filmar em película é uma necessidade técnica. Poderíamos ter feito esse filme em digital. Mas a proposta que o Nico trouxe era a da presença. E um foco nessa estética. Eu acho que foi realmente uma colaboração para trazer uma estética um pouco diferente.

A história já não é convencional: existe um pelo que ganha forma humana, uma língua inventada, uma narrativa simbólica. Então decidimos assumir também um processo diferente.

Foi um convite para fazer as coisas de outra maneira. O resultado foi uma experiência muito baseada na presença. Precisamos confiar uns nos outros o tempo todo e manter uma comunicação constante. Foi uma decisão ousada. Boa parte da equipe nunca havia trabalhado com película.

Nicolau: Eu não saberia dizer quando foi a última vez que filmaram em película 16mm em Brasília. Eu diria que há mais de dez anos. A maioria da equipe nunca tinha passado por essa experiência. E foi bem interessante, as pessoas aprendendo tudo, todo mundo muito atento...

Também não havia monitoração. Normalmente, quando a gente vai gravar no digital, acompanha tudo em telas que mostram o que está sendo filmado na câmera. Aqui não. A única pessoa que sabia exatamente o que estava sendo capturado era quem estava operando a câmera.

E aí isso levou para algum lugar muito diferente do que a gente está acostumado. Eu perguntava: "Foi bom?". A resposta era: "Foi". Então seguíamos para a próxima cena. Era preciso confiar.

Elisa: E a película traz toda uma questão estética, do grão, a suavidade que essa imagem tem, as cores, a forma que se captura a imagem ali, a luz, é realmente diferente do digital, é uma coisa muito especial.

Muita gente quer esse “look”, mas não quer o processo, por exemplo, de emular a película, de fazer pós-produção. E o que eu acho que foi interessante foi bancar esse processo. Sabendo esse tipo de coisa, que você não ia necessariamente saber, tipo, com absoluta certeza. O que é que tá sendo capturado, a gente vai demorar um pouco para ver esse material, a gente não teve muitos takes, sabe?

Foi também sobre abraçar esse processo. E eu na verdade eu acho que para mim, particularmente, é o que eu acho mais bonito da película, de filmar com a película. E que sempre acontece alguma coisa inesperada e é um processo mais orgânico, mais vivo, sabe? Então você se planeja bastante. Até porque isso é um processo caro, então você não quer sair rodando, não quer gastar filme à toa, mas sempre tem alguma coisa que tipo, “ah, nossa, não tinha visto isso”, sabe?

Então eu tô animada para a gente ver o que que vai ser

Vocês lançam ainda este ano?

Nicolau: Acredito que o lançamento fique para 2027.

Nossa expectativa é concluir o filme entre setembro e outubro deste ano. Depois disso começa a circulação. Então ainda há muita coisa pela frente.

Saiba mais: https://www.nicolauaraujo.com