[RJ] Uma ópera de ontem para um Brasil de agora

[RJ] Uma ópera de ontem para um Brasil de agora

Tem espetáculos que terminam quando as luzes se acendem. Outros continuam ecoando depois que o público deixa a sala. É o caso de "Ópera do Malandro", musical de Chico Buarque que, quase cinco décadas depois de sua estreia, voltou ao Rio em uma montagem de Jorge Farjalla capaz de provocar encantamento, reflexão e, sobretudo, a sensação de que aquela história foi escrita para falar também do Brasil de hoje

Por Angélica Cabral
Foto: Divulgação

No Teatro Multiplan, na Barra da Tijuca, a obra ganhou uma encenação grandiosa, pulsante e visualmente arrebatadora. Música, teatro, dança, humor e referências à cultura popular se encontraram em um palco que parecia transbordar para além da própria narrativa. A história se passa na Lapa dos anos 40 e acompanha Max Overseas Navalha, contrabandista sedutor interpretado por José Loreto, em meio a negócios escusos, relações de poder, corrupção e alianças improváveis. Mas o que poderia ser apenas o retrato de outra época surge, na leitura de Farjalla, como um espelho de comportamentos que continuam reconhecíveis.

“Como a ‘Divina Comédia’, de 1300, este texto é atemporal. Ele representa um período muito amplo e deixa a pergunta: o quanto mudamos de lá para cá?”, questiona o diretor. A pergunta atravessa toda a montagem. Escrita em 1978, em plena ditadura militar, "Ópera do Malandro" transportava para a Era Vargas uma crítica à sociedade brasileira e às estruturas de poder de seu tempo. A inspiração vinha de "A Ópera dos Mendigos", de John Gay, e de "A Ópera dos Três Vinténs", de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Chico abrasileirou essa tradição e transformou a malandragem carioca em matéria-prima para falar de maracutaia, desigualdade, desejo, dinheiro e falsidade moral.

Farjalla, porém, não se limitou a reproduzir o clássico. Sua proposta aproxima a história da cultura popular brasileira e incorpora ao espetáculo referências aos Exus, com a presença de arquétipos como Zé Pilintra, Marias Padilhas e Maria Mulambo. “Nada mais justo, até pelo povo da rua. Isso para mim era muito importante: não deixar de levar esse lugar para a ópera, já que ela nasceu ali na Lapa”.

Outra transformação marcante está no protagonismo feminino. Personagens que já eram fundamentais na dramaturgia de buarqueana ganharam ainda mais força. Geni, vivida por Valéria Barcellos, ocupa um lugar central nessa nova leitura. A escalação da atriz trans para interpretar uma das personagens mais emblemáticas da obra acrescenta uma camada contemporânea a uma figura historicamente atravessada pela violência, pelo preconceito e pela hipocrisia social. “A Geni se transformou quase em uma protagonista e a minha “Ópera” ficou um pouco mais feminina”.

No centro de tudo está a música de Chico Buarque. Canções como “O Meu Amor”, “Folhetim”, “Pedaço de Mim”, “Teresinha” e “Geni e o Zepelim” continuam carregando uma força impressionante, mas, inseridas nessa encenação, parecem ganhar novas cores. É impossível não se deixar levar pela beleza das melodias enquanto as letras devolvem ao público questões incômodas sobre quem manda, quem obedece, quem lucra e quem permanece à margem.

Ainda no tocante à adequação aos dias de hoje, o Max, de José Loreto faz uma provocação certeira: “Quem não é malandro nos dias de hoje? Alguns usam o carisma, outros a pilantragem, mas todos dão um jeitinho de sobreviver”. E isso fica muito claro nos 120 minutos, sem intervalo, de cenas primorosamente interpretadas.

Talvez esteja aí uma das maiores forças desta montagem: o espetáculo não tenta transformar seus personagens em heróis ou vilões absolutos. Todos têm interesses, contradições e estratégias de sobrevivência. E é justamente nessa zona cinzenta que o público se reconhece; às vezes, com humor; outras, com desconforto.

A Revista Traços estava acompanhando a despedida da peça em solo carioca, neste domingo, dia 30 de agosto, e comunica que, infelizmente, ainda não foi divulgado qual será o próximo destino dessa “Ópera”.

Ao deixar o teatro, ficou a impressão de ter assistido não apenas à remontagem de um clássico, mas a uma obra que encontrou novas maneiras de conversar com seu tempo. No texto, versos de um sucesso de Anitta, gírias como "farmar aura" e menções à TV Globo mostraram que, além de preservar o DNA de Chico Buarque, Jorge Farjalla acrescentou outras vozes, símbolos e perspectivas. O resultado é um musical exuberante, divertido e politicamente afiado, que celebra a força do teatro brasileiro sem transformar o passado em peça de museu.

O público sai daquele espaço físico, mas não consegue se desconectar da catarse que vivenciou ali dentro. Talvez a grande malandragem de Chico seja justamente essa: escrever sobre um Brasil de quase 50 anos atrás e fazer com que, ainda hoje, a gente se reconheça nele.


SERVIÇO -  Ópera do Malandro – O Musical
Direção: Jorge Farjalla
Texto e músicas: Chico Buarque
Elenco: José Loreto, Tiago Barbosa, Valéria Barcellos, Totia Meireles, Carol Costa, Amaury Lorenzo, Edgar Bustamante, Marya Bravo e outros.
Local: Teatro Multiplan – Shopping VillageMall
Classificação: 14 anos
Duração: aproximadamente 120 minutos, sem intervalo.