Do altar à roda de samba, Salve Jorge!

Do altar à roda de samba, Salve Jorge!

No Rio de Janeiro, o dia 23 de abril amanhece diferente. Antes mesmo do sol nascer, o som dos fogos já anuncia que é tempo de celebrar São Jorge, associado a Ogum no sincretismo religioso que marca a espiritualidade carioca: uma fusão histórica entre o santo guerreiro católico e o orixá das batalhas e dos caminhos, presente na umbanda e no candomblé. Pelas ruas, as cores da devoção se misturam, com o vermelho e o branco de São Jorge e o verde e o preto de Ogum, cada um carregando sua própria fé.

Por Angélica Cabral
Fotos: Agência Brasil 

Embora não seja o padroeiro oficial da cidade, já que o título é atribuído a São Sebastião, São Jorge ocupa um lugar singular no imaginário popular: é, para muitos, o verdadeiro padroeiro afetivo do Rio. A força dessa devoção é tamanha que o 23 de abril se consolidou como feriado estadual, mobilizando milhares de pessoas em ritos que misturam espiritualidade, cultura e encontro.

Em bairros como Quintino Bocaiúva e Penha, no subúrbio, a movimentação começa ainda de madrugada, com filas de devotos que se formam para as primeiras missas e bênçãos. Na Igreja de São Jorge, uma das mais tradicionais do Rio, a programação religiosa se estende ao longo de toda a quinta-feira, reunindo fiéis entre pedidos, agradecimentos e promessas. Já na Igreja da Penha, o clima mistura devoção e celebração popular, com o entorno tomado por barracas, rodas de conversa e manifestações espontâneas de fé.

Nos terreiros espalhados pela cidade, o dia também começa cedo. Giras em homenagem a Ogum reúnem médiuns e devotos em celebrações que seguem seus próprios ritmos e rituais. Nas encruzilhadas, oferendas de espadas de São Jorge, velas e flores marcam a presença de uma fé que não precisa de templo para se manifestar.

O fascínio que o orixá desperta vai muito além do culto ao santo guerreiro, com a batucada entrando em cena como extensão natural dessa festa. Na Lapa, o tradicional Casarão do Firmino promove a sua já conhecida feijoada de São Jorge, a partir das 13h. Além dos pratos fartos e apetitosos, terá shows de Leci Brandão e Grupo Arruda.

Na Zona Oeste, a Ilha da Gigóia também entra no circuito com sua feijoada especial, combinando música ao vivo, gastronomia e o cenário à beira da lagoa. Já na Zona Norte, o entorno da Penha segue pulsando com rodas espontâneas, bares cheios e festejos que nascem da própria rua, um traço forte da cultura carioca, onde o improviso vira tradição e a tradição se reinventa a cada ano.

Bares e clubes consagrados, como Renascença, no Andaraí; Baródromo, na Tijuca; e Mackenzie, no Méier, fazem parte dessa expressão coletiva, assim como algumas escolas de samba também marcam presença. O Salgueiro, por exemplo, promove um grande evento com Jorge Aragão. As quadras da Unidos de Vila Isabel e da Unidos de Padre Miguel contam com apresentações musicais e um espírito comunitário que define o samba como patrimônio vivo. Em espaços como estes, o feriado ganha ainda mais corpo, conectando passado, presente e futuro em uma mesma batida.

Mais do que uma data no calendário, o 23 de abril revela um Rio que aprendeu a celebrar junto sem apagar as diferenças. Na mesma cidade onde fiéis fazem fila para a missa da madrugada, terreiros abrem suas portas para giras de Ogum e encruzilhadas recebem oferendas ao amanhecer. É uma devoção plural, que não se explica por uma crença só. E talvez seja exatamente isso que a torna tão carioca.