[DF] As Fulô do Cerrado: dez anos depois, o encontro virou disco

[DF] As Fulô do Cerrado: dez anos depois, o encontro virou disco

“De Rio a Rua” marca amadurecimento do grupo brasiliense, que nasceu entre aprendizes de Mestre Zé do Pife e agora busca levar sua música para além do Cerrado

Por Carol Boueri
Foto: Vanessa Acioly

Elas ainda estavam aprendendo a tocar quando decidiram subir ao palco pela primeira vez. Não eram musicistas profissionais e vinham de trajetórias que pouco indicavam que, dez anos depois, estariam lançando um álbum autoral. Foi entre encontros na Universidade de Brasília (UnB), oficinas com Mestre Zé do Pife e a disposição de se lançar à música antes mesmo de se sentirem prontas que nasceu As Fulô do Cerrado.

Agora, uma década depois, o grupo transforma parte dessa trajetória em “De Rio a Rua”, primeiro álbum das Fulô e resultado de quatro anos de construção. Mais do que registrar uma fase da banda, o trabalho revela o amadurecimento de mulheres que aprenderam música enquanto aprendiam também a existir coletivamente como artistas.

Ouça: "De Rio a Rua"

Laura Xavier lembra que As Fulô surgiu de um encontro de aprendizes de Mestre Zé do Pife na UnB. As integrantes estudavam ou circulavam pela universidade por outros motivos — havia quem cursasse Arquitetura e Geologia e até quem frequentasse a biblioteca para estudar para concurso.

“Nós não éramos musicistas. A gente foi aprendendo junto com a evolução do grupo. Conforme o grupo evoluía, nós evoluíamos musicalmente também e os nossos sonhos evoluíam junto”, conta Laura.

No começo, pensar seriamente em um repertório autoral ainda parecia distante. O desejo, porém, já existia. À medida que vieram experiência, domínio dos instrumentos, palcos e maturidade de produção, o sonho começou a ganhar contornos possíveis.

Foi há quatro anos que as integrantes entenderam que havia chegado a hora de transformar essa vontade em álbum. O processo seria longo o suficiente para que o próprio disco mudasse junto com elas.

Jéssica Carvalho lembra que novas referências musicais foram incorporadas durante esse período e que as integrantes passaram também a se perceber em outro lugar: o de compositoras. Se tivesse sido feito no início do processo, acredita, o álbum provavelmente seria diferente.

O mestre que abriu a porta

Antes de qualquer disco, porém, houve um som que vinha de uma oficina na UnB.
Samara Tokunaga conta que passou mais de um ano ouvindo aquela música e pensando em parar para descobrir o que acontecia ali. Até que um dia resolveu entrar. “Desde o momento em que eu cheguei, nunca mais parei”, recorda.

Experiências semelhantes aproximaram as integrantes de Mestre Zé do Pife. O encontro não apenas ensinou instrumentos às futuras Fulô, como abriu uma porta para a cultura popular e para uma possibilidade profissional que nenhuma delas havia imaginado.
“Foi a nossa porta de entrada para o mundo da música, para o mundo da cultura popular e para os palcos também”, diz Samara.

Segundo ela, o mestre incentivava as aprendizes a tocar mesmo quando ainda eram iniciantes. A relação ultrapassou o aprendizado musical e tornou-se uma referência para a forma como o grupo compreende e vivencia a cultura popular.

Jéssica reconhece nessa disposição para se lançar uma característica que atravessou a década. No primeiro show, realizado na casa de um amigo, elas ainda estavam aprendendo a tocar. Mesmo assim, ocuparam o lugar de artistas. A mesma coragem apareceria em outros momentos da trajetória, inclusive quando dividiram o palco com Elba Ramalho.

Do Cerrado para a rua

Se a história começou com um encontro, o título do primeiro álbum carrega os caminhos percorridos depois dele.

