Em Vitória, artista leva a harpa para o mar

Em Vitória, artista leva a harpa para o mar

Na capital capixaba, músico independente cria uma experiência que une instrumento, natureza e desaceleração

Por Gustavo Domingos
Fotos: acervo do artista

Para quem tem a oportunidade de fazer passeios de canoa havaiana na Praia da Guarderia, em Vitória, a experiência pode ir além da paisagem. No meio do trajeto, o som de uma harpa começa a surgir. Quem toca é Victor Faro, conhecido artisticamente como Fauno, artista independente que chama atenção ao levar um instrumento comumente associado a ambientes formais para um cenário pouco comum: o mar.

“Um instrumento que as pessoas geralmente só veem por vídeo, na televisão, muito nesse contexto de orquestra e música clássica. Então é muito inusitado ver ali na praia”, afirma.

O repertório também quebra expectativas. Vai de Lady Gaga e Queen a Chitãozinho e Xororó e Claudinho e Buchecha, aproximando o público mesmo fora de um contexto tradicional de concerto.



A presença da harpa não conduz o passeio sozinha, mas altera o ritmo da experiência. O som se mistura ao ambiente e ajuda a instaurar um tempo mais desacelerado.

“O intuito é proporcionar uma experiência, relaxar as pessoas, criar um ambiente sonoro. A perfeição técnica não é o ponto-chave ali, como é no mundo da música clássica”.

Nos percursos, a experiência começa ainda na areia. As canoas saem da Guarderia e avançam pelo mar, passando pela região da Ilha do Boi e da Ilha do Frade. É nesse trajeto que a música entra.

A participação do artista costuma acontecer em passeios específicos, principalmente durante a lua cheia, quando a proposta se volta mais à contemplação.

Essa presença não começou no mar. Tocando na passarela de madeira da Guarderia, perto dos caiaques, o artista passou a chamar a atenção de quem circulava pela região. Aos poucos, surgiram convites, até chegar aos passeios de canoa havaiana realizados em parceria com a Jubarte Vaa.



Quem é o artista por trás da harpa no mar

Por trás da experiência, existe um percurso marcado por mudanças. Natural de Vitória (ES), Victor Faro, de 37 anos, é formado em música, com bacharelado pela Faculdade de Música do Espírito Santo e mestrado pela Universidade Federal da Bahia. Sua formação principal é em flauta transversal, com trajetória ligada à música clássica.

Depois desse período, decidiu se afastar. Problemas físicos, como tendinites, somados ao desgaste mental, levaram a uma pausa de cerca de cinco anos sem tocar.

O retorno à música veio em outro contexto e com outra lógica: sair do circuito formal e buscar a rua e o contato direto com o público.

“Eu estava muito acostumado com ambientes mais formais, de orquestra, sala de concerto, recitais. Isso me causava muita cobrança. Tocar ao ar livre é mais relaxante. E as pessoas estão mais abertas ao prazer da música, a se divertir e encontrar algo inusitado”, afirma.

A harpa surge nesse segundo momento da trajetória, incorporada durante a pandemia, já dentro dessa mudança de direção. Hoje, a atuação do artista se expande para além da música.

Ele desenvolve práticas ligadas ao yoga e à meditação sonora, utilizando harpa e flauta para criar experiências de escuta e relaxamento. Também atua com fotografia e tarot, em propostas que cruzam diferentes linguagens sensoriais.

Entre o encanto da experiência e os desafios de manter a arte

Manter esse tipo de trabalho ainda envolve instabilidade. Nem sempre o interesse se transforma em continuidade, e o reconhecimento do processo artístico nem sempre acompanha a curiosidade inicial de quem encontra a experiência. Victor Faro resume esse cenário a partir do que existe por trás da cena.

“Um dos principais desafios é que nem todo mundo valoriza. Nem todo mundo entende que há investimento, anos de estudo, dedicação. Nem sempre levam a sério. E tem a instabilidade também. Há momentos com mais eventos, outros com menos. É um trabalho de persistência”.

Ao mesmo tempo, o território onde essas experiências acontecem também atravessa um momento delicado. A região da Guarderia, em Vitória, que concentra trabalhadores, turistas, comerciantes e atividades ligadas ao mar, vem sendo impactada por episódios recentes de contaminação da água.

A situação afeta não apenas o ambiente, mas também a dinâmica econômica local, já que muitas pessoas dependem diretamente das atividades desenvolvidas na região para sua subsistência.

Mesmo nesse cenário, o trabalho segue. Entre remadas, música e contemplação, a proposta continua sendo a mesma: criar um espaço de pausa em meio ao ritmo acelerado do dia a dia.

Se você chegou até aqui, vale conhecer mais de perto o trabalho do Fauno. Ele compartilha parte desse processo no perfil @faunovix. E, para saber quando a harpa entra no mar, siga @jubarte_vaa.