Público é convidado a experimentar momentos de acolhimento e passagens de tensão ao longo de uma montagem que aposta na surpresa e em diferentes sensações
Por Gustavo Domingos
Fotos: Mari Eilleirt
Acompanhar um corpo imerso num sistema de controle, vigilância e contenção. É a partir desse cenário que o espetáculo Célula coloca em cena os movimentos de quem tenta existir dentro de regras que já estão dadas e o que acontece quando esse sistema começa a ruir. O espetáculo de dança contemporânea terá três apresentações em Vitória, nesta quinta-feira (1º/10), às 19h, e na sexta-feira (02/10), às 18h e às 20h, no Theatro Carlos Gomes.
A montagem foi construída de forma compartilhada, com Endi, diretora cênica e artista responsável pelo espetáculo, levando uma proposta inicial para os ensaios e abrindo espaço para que intérpretes e equipe interferissem nas cenas. O público também entrou nesse processo ao conhecer uma versão ainda em construção e comentar o que estava vendo.
“A partir do ensaio aberto, a gente caminhou para o fechamento do espetáculo. A gente trouxe as expectativas do público, ali a partir do ensaio aberto, porque a gente apresentou no ensaio aberto uma obra realmente em aberto, não tava fechada ainda”, conta.
O primeiro encontro de Célula com o público aconteceu em 27 de março, no Espaço Cultural Má Companhia, em Vitória, quando a montagem ainda estava em processo. Depois, o espetáculo passou pela Escola Técnica Municipal de Teatro, Dança e Música (FAFI), nos dias 29 e 30 de abril, e pela Casa da Música Sônia Cabral, em maio.O percurso ajudou a levar a obra até a versão que chega agora ao palco.
A própria configuração da equipe faz parte desse processo. Entre as pessoas envolvidas na criação estão artistas com diferentes trajetórias e minorizadas, incluindo pessoas PCD, trans, negras, indígenas e periféricas. A composição veio de uma chamada aberta feita para formar o grupo e também ajudou a reunir experiências distintas dentro de uma mesma montagem.
Cada intérprete leva para a cena algo de sua própria experiência. A proposta inicial de Endi foi sendo modificada durante as discussões com o elenco e o restante da equipe, fazendo com que elementos como capoeira e canto entrassem no trabalho. Para a diretora, essa troca está ligada à própria ideia de individualidade presente no espetáculo.
“Eu idealizei a parada, mas é uma obra que é de todo mundo. Cada intérprete traz um pouco da sua identidade para o espetáculo", diz.
A apresentação no Theatro Carlos Gomes marca a primeira experiência de Célula em um palco de teatro. Nas apresentações anteriores, os espectadores ficavam mais próximos dos intérpretes. Agora, com uma área maior para a cena, a equipe precisa pensar em outras maneiras de preservar essa proximidade.
“A gente vai ter mais espaço de cena e vai ter essa diferença do palco para os outros ambientes, que eram sempre muito próximos do público. A gente vai dar um jeito de trazer o público para perto, de se aproximar do público, porque o espetáculo precisa disso, dessa proximidade, para trazer a experiência que a gente quer trazer”, explica.
Figurino, cenário, som e luz na construção da cena
No figurino e na cenografia, a montagem reaproveita materiais que já tinham outras funções. Jeans, madeira, restos de acrílico espelhado, sacolas e papel de bala passaram por testes até chegar à cena. Parte das sacolas foi derretida e transformada em tecido, enquanto algumas peças foram ajustadas e outras feitas do zero.

Para Endi, esse foi um dos trabalhos mais complexos da montagem, porque o reaproveitamento exige coleta, transformação e muita experimentação.
“Quanto mais eu trabalho com reaproveitamento, mais eu percebo que a parada é bem trabalhosa, porque você tem que coletar o material, você tem que transformar o material, sabe? Precisa de muita experimentação para fazer dar certo, funcionar. Mas é muito gratificante também. Porque, querendo ou não, a gente tá ali ressignificando uma parada que ia pro lixo”, explica.
A trilha sonora foi criada durante os ensaios, em diálogo com a equipe, e acompanha o espetáculo nos momentos de maior tensão. A iluminação também participa desse jogo, conversando com o cenário e o figurino e reforçando a atmosfera de suspense da montagem.
A preocupação com quem está na plateia também aparece nessa construção. Como a trilha tem momentos de som mais intenso, a equipe disponibiliza protetores auriculares para pessoas com sensibilidade ao som. O recurso faz parte do cuidado pensado para ampliar o acesso ao espetáculo.
A proposta inclui momentos de tensão e desconforto. A montagem foi pensada para mexer com as expectativas de quem assiste e levar os elementos da cena a situações mais intensas.
E, para quem ficou curioso sobre de onde vem esse incômodo, há um pequeno spoiler. O momento mais intenso reúne os intérpretes, a trilha e a iluminação em uma mesma escalada.
“A gente chega ao limite ali, os intérpretes eles chegam a um extremo, a trilha sonora chega a um extremo, a iluminação chega a um extremo, tudo ao mesmo tempo, então fica um bagulho doido e a galera fica meio lelé da cuca depois”, conta.
E o fim também reserva uma escolha. Durante a criação, a equipe considerou dois caminhos para o desfecho.
“A gente tinha dois caminhos, acabar feliz ou acabar real, sacou? E a gente optou por acabar real”, diz.
Serviço - CÉLULA – espetáculo de dança contemporânea
Quando: quinta-feira (1º/10), às 19h; sexta-feira (2/10), às 18h e às 20h
Onde: Theatro Carlos Gomes, Rua Barão de Itapemirim, 232, Centro, Vitória (ES)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Duração: 35 minutos
Ingressos: Sympla
Classificação: 12 anos
Realização: ocito e Cafetinaría