[DF] Do algoritmo ao papel

[DF] Do algoritmo ao papel

Rapha Baggas reúne em livro sua produção de design ativista e leva para o impresso imagens que marcaram os anos recentes da política brasileira

Por Carol Boueri
Foto: Divulgação

Há uma inquietação curiosa por trás de Baggas, livro que o designer Rapha Baggas lança em Brasília no dia 3 de setembro, às 19h, na Livraria da Travessa, e terá um segundo lançamento no dia 19, às 17h, durante o Sesc + Rabiscão: como preservar uma obra construída em grande parte no ambiente digital quando a própria memória da internet é tão incerta? Redes sociais desaparecem, plataformas mudam, algoritmos decidem o que permanece visível. Diante dessa fragilidade, Baggas resolveu fazer o caminho inverso. Tirar suas imagens das telas e devolvê-las à matéria.

A obra reúne trabalhos sociopolíticos produzidos ao longo de anos turbulentos da história recente brasileira. Mais que uma coletânea, nasce do desejo de garantir que essa trajetória não fique à mercê de uma plataforma que, um dia, pode simplesmente deixar de existir.
Não é a primeira vez que seus trabalhos atravessam a fronteira entre o digital e o mundo físico. Durante a pandemia, Baggas viu imagens suas serem impressas e levadas às ruas em manifestações. Lembra, especialmente, de uma menina segurando um de seus trabalhos em defesa da vacinação. Publicada na internet e apropriada pelo público, a imagem voltava à rua como instrumento de manifestação política.

Esse trânsito ajuda a compreender uma linguagem construída também por deslocamentos — geográficos, estéticos e políticos.

Formado pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Baggas recorre a uma imagem particular para falar de suas origens. De um lado, a “Bahia seca”, distante do mar, de onde vem sua família. De outro, a “Bahia molhada”, que encontrou durante a formação e onde mergulhou em um ambiente de efervescência cultural e conscientização política.

Estudar em uma universidade pública trouxe ainda uma percepção de responsabilidade: se a sociedade lhe dera a oportunidade de se formar, era preciso devolver algo a ela. O design se tornaria uma das formas dessa devolução.

É também na Bahia que encontra uma de suas grandes referências, o designer tropicalista Rogério Duarte. Para Baggas, olhar para essa geração significa reconhecer aqueles que pavimentaram o caminho para que artistas e designers possam hoje produzir em liberdade e em uma democracia. Ao lembrar a atuação da Tropicália durante a ditadura, ele ressalta também o preço pago por quem enfrentou aquele período.

Uma extensão acadêmica na Universidade de Aveiro, em Portugal, permitiu enxergar o Brasil de fora e perceber a força da cultura brasileira no cotidiano português, da música às novelas. Brasília acrescentaria outra camada: na capital, onde fez mestrado em Tecnopolítica no Design pela Universidade de Brasília (UnB), encontrou uma síntese mais minimalista para a exuberância tropicalista da experiência baiana.

Protesto pelo design

Foi a partir de 2018, no contexto da ascensão da extrema direita, que a dimensão ativista de sua produção ganhou força. Baggas encontrou no design uma maneira de se posicionar diante de um período que associa a tempos sombrios da história recente do país.

Bandeira, cores nacionais e símbolos políticos são deslocados e ressignificados em imagens que condensam discussões complexas sem encerrar a interpretação. Às vezes, nem o autor percebe tudo aquilo que o público encontrará nelas.

Baggas chama de “bolha” a comunidade que acompanha seu trabalho nas redes. É um público que frequentemente devolve ao artista interpretações imprevistas.

Em uma imagem produzida para o Le Monde Diplomatique Brasil, o “Diplo”, por exemplo, uma aeronave sobrevoa uma plantação pulverizando agrotóxico, enquanto a nuvem formada no céu remete à bandeira brasileira. Um seguidor viu no motor do avião uma semelhança com o símbolo da Rede Globo e o associou ao slogan “Agro é pop, agro é tudo”. A referência não havia sido colocada conscientemente pelo designer.

Depois de publicada, afinal, a imagem já não pertence inteiramente às intenções de quem a criou.

Essa autonomia marcou também um ponto de inflexão na carreira. Um trabalho autoral, concebido sem finalidade editorial, acabou escolhido para a capa de A Elite do Atraso: da Escravidão a Bolsonaro (2019), do sociólogo Jessé Souza.

Manifesto, memória e arte

Quando provocado a definir Baggas como obra de arte, manifesto ou registro histórico, o designer ri. Pode ficar com as três?

Manifesto, porque parte das imagens nasceu da necessidade de se posicionar e fazer do design uma ferramenta de reação política e defesa da democracia. Registro histórico, porque elas carregam acontecimentos, conflitos e debates de um período do Brasil — e provocam o observador a estranhar, perguntar e buscar informação.

Quanto à obra de arte, Baggas prefere não conceder o título ao próprio trabalho. O julgamento fica para quem abre o livro.

Transformar esse acervo em publicação impressa funciona ainda como uma espécie de seguro contra o esquecimento digital. Se um algoritmo muda ou uma plataforma desaparece, as imagens continuam ali. Impressas.

E o papel talvez seja apenas o começo. Para o próximo ano, Baggas pretende realizar uma exposição, ampliando as imagens para criar uma experiência de maior impacto e alcançar outros públicos.

Quer também inspirar quem vem depois. Se sua produção chegar a jovens designers e estudantes, considera que terá conquistado algo importante. Formar novas gerações capazes de reconhecer os sinais do autoritarismo seria também uma maneira de diminuir as chances de retroceder aos períodos sombrios que o país atravessou.

Ao pensar no futuro, Baggas reconhece o que recebeu do passado. Reverencia o jornal como espaço da ilustração, do humor e da manifestação política e cita referências como Laerte, Ziraldo, Aroeira e Miguel Paiva. São artistas que, assim como Rogério Duarte e tantos outros, ajudaram a pavimentar um caminho que permite às gerações seguintes criar e se manifestar em liberdade.

“Tudo é referencial. Alguém que ficou e que nos trouxe até aqui, né?”, diz.

Agora, imagina experimentar algo com “esse clima de jornal”, fazendo “esse caminho da internet pra gravura”.

É uma direção coerente para uma obra marcada pelo trânsito. Da Bahia seca à Bahia molhada. Da exuberância tropicalista ao minimalismo brasiliense. Da indignação política ao desenho. Da tela para as ruas. Do algoritmo para o livro. Da internet para a gravura.

Se tudo é referência, permanecer também é uma forma de resistência. E talvez seja justamente isso que o papel ofereça às imagens que nasceram para contestar seu tempo: a possibilidade de sobreviver a ele.

Serviço - Lançamento do livro Baggas, de Rapha Baggas

3 de setembro, às 19h
Livraria da Travessa — Brasília
O livro estará à venda na livraria a partir desta data.

19 de setembro, às 17h
Sesc + Rabiscão
O livro também estará à venda no Rabiscão no dia do evento.

Pré-venda
Disponível em raphabaggas.com.
Os exemplares adquiridos na pré-venda pelo site não poderão ser retirados na Livraria da Travessa. A retirada poderá ser feita no Rabiscão, em 19 de setembro, ou os livros poderão ser recebidos pelos Correios.