Desde 2011, o Bloco do RivoTrio ocupa as ruas de Brasília com um propósito que vai muito além da folia: transformar o Carnaval em um espaço de cuidado, reconhecimento e liberdade para pessoas em sofrimento psíquico. O coletivo, formado por trabalhadoras e trabalhadores da saúde mental, pacientes, usuárias e usuários do SUS, familiares e apoiadores, construiu, ao longo de 15 edições, uma das iniciativas mais potentes de inclusão cultural do Distrito Federal. Um bloco onde cabem as diversidades, inclusive as que a sociedade historicamente tenta silenciar.
O RivoTrio nasce do encontro entre a cultura popular e a luta antimanicomial, defendendo que a singularidade de cada pessoa deve ser celebrada, não tratada como ameaça. No cortejo, desfilam pessoas com transtornos psíquicos, usuários em uso intenso de substâncias, pessoas em situação de rua, grupos com demências ou sequelas de AVC, além de toda a comunidade que acredita em um modelo de saúde mental mais humano e comunitário.
Carnaval como política pública viva
Escolher o Carnaval como principal forma de atuação não é acaso. Na avenida, desaparecem diagnósticos, estigmas e fronteiras. Por isso, o RivoTrio se tornou um dos blocos mais inclusivos da capital. A cada edição, reúne cerca de 5 mil foliões, número que contrasta com os cerca de 15 participantes do primeiro desfile, em 2011. Parte da força está na diversidade dos grupos que se integram ao cortejo, como a banda Maluco Voador e a Cia Atravessa a Porta, ambas do Centro de Atenção Psicossocial do Paranoá, o Bloco Filhas da Mãe, que reúne familiares, cuidadoras e pessoas com Alzheimer e outras demências; o AVenCemos, composto por pessoas em recuperação de AVC. Há também a participação de fanfarras feministas, de percussão afro-brasileira, anticapacitistas, artistas independentes, coletivos de redução de danos, e outros movimentos sociais que transformam a rua em palco de cuidado coletivo.
Um bloco que cuida
Além da festa, o RivoTrio se estrutura como um espaço de acolhimento. Em seus desfiles, há ponto de apoio para redução de danos, tenda de escuta, equipe preparada para lidar com crises e materiais de orientação. O bloco também produz o “cartão de crise”, uma estratégia de cuidado para pessoas que possam precisar de suporte durante o cortejo, cuja impressão e distribuição são financiadas de forma independente.
Esse caráter acolhedor é um dos elementos que tornaram o bloco referência na construção de práticas antimanicomiais fora dos serviços de saúde. “A loucura não é contagiosa, é contagiante!”. Este é um lema que sintetiza a proposta: mais alas carnavalescas, menos alas psiquiátricas.
A cidade como território de saúde mental
O RivoTrio não atua apenas no Carnaval. Suas intervenções urbanas questionam o silenciamento histórico da loucura. Em 2020 e 2021, o coletivo realizou ações em grande escala, como a instalação “Como você está hoje?”, nos degraus da Torre de TV, no Dia Mundial da Saúde Mental, e a faixa “Manicômios ainda existem”, estendida no Eixão durante a Luta Antimanicomial. São gestos artísticos que interrompem o fluxo da cidade para lembrar que saúde mental é direito e precisa ser discutida no cotidiano, não apenas nos serviços especializados.
Essas ações também reforçam um conceito central para o coletivo: a saúde mental é construída no território, nos encontros, nas relações e na ocupação dos espaços públicos. A cultura, nesse contexto, é ferramenta de transformação.
Um bloco independente que precisa da cidade para existir
Atualmente, toda a organização do RivoTrio é voluntária e totalmente independente, não há financiamento público. Por isso, para colocar o bloco na rua, o coletivo mobiliza rifas, doações de artistas e apoio direto da comunidade. Os recursos arrecadados são destinados à remuneração de artistas e pacientes que compõem apresentações, manutenção dos estandartes, confecção de adereços, intervenções urbanas e estrutura básica do cortejo, como banheiros químicos, água mineral e comunicação de equipe.
Vem pra rua!
O Bloco do RivoTrio é uma política de cidadania, um abraço coletivo que toma as ruas para lembrar que ninguém deve enfrentar o sofrimento sozinho.
E tem cortejo em 2026. Com o tema “A vida não cabe em um diagnóstico”, o bloco manterá a tradição de sair sempre no domingo após o carnaval, fechando a folia.
Afinal, quem ri por último, RivoTrio.
SAIBA MAIS
@blocodorivotrio
Fotos: arquivo RivoTrio