[RJ] A ancestralidade aponta para o futuro

[RJ] A ancestralidade aponta para o futuro


Existem legados que não aceitam desaparecer. Passam de uma geração a outra pela voz, pelo corpo, pelos rituais, pelos desenhos, pelas canções e pelas histórias contadas dentro de casa

Por Angélica Cabral
Foto: divulgação

É justamente essa memória viva que o “X-Todas 2026” coloca em cena agora. Com o tema “Memórias que Insistem: Caminhos de Mulheres Negras e Indígenas”, o festival começou na segunda-feira (24) e segue até domingo (30), com atrações em unidades da Firjan SESI no estado.

A proposta é olhar para essas mulheres não apenas como personagens de uma história já escrita, mas como autoras de narrativas, produtoras de conhecimento e criadoras de futuros. A programação atravessa diferentes linguagens para revelar experiências de pertencimento, resistência, afeto e identidade, mostrando como a arte pode preservar aquilo que o apagamento histórico tentou silenciar.

O projeto começou em 2010, ainda como “X-Tudo Cultural”, criado com a missão de democratizar o acesso à cultura no Rio. Desde então, música, dança, artes visuais, cinema, teatro e outras expressões dividiram espaço com oficinas, palestras e workshops. A iniciativa também construiu uma ponte entre artistas consagrados e nomes em busca de reconhecimento, mantendo apresentações gratuitas ou a preços populares como parte de sua vocação.

Quando chegou à 10ª edição, em 2023, o X-Tudo ganhou um novo nome e um novo direcionamento: tornou-se “X-Todas”. A partir dali, passou a contar, celebrar e impulsionar as trajetórias femininas em diferentes campos da sociedade. A resposta disso aparece em mulheres que transformam suas vivências em linguagem.

Nesta quinta-feira (27), Katú Mirim, indígena do povo Boe Bororo, ocupa o Teatro Firjan SESI Centro. Rapper, atriz e criadora de conteúdo, ela mistura rap, rock, pop e funk e se tornou uma das referências da produção indígena no hip-hop brasileiro. Na mesma noite, a artista visual indígena Juliana Jaguatirika participa do Mural ao Vivo, levando para a pintura questões relacionadas à memória e às perspectivas anticoloniais.

Também hoje, em Campos dos Goytacazes, Kaê Guajajara revisita sete anos de carreira em um show acústico. A cantora e compositora aproxima canto originário, violão, percussão, piano e beatbox em um trabalho que dialoga com a retomada dos povos indígenas, a preservação ambiental e a valorização das culturas originárias. Antes da apresentação, haverá um bate-papo com a artista.

O cinema ganha espaço na sexta-feira (28), quando o Teatro Firjan SESI Centro recebe “A Memória também sonha: Mulheres Negras e Indígenas em movimento”. A seleção de filmes apresenta diferentes perspectivas sobre amor e modos de observar o mundo. Entre os títulos estão: Mar de Dentro, Teko Haxy – Ser Imperfeita, Dentro dos Seus Olhos, Mãos de Barro e Um Transe de Dez Milésimos de Segundo.

No sábado (29), a programação transforma conhecimento e experiência em encontro. No Centro, “Mulheres Negras Curtindo a Vida”, performance de Natasha Pasquini, cria um espaço de escuta dedicado à alegria, ao prazer e ao bem-viver. Mulheres negras compartilham lembranças e experiências em conversas individuais, registradas em áudio e incorporadas a um arquivo vivo que cresce a cada apresentação. A proposta desloca o olhar para além das narrativas de dor e afirma a alegria como possibilidade de existência e criação.

Em Jacarepaguá, a noite termina ao som do Moça Prosa, grupo de samba formado exclusivamente por mulheres e criado em 2012 na Pedra do Sal. A trajetória do coletivo nasceu justamente da ocupação de um espaço historicamente dominado por homens e transformou o samba em território de resistência e protagonismo feminino.

Ao longo de sua história, o X-Todas mudou de nome, ampliou seus recortes e transformou identidade em arte. Em 2026, ele ratifica o papel da memória, não como lembrança imóvel, mas como ferramenta de permanência. Isso acontece porque essas histórias atravessam o tempo quando encontram novas formas de serem contadas e, ao serem compartilhadas, abrem caminho para que outras também possam existir e marcar presença.
 
SERVIÇO - X-Todas 2026 — “Memórias que Insistem: Caminhos de Mulheres Negras e Indígenas”
Datas: até 30 de agosto
Locais: teatros Firjan SESI em diferentes cidades do estado
Entrada: programação gratuita, sujeita à lotação, conforme a atividade
Mais informações: site da Firjan 
@firjansesicultur