[ES] Gastação Infinita não espera a cena acontecer

[ES] Gastação Infinita não espera a cena acontecer

Banda formada em Itaquari, em Cariacica, cria oportunidades para movimentar a música independente capixaba; o GastaFest, festival idealizado pelo grupo, é um dos exemplos dessa atuação

Por Gustavo Domingos
Fotos: Melina Furlan

“Se a gente não tem a cena que a gente quer, a gente tem que construir ela”, diz Hecthor Murilo, baixista da Gastação Infinita. A frase ajuda a entender o caminho da banda, que busca espaço para a própria música e também se envolve na produção de eventos e parcerias para aproximar artistas e movimentar a cena independente no Espírito Santo.

A Gastação Infinita surgiu em 2018, em Itaquari, bairro de Cariacica, a partir de encontros entre amigos que se reuniam na casa de Hecthor para tocar. Nas guitarras estão Iago Tartaglia, que também toca sopros e assume os vocais, e Vitor Gomes. Hecthor Murilo toca baixo, Mateus Tavares fica na bateria e Pedro Otavio nos teclados.

Os integrantes ainda estavam na adolescência quando começaram a se reunir, sem grandes planos para o futuro. “A gente era muito moleque, tinha 17, 18 anos. A gente se reunia e fazia um som sem muita pretensão”, lembra Hecthor.

O rock psicodélico, o garage rock e o stoner rock estavam entre as referências que acompanhavam os músicos naquele período. Com o tempo, a música brasileira e regional também passou a fazer parte das escutas que alimentavam a criação do grupo.

Hecthor resume essa mudança a partir da própria experiência dos integrantes: “Quando a gente era mais novo, a gente ouvia mais rock, e a gente começou a ouvir mais música brasileira, então a Gastação Infinita veio meio que disso”.

Essa combinação aparece nos trabalhos da banda e na maneira como ela incorpora referências da cultura capixaba à sua produção. Lançado em 2022, o single “Chave do Portão” ganhou um videoclipe que leva João Bananeira, personagem ligado ao Carnaval de Congo de Roda D’Água, para o universo visual do grupo.
A música também integra o álbum de estreia, Odisseia na Ideiærradolândia, lançado em 2024. O disco reúne oito faixas, entre elas “João Bananeira”, que ganhou um videoclipe próprio em janeiro de 2025. Na narrativa, um jovem músico se vê diante de referências culturais que entram em conflito com sua ligação com o território onde vive. O vídeo foi selecionado para mais de dez festivais no Brasil e no exterior.

Em março de 2026, a banda lançou “Sai da Nóia”, em parceria com a Naimaculada. A colaboração ampliou o diálogo do grupo com outros músicos da cena independente e deu continuidade a uma trajetória em que as composições autorais convivem com diferentes referências e experiências coletivas.

O rolê que eles queriam ver

A busca por espaços para tocar também levou os integrantes a organizar os próprios eventos. Na Grande Vitória, encontrar lugares para apresentações era uma dificuldade recorrente, e foi desse cenário que surgiu o GastaFest, festival criado pela Gastação Infinita para reunir artistas e promover os encontros musicais que os integrantes gostariam de frequentar.

“O festival surgiu justamente da falta de lugar para tocar e fazer eventos na Grande Vitória no geral”, conta Hecthor.

As primeiras edições aconteceram em casas, em formatos menores e conforme as condições que os integrantes tinham para organizar os encontros. Com o tempo, o festival ampliou a programação e passou a receber bandas de outras regiões do Brasil, aproximando artistas que nem sempre encontram oportunidades de circular pelo Espírito Santo.

Em maio de 2026, o GastaFest chegou à 11ª edição, com entrada gratuita viabilizada por recursos públicos de fomento à cultura. A programação reuniu atrações capixabas e de outros estados, além de feira criativa e mostra de videoclipes.

Para o último fim de semana de outubro, a organização anunciou uma nova edição de Halloween, intitulada “Gastações ou Travessuras?”, marcada para 31 de outubro, novamente na Quadra do Esporte Clube Itaquari. 
Com dez atrações e ingressos pagos, o evento foi planejado de forma independente. A volta ao espaço, no mesmo bairro onde a banda começou, acompanha o percurso de um festival que saiu dos encontros menores para reunir diferentes artistas em uma programação mais ampla.

A presença de bandas de outras regiões responde a uma preocupação dos integrantes com a circulação musical. Para Hecthor, o Espírito Santo ainda aparece pouco nas rotas de apresentações, especialmente quando se trata de artistas independentes, que enfrentam dificuldades para chegar a novos públicos. “Se a gente não tem os artistas vindo para cá, a gente tem que trazer esses artistas”, afirma.

Ao longo das edições, o festival também ajudou a reunir um público interessado em descobrir novas bandas. Hecthor destaca a formação de uma plateia que acompanha os eventos pela música e pela possibilidade de conhecer trabalhos independentes.

“A gente conseguiu construir um público, a gente conseguiu fazer uma galera fiel, uma galera que vai pelo som, que quer conhecer as bandas”, conta.

A atuação da Gastação Infinita na produção cultural passa por outras iniciativas. Hecthor lembra da participação na produção do Manifesto Cultural, festival realizado na Ufes antes da pandemia, além de outros eventos organizados pelo grupo e de parcerias com produtores e coletivos da Grande Vitória.

Em setembro de 2026, a banda se apresentou ao lado do conjunto carioca Oruã em uma edição do GastaFest realizada em parceria com a festa Microfonia, na Casa Verde, no Centro de Vitória.

Os integrantes também participaram de oficinas e atividades de formação, como as do Movimento Cidade e do Criasslab, que contribuíram para ampliar seu conhecimento sobre o mercado cultural e a organização de projetos.

Manter essas iniciativas exige tempo e recursos financeiros. Além dos ensaios, das composições e dos shows, os integrantes precisam dividir entre si as tarefas necessárias para colocar os eventos de pé. Hecthor resume uma parte desse esforço na necessidade de “trabalhar em dobro, em triplo, fazer quatro, cinco funções para fazer a coisa acontecer”.

A banda pretende continuar trazendo artistas de outras regiões, aproximando públicos e ampliando os espaços para a música independente. Entre os objetivos do grupo está “levar o Espírito Santo pra fora e o Espírito Santo estar na rota pra gente”, como diz Hecthor.

Quem quiser acompanhar os próximos lançamentos, shows e projetos da Gastação Infinita pode encontrar a banda no Instagram, pelo perfil @gastacaoinfinita.