A trajetória de Guilherme Bitencourt é um convite para repensarmos as formas como o ambiente impacta a experiência de cada indivíduo. Educador, músico e ativista, ele construiu sua identidade entre desafios e descobertas, ressignificando barreiras e abrindo caminhos para a inclusão. Sua história mostra que, mais do que limitações individuais, são as condições ao nosso redor que determinam o acesso e as oportunidades.
Por: Bárbara Noleto
Fotos: acervo do artista
Guilherme tem 26 anos. Nascido no fim dos anos 90, cresceu sem entender completamente sua condição de baixa visão. Durante a infância e adolescência, acreditava ser apenas um "menino com problema de vista". O diagnóstico só veio aos 18 anos, já na faculdade, transformando sua percepção sobre si mesmo e o mundo ao seu redor.
Foi na Universidade de Brasília, no curso de Pedagogia, que ele teve um momento de revelação. Durante uma disciplina sobre educandos com necessidades específicas, reconheceu-se na descrição dos alunos com deficiência visual. Ao fim da aula, abordou a professora e perguntou se sua experiência se encaixava no conceito de deficiência. A resposta foi um divisor de águas.
"Eu vivi a experiência da deficiência visual sem saber o nome disso. Sempre achei que eu era só preguiçoso, que não gostava de ler."
A partir dali, Guilherme mergulhou no universo da acessibilidade, descobriu leitores de tela, materiais em Braille e recursos que lhe permitiram continuar os estudos com autonomia. No Laboratório de Apoio às Pessoas com Deficiência Visual (LDV) da Universidade de Brasília, UnB, passou a atuar voluntariamente na adaptação de materiais e participou de pesquisas sobre a inclusão de jovens com deficiência visual no ensino médio do Distrito Federal.
"Desde aquele momento, percebi que era uma pessoa com deficiência visual, e isso mudou toda a minha estrutura de vida, meus conceitos, minha forma de trabalhar."
Ao mesmo tempo, a arte se tornava uma linguagem essencial para Guilherme. Influenciado por Júpiter Maçã e Rogério Skylab, encontrou na música uma forma de expressão e crítica. A banda Ex-óticos, da qual fez parte, se destacou no circuito independente de Brasília, explorando o humor e o nonsense para falar sobre acessibilidade, preconceito e desigualdade social.
Em 2023, deu mais um passo em sua militância: fundou o coletivo de Inclusão e Acessibilidade dos Estudantes (IAE-UnB). O grupo organizou o primeiro seminário de acessibilidade da UnB, um marco na instituição.
"Descobri que a minha experiência não era só individual, mas uma vivência social. A deficiência não me impedia de estudar, o que me impedia eram as barreiras que o ambiente criava."
Atualmente, Guilherme Bitencourt é professor efetivo da Secretaria de Educação do Distrito Federal e segue produzindo música, agora com o Coletivo Capybaras, que nasceu da amizade de longa data com colegas do ensino médio.

A banda homenageia o rock e o psicodelismo do quadradinho. O EP Destino de Filó coloca em cena o universo lúdico e provocativo, trazendo histórias de capivaras, gurus esotéricos e reflexões sobre o cotidiano. E, nesse meio tempo, deram show nos bares mais marcantes de Brasília, como Infinu, Zepelim e Na Toca.
"Eu sempre fui uma pessoa que gosta do nonsense, do choque. A gente criava cenas no palco, interpretava personagens, mas não porque queríamos ser bobões, mas porque somos bobões mesmo."
Guilherme não se contenta em apenas atravessar as barreiras impostas. Ele as transforma, ressignifica e convida outros a caminharem com ele. Sua arte e seu ativismo são uma proposta de enxergar o mundo por outras perspectivas e, acima de tudo, para construir uma sociedade mais inclusiva e diversa.
Ele quebra tabus no palco e no cotidiano, como quando joga camisinhas para o público, inspirado na vanguarda paulista. Inclusive, nos shows, tem o hábito de perguntar se existem pessoas com deficiência na plateia. E quando não há, questiona: “Por que não?” e “Onde estão eles, então?” Agora, com um sorriso no rosto, ele compartilha que tem encontrado cada vez mais pessoas com deficiência em suas apresentações. E quer que esse público cresça cada vez mais, para que a festa fique completa.
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