O Comitê de Cultura do Distrito Federal aproxima agentes culturais de artistas, coletivos e espaços independentes, para garantir que as políticas públicas encontrem quem realmente vive da cultura. O trabalho se sustenta em escuta, formação, mobilização e orientação prática.
Desde o início das atividades, já foram realizadas dezenas de ações de mobilização territorial, rodas de conversa, oficinas técnicas e processos formativos que somam centenas de horas. O Comitê também mantém um canal contínuo de atendimento para criadores culturais e coordena um mapeamento amplo de trabalhadores da cultura que ainda não conseguem acessar políticas públicas.
Esse trabalho acontece com presença real nas cidades, com metodologias que privilegiam o diálogo direto e a construção coletiva. As escutas ativas, por exemplo, reúnem fazedores de cultura, coletivos, espaços independentes e moradores para identificar prioridades, desafios e propostas concretas. Também é por meio delas que o Comitê organiza as cartas das cidades, que são documentos construídos com a própria comunidade, que orientam decisões e ajudam a planejar investimentos culturais de maneira mais justa e alinhada às necessidades locais. Essas escutas se combinam às ações de formação, que abrangem temas como elaboração de projetos, captação de recursos, prestação de contas, comunicação, portfólios e práticas artísticas.
Em Sobradinho, a agente cultural Neide Nobre descreve o papel com precisão: “Nosso trabalho como agente territorial é levar as informações de todas as políticas públicas do Ministério da Cultura para os territórios. Ser um braço estendido do Ministério da Cultura dentro dos territórios, fazendo com que os agentes culturais, a comunidade cultural, possa acessar as políticas públicas que estão aí estabelecidas.” A rotina inclui escutas presenciais, que ajudam a identificar necessidades reais. “Somos também responsáveis por fazer, dentro dos territórios […] a escuta atenta e ativa para fazer um diagnóstico diante da pergunta que é: quais são os principais problemas enfrentados pela comunidade cultural dentro do DF?” A partir dessas conversas, surgem as devolutivas: “Nós fazemos a devolutiva dessa escuta atenta através de capacitação, oficinas, de todas as propostas de entregas que estão previstas no plano de trabalho.”
Neide também organiza grupos locais para manter o fluxo de informação vivo. “A gente cria grupos do comitê dentro do território para estreitar essas informações.” A experiência de mais de três décadas no setor aparece na maneira como ela se define: “Eu me coloco como realizadora dos projetos e sonhos dos artistas e agentes culturais.” E completa: “A cultura é fundamental, ela serve para a gente dialogar com a comunidade de uma forma mais leve sobre temas super, às vezes, pesados e importantes.”
Além das escutas e grupos locais, o Comitê opera o Circuito de Ativação, que percorre diversas regiões administrativas oferecendo oficinas artísticas, capacitações técnicas, encontros comunitários e ações de mobilização. Esse circuito é construído a partir da chamada Polinização Cultural, uma metodologia que promove troca de conhecimentos entre territórios e amplia a circulação de projetos e iniciativas locais. As caravanas de escuta antecedem cada ativação, garantindo que o diálogo determine as ações e não o contrário.
Em Brazlândia, o jornalista e agente cultural Mateus Moura percorre a cidade com atenção às pessoas. “Meu trabalho como agente territorial de cultura é um trabalho de mapear os fazedores, os artistas, os trabalhadores da cultura, os espaços culturais, um trabalho de ouvir as pessoas através da escuta atenta no Distrito Federal.” Ele explica a importância da função: “A existência dos agentes culturais do DF é de grande importância […] para facilitar a vida das trabalhadoras e dos trabalhadores da cultura, levar apoio, levar ajuda, ouvir eles.”
A própria trajetória revela por que ele reconhece tão bem as barreiras do setor. “Eu vim da área da cultura e da comunicação. Comecei com 12 anos de idade”. Hoje, ao circular pelos territórios, ele encontra histórias que lembram a sua: “É uma rádio comunitária que está prestes a fechar […], é um diretor de cinema que quer gravar seu filme com as pessoas da comunidade, mas às vezes não tem dinheiro nem para o lanche, nem para o transporte.” Para Mateus, a política cultural só se completa quando chega a quem precisa. “Cultura é vida, a gente vive da cultura. Ela traz vida, ela traz oportunidade, ela traz esperança.”
O Comitê também desenvolve ações afirmativas voltadas para grupos historicamente marginalizados como juventudes negras, mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, comunidades indígenas e pessoas com deficiência. Essas ações buscam garantir que todas as vozes estejam representadas nos processos decisórios e formativos, ampliando a diversidade dentro das políticas culturais do DF. Além disso, o canal de Apoio a Criativos oferece atendimento individualizado, mentorias e orientação prática para quem precisa navegar por editais, leis de incentivo e ferramentas de gestão cultural.
As formações complementam essa atuação com fôlego profissional. A produtora Natália Stanzioni participou do curso de Produção Executiva e destaca o impacto direto da iniciativa. “Eu achei o curso muito bom! Já atuo na produção há alguns anos […] essa experiência foi especialmente enriquecedora.” Ela explica que o conteúdo ajudou a reorganizar processos internos. “Participar desse curso me ajudou a renovar meus entendimentos, reciclar conteúdos e ampliar a visão sobre o mercado cultural.” Para Natália, a formação tem efeito estruturante: “O Comitê contribui para o fortalecimento de toda a cadeia cultural.”

Natália com a produtora Elsa Costa
Entre os participantes das oficinas, Leandra Neiva, Porta Voz da Revista Traços, encontrou uma ferramenta imediata para o seu trabalho. “Na oficina de produção de vídeo para celular descobri um vasto universo novo de possibilidades de comunicação [...] quero colocar tudo em prática, treinar mais e aproveitar esse curso, que considero extremamente importante para expandir nosso conhecimento sobre o que podemos criar apenas com o celular”.
Ela fala sobre o impacto pessoal dessa trajetória. “Sou Porta Voz da Revista Traços desde 28 de abril de 2018. Esse projeto me ajudou a voltar a sonhar e a correr atrás dos meus objetivos.” Hoje, o trabalho se mistura à vida de forma natural. “O coletivo social ao qual pertenço é lindo e me fortalece muito. Hoje vivo meus 61 anos com gratidão e alegria”, conta.

Leandra (Traços) e Érica Cidade (Comitê de Cultura)
O Comitê de Cultura do DF já soma mais de 115 horas dedicadas a escutas ativas, rodas de conversa e à produção das cartas das cidades. No campo formativo, já foram realizadas 52 atividades, ultrapassando 200 horas de cursos e oficinas que abordam desde captação de recursos, elaboração e execução de projetos, financiamento e fomento, criação de portfólios e prestação de contas até comunicação e produção de conteúdo. A programação inclui ainda oficinas artísticas em diferentes linguagens, como dança, canto, capoeira e outras práticas culturais.
Com este trabalho, o Comitê se estrutura como uma rede que se move no tempo das cidades. Neide, Mateus, Natália e Leandra dão rosto ao que acontece no território: um trabalho que se faz ouvindo, formando e apoiando de forma concreta quem mantém a cultura viva no Distrito Federal.
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