[ES] Rubens Barcellos: "Minha vida está na arte"

[ES] Rubens Barcellos: "Minha vida está na arte"

Foi enquanto desenhava durante um curso técnico que Rubens Barcellos percebeu que queria seguir outro caminho. Hoje, estudante da Ufes, ele constrói sua trajetória como artista a partir de diferentes linguagens e experiências

Por Gustavo Domingos
Fotos: acervo do artista

“Eu gosto de flutuar entre a pintura, o desenho e a escultura. Eu brinco que gosto de esculpir minhas pinturas, pintar meus desenhos e desenhar minhas esculturas, porque pra mim essas são três manifestações diferentes da mesma coisa”, explica o artista Rubens Barcellos. Ao falar sobre como constrói sua linguagem artística, ele mostra uma relação bastante livre com as técnicas que utiliza e com as possibilidades de criação.

E essa história com a arte já estava presente muito antes das escolhas profissionais. Desde criança, Rubens mantinha uma relação com a criação, mas foi depois de adulto que esse interesse ganhou força. A mudança aconteceu enquanto fazia o curso técnico portuário no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), período em que passou boa parte do tempo desenhando.

“Minha falta de interesse pelo curso de portos foi tanta que eu passei o curso todo desenhando, e quando me formei cheguei a conclusão que a minha vida está na arte. Eu sempre digo que decidir estudar artes foi a melhor decisão que tive na vida”, conta.
Depois da formação, Rubens decidiu seguir pela área que já ocupava tanto espaço em sua rotina. Nascido em Belém, no Pará, cresceu em Governador Valadares, em Minas Gerais, e atualmente mora em Vila Velha. Aos 39 anos, está no sexto período do Bacharelado em Artes, em Artes Plásticas, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Foi em terras capixabas que ele também passou a construir parte importante de sua trajetória artística. Além da formação na universidade, o percurso inclui experiências profissionais, como o trabalho de auxiliar de ateliê do escultor José Carlos Vilar, que Rubens considera uma de suas maiores inspirações.

Ao refletir sobre o caminho que vem construindo, ele recorre a uma frase de André Malraux para explicar a maneira como enxerga a arte e o próprio percurso.

“André Malraux disse uma vez ‘A arte é um antidestino', e essa é a frase que eu sempre carrego na minha mente quando o assunto é minha trajetória na arte. Não é sobre onde a gente vai chegar um dia, não é sobre ter um diploma ou apenas ser alguém reconhecido. É sobre construção espiritual e sobre o que você consegue observar e absorver. O caminho na arte não pode ser sobre chegar a algum lugar, mas sim saber que você está se tornando alguém melhor a cada passo”, afirma.

Em 2025, veio a primeira participação em uma exposição. Na mostra Olhar Neurodiverso, Rubens apresentou A Sociedade, obra que nasceu de uma aula de desenho e de um exercício de retrato que utilizava uma chamada “cabeça padrão” como modelo.

A ideia ficou na cabeça do artista. A partir dela, criou uma cabeça baseada nesses supostos padrões e acrescentou lágrimas escorrendo pelo rosto, sem que a figura demonstrasse tristeza.

“E eu decidi criar uma cabeça baseada nesses supostos padrões e fazer ela com lágrimas correndo, mas sem demonstrar essa tristeza”, conta.

Para Rubens, a imagem representa uma sensação presente no convívio social de muitas pessoas neurodivergentes: esconder características de si para conseguir aceitação. 
“Precisamos esconder quem nós somos de verdade, precisamos manter nossas neurodivergências debaixo do tapete para que possamos ser aceitos, precisamos nos disfarçar de normais ou de padronizados para que a sociedade nos veja como iguais. E com essa obra eu quis demonstrar esse choro de nós que precisamos constantemente vestir uma máscara para sermos aceitos”, destaca.

Um olhar para a ancestralidade

Atualmente, o tema que mais chama a atenção de Rubens está ligado à ancestralidade e à herança étnica. A pesquisa aparece principalmente na pintura e parte também da vontade de ampliar a representatividade.

Essa busca também está ligada à própria trajetória de Rubens, que se define como um homem preto e periférico e vê na formação no ensino superior uma conquista que carrega a história de quem veio antes dele.

“Quero dar mais representatividade para as pessoas pretas e honrar nossos antepassados que sofreram tanto preconceito no passado para eu, um homem preto e periférico, possa estar fazendo ensino superior”, afirma.

A pesquisa já ganhou um caminho específico dentro da pintura. Ainda em processo inicial, Tons de Trigo investiga diferentes possibilidades para alcançar tons de pele a partir de combinações variadas de cores.

“‘Tons de Trigo’ busca estudar como alcançar tons de pele de diversas maneiras, desde com paletas reduzidas com duas cores apenas até com cores secundárias ou terciárias”, conta.
A pesquisa ainda está em processo inicial e acompanha o momento de experimentação vivido pelo artista. A ideia de seguir aprendendo também aparece quando Rubens fala sobre os próximos passos e sobre a maneira como lida com seus próprios planos.

“Eu, como uma pessoa neurodivergente, aprendi na prática que as vezes o foco em um planejamento pode ser frustrante, então eu busco sempre oportunidades de aprender mais e me renovar mais e expandir meu horizontes intelectuais e artísticos”, destaca.

Um coletivo que o acolheu

Foi na Ufes que Rubens também encontrou outros artistas neurodivergentes e pessoas com deficiência. O contato com o Coletivo Atipicamente aconteceu por meio de colegas do curso, que o convidaram para fazer parte do grupo.

A convivência com outras pessoas com experiências semelhantes trouxe para Rubens um espaço de acolhimento, onde encontrou mais liberdade para falar sobre quem é e sobre a própria forma de enxergar o mundo.

“Esse coletivo é extremamente importante na minha trajetória porque eu aprendi que eu não preciso esconder aquilo me fez ser ‘Eu’ mesmo, e no coletivo eu encontrei uma zona de conforto com pessoas que conseguem compreender a minha visão de mundo, porque minhas neurodivergências são parte de quem eu sou e eu não preciso escondê-las para me ‘adaptar’ a sociedade”, conta.

Ao olhar para os próximos anos, Rubens pretende concluir a graduação, ingressar no mestrado e continuar trabalhando e estudando. A intenção é seguir encontrando oportunidades para ampliar seus conhecimentos e sua produção artística.

“Quero sempre me adaptar ao mercado para poder cada vez mais conseguir abraçar as oportunidades de peito aberto e conseguir, quem sabe um dia, escrever meu nome na história da arte do Brasil”, finaliza.

E aí, ficou curioso para conhecer um pouco mais do trabalho de Rubens? No perfil @rubensbma, o artista compartilha suas produções, pesquisas e os caminhos que vem construindo dentro da arte. Vale passar por lá e acompanhar de perto o que está surgindo desse percurso.