[RJ] Um outro jeito de olhar o mundo

[RJ] Um outro jeito de olhar o mundo

Para Daniel Gonçalves, cinema também é uma forma de deslocar certezas. Diretor, produtor e roteirista, o carioca de 42 anos construiu uma trajetória no audiovisual a partir de uma experiência que, desde muito cedo, atravessa seu corpo: ele tem uma deficiência de origem desconhecida que afeta sua coordenação motora. Os primeiros sinais apareceram quando tinha cerca de seis meses de idade. Vieram exames, fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. O diagnóstico, porém, nunca chegou. Até hoje, nenhum laudo conseguiu explicar exatamente sua condição.

Por Angélica Cabral
Foto: Andrea Capella

Foi no jornalismo que Daniel deu os primeiros passos profissionais. Formado pela PUC-RJ, começou a se aproximar do audiovisual ainda na faculdade, quando conseguiu um estágio na TV PUC como editor. Sem nunca ter aberto um software de edição, descobriu ali uma nova possibilidade de contar histórias. A experiência o levou a criar minidocumentários e, posteriormente, a cursar Edição e Montagem na Escola de Cinema Darcy Ribeiro e Cinema Documentário na FGV. Depois de três anos no jornalismo da TV Globo, decidiu investir no próprio caminho e criou a produtora SeuFilme, que se aproxima de 14 anos de atividade.

A experiência pessoal ganhou espaço central em “Meu Nome é Daniel”, seu primeiro longa-metragem. Construído a partir de imagens de arquivo, registros contemporâneos e memórias familiares, o documentário revisita sua trajetória em busca de compreender uma deficiência que nunca recebeu um nome. O filme circulou por mais de 20 festivais e colecionou reconhecimentos, entre eles Menção Honrosa de Direção de Documentário no Festival do Rio, Melhor Longa pelo Júri Popular na Mostra de Tiradentes e Melhor Documentário no Los Angeles Brazilian Film Festival. Também foi qualificado para o Oscar pelo Festival de Cartagena.

Mais do que contar a própria história, ele queria escolher como ela seria contada. Seu objetivo era escapar das imagens recorrentes associadas às pessoas com deficiência: a do “coitadinho” ou a do “super-herói”. Para isso, chegou a tomar decisões que precisou defender dentro da própria produção. Uma delas foi ir sozinho à casa dos pais, em Barra Mansa, com uma câmera. O resultado foi um registro mais espontâneo e, sobretudo, mais próximo de seu próprio olhar.

Essa escolha se tornou também linguagem. Daniel incorpora seus movimentos à estética dos filmes. Se a câmera treme, ela pode permanecer tremendo. Se o enquadramento fica torto, não há obrigação de corrigi-lo. “Vai ter imagem tremida, vai ter imagem um pouco torta e está tudo bem”, afirma. A deficiência, nesse caso, deixa de ser apenas tema e passa a participar da construção da obra. Seu cinema não busca adaptar o corpo ao padrão; questiona a própria ideia de que existe um único jeito correto de filmar, olhar e estar no mundo.

Em “Assexybilidade”, Daniel amplia essa provocação para um território ainda cercado de silêncio: a sexualidade das pessoas com deficiência. O documentário, lançado em 2023, reúne histórias de flerte, namoro, desejo, masturbação e sexo e confronta a ideia de que PCDs seriam assexuadas ou incapazes de construir relações afetivas. O filme recebeu o prêmio de Melhor Direção de Documentário no Festival do Rio, Melhor Direção de Longa-Metragem no Festival For Rainbow e o Grande Prêmio do Júri na categoria Documentário no NewFest, em Nova York.

Para o cineasta, discutir sexualidade é discutir também direitos, autonomia e pertencimento. Não basta garantir acesso ao trabalho ou à educação, se o desejo, os relacionamentos e os direitos reprodutivos continuam sendo tratados como assuntos proibidos quando envolvem pessoas com deficiência.

A carreira premiada inclui ainda premiações no Festival de Gramado, onde recebeu Melhor Direção, Roteiro e Montagem, no Festival do Rio, com Melhor Longa na Mostra Novos Rumos, além de uma indicação ao Grande Otelo e, em 2026, Menção Honrosa de Longa Lusófono no Doc Coimbra.

Mas o diretor/produtor parece interessado em abrir novas frestas. Entre os próximos projetos estão duas séries: “Não Vou Me Adaptar”, e outra dedicada a influenciadores digitais PCD. Também pretende abordar educação inclusiva e a experiência de mães com deficiência. Ao mesmo tempo, existe uma inquietação: contar histórias que não tenham necessariamente a deficiência como tema.

É talvez aí que esteja sua próxima grande inquietude. Reconhecer a importância de PCDs ocuparem o lugar de quem conta suas próprias histórias, mas também reivindicar a liberdade de falar sobre qualquer assunto. Afinal, ser um diretor com deficiência não deveria significar estar condenado a fazer apenas filmes sobre este tema.

No cinema de Daniel Gonçalves, a diferença não precisa ser corrigida para caber no enquadramento. Ela pode ser justamente aquilo que desloca a câmera e faz o público olhar de novo.

Vamos acompanhar o trabalho e as novidades dele? Acesse o perfil @danielgoncalves no Instagram.