Em “De Rio a Rua”, o rio remete à natureza e ao Cerrado, berço das águas e presença recorrente nas letras e inspirações do grupo. A rua representa as brincadeiras, os brinquedos, os mestres e as manifestações da cultura popular.

Entre os dois, As Fulô constroem um universo em que fronteiras se misturam.

“O rio vira rua, a rua vira rio”, resume Samara.

Essa mistura também aparece musicalmente. O álbum amplia uma identidade durante muito tempo associada principalmente ao forró e reúne referências que passam por salsa, cavalo-marinho, caboclinho e samba pisado, ritmo brasiliense que, por sua vez, dialoga com manifestações da Zona da Mata Norte de Pernambuco.

Fernanda Pagani explica que a intenção era justamente abraçar a pluralidade e transportar para a música o movimento da rua, com seu encontro de sons, pessoas e referências.

A mudança deverá ser percebida também nos palcos. Se durante anos o público conheceu As Fulô sobretudo pelos bailes e shows de forró, o espetáculo de “De Rio a Rua” propõe outra experiência, com novos arranjos, mais instrumentos e revezamentos entre as integrantes.

“Quando as pessoas ouvem ‘De Rio a Rua’, esse retorno chega muito forte: ‘Fulô maturou o som’. As pessoas percebem que a gente tem um som original e traz muitas referências da cultura popular brasileira”, afirma Fernanda.

Dez anos fazendo acontecer

Manter esse caminho, entretanto, exige mais do que inspiração. Para Laura, a sustentabilidade financeira continua sendo um dos principais desafios de uma banda independente.

Nos primeiros cinco anos, conta, o trabalho praticamente não proporcionava retorno financeiro. A situação melhorou, mas a remuneração ainda não corresponde à quantidade de trabalho dedicada ao grupo. O próprio álbum nasceu em meio às limitações de uma produção independente e contou com profissionais que abraçaram o projeto também pela relação construída com As Fulô.

É justamente aí que a condição de um coletivo formado por mulheres aparece de maneira menos abstrata e mais cotidiana.

Entre produção, ensaios, apresentações e projetos, elas aprenderam a perceber quando uma precisa ser sustentada pelas outras. Laura fala de amizade, diálogo, acolhimento e da preocupação em não deixar o aspecto emocional desaparecer diante da carga de trabalho.
“Quando uma não está bem, a gente tenta segurar. Quando uma está mais forte, apoia a outra que está caindo”, conta.

Para ela, essa rede ajuda a explicar por que As Fulô atravessaram uma década. Ao lado das dificuldades vieram respostas que alimentaram a continuidade: o público, os convites, projetos realizados, uma turnê pela Europa e, finalmente, o primeiro álbum.

Agora, outros caminhos

“De Rio a Rua” também materializa uma memória. Depois de uma história construída principalmente nos encontros, ensaios e palcos, As Fulô passam a ter um registro de uma década de trabalho, referências, composições e afetos.

Mas o álbum que olha para trás também aponta para fora.

Se antes o desejo era ultrapassar os muros da UnB e alcançar Brasília, agora a ambição é fazer a música circular para além do Distrito Federal. O grupo já identifica, pelas plataformas digitais, ouvintes em outros estados e quer transformar esse alcance virtual em presença nos palcos de outras regiões brasileiras.

“Queremos fazer com que o Brasil saiba quem são As Fulô do Cerrado, que esse nome fique nos ouvidos e na boca de quem não mora aqui em Brasília”, diz Fernanda.

Dez anos depois daquele primeiro palco, Jéssica acredita que o percurso confirmou uma convicção que acompanha o grupo desde o começo: aquilo que recebe sonho, energia e trabalho coletivo pode chegar a lugares que pareciam improváveis.

Se pudesse encontrar hoje aquelas mulheres que começavam a tocar, ela lhes diria para continuar acreditando. Porque, sozinhas, talvez nenhuma delas tivesse chegado até aqui. Juntas, chegaram do rio à rua — e agora querem ir muito além.