[RJ] As muitas Mangueiras que cabem em 30 histórias

[RJ] As muitas Mangueiras que cabem em 30 histórias

Por Angélica Cabral
Fotos: divulgação

A Verde e Rosa que aparece em As Mangueirenses não cabe em uma fotografia, em um desfile ou em uma história única. Ela é feita de afetos, conflitos, amores, perdas, personagens lendários e relações que atravessam gerações. É esse universo, contado a partir das vivências de 13 mulheres do Morro da Mangueira, que chega agora às páginas do livro de contos escrito por Yke Leon. O lançamento acontece nesta quarta-feira, dia 7 de outubro, às 19h, na quadra da Estação Primeira de Mangueira, com entrada gratuita.

Fruto de uma iniciativa da Associação Meninas e Mulheres do Morro (AMMM), contemplada pelo edital de Produção Literária da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, a publicação reúne 30 narrativas construídas a partir de encontros entre o escritor e as moradoras da comunidade. Durante dois meses, Yke ouviu histórias e memórias que acabaram revelando a ele uma Mangueira muito diferente daquela que imaginava conhecer.

“Passar dois meses com essas mulheres fez com que eu olhasse para a Mangueira, tanto a escola de samba quanto a favela, de uma forma muito mais profunda do que antes”. Para ele, existe uma relação embrionária entre os dois territórios, que se misturam nas relações cotidianas. “A vida delas, dos amores, das dores, das desilusões e das alegrias é atravessada, costurada por uma teia social que passa por esse lugar”.

Foi nesse emaranhado de laços que o autor percebeu que não existe uma única maneira de contar aquela comunidade. Cada mulher carregava consigo outras pessoas, episódios e personagens que também ajudavam a construir a memória coletiva. Uma dessas figuras, por exemplo, despertava medo em praticamente todas as entrevistadas.

“Todo mundo tinha medo dela. E, na hora em que uma das mulheres contou uma história que passava por essa mulher, todas as outras falaram: ‘Meu Deus, ela! Ai, que medo!’. Todas tinham uma história para contar”, lembra Yke. A personagem acabou ganhando espaço no livro justamente porque as lembranças compartilhadas revelavam uma espécie de figura lendária, conhecida por diferentes gerações.

O processo também fez o escritor rever uma certeza que, segundo ele, às vezes esquecemos: nunca conhecemos completamente um lugar apenas por aquilo que vemos de fora. “Se a gente chega achando que já conhece as coisas, não imagina o que elas têm para dizer. A realidade se impõe à ficção de uma forma muito bonita”.

E havia histórias de sobra. Ao organizar o material recolhido durante os encontros, ele percebeu que tinha reunido mais de 100 relatos que poderiam se transformar em contos. Apenas 30 chegaram à primeira edição. A seleção levou em conta tanto a força narrativa quanto a necessidade de equilibrar a participação das 13 mulheres.

“Não dava para ter dez contos de uma mesma mulher. Eu tive que fazer essa balança”. E o resultado pretende justamente atravessar diferentes sentimentos. Há histórias capazes de provocar riso, outras que conduzem às lágrimas e algumas que convidam à reflexão. Para Yke Leon, essa variedade é parte da riqueza do projeto. “Você vai chorar, vai rir, vai se divertir, vai refletir e certamente vai pensar em algo da sua própria vida a partir daquela história”.

Com prefácios assinados pela cantora Alcione e por Guanayra Firmino, presidenta da Estação Primeira de Mangueira, As Mangueirenses também ganha uma dimensão audiovisual. O lançamento terá a exibição de As Mangueirenses – O Documentário, dirigido por Guilherme Quadrado, que registra o processo de criação da obra.

À frente da iniciativa, a Associação Meninas e Mulheres do Morro atua há mais de três décadas no local, com projetos voltados para educação, cultura, cidadania e empoderamento feminino. Para a instituição, colocar essas narrativas no campo da literatura também significa ampliar os lugares onde a Mangueira pode ser vista e ouvida.

Mais do que reunir contos, o livro registra uma experiência de escuta. E aí está a sua maior força: nas histórias que só aparecem quando alguém se dispõe a sentar, ouvir e descobrir que, por trás de um território que muitos acreditam conhecer, existem incontáveis outras Mangueiras esperando para serem contadas.

Serviço - Lançamento de As Mangueirenses
Local: Quadra da Estação Primeira de Mangueira — Rua Visconde de Niterói, 1072, Mangueira
Data: Quarta-feira, 7 de outubro, às 19h
Entrada: gratuita

O evento terá coquetel, sessão de autógrafos com o autor Yke Leon e exibição do documentário As Mangueirenses – O Documentário, de Guilherme Quadrado.