[DF] First Body Programme: o corpo sabe

[DF] First Body Programme: o corpo sabe

Criado em Brasília por Diego Borges, o First Body Programme completa dez anos de uma pesquisa que passou por 12 países e encontrou nas experiências corporais outras maneiras de pensar e fazer arte

Por Carol Boueri
Fotos: Danilo Borges e Cesar Ferreira

Eram duas horas da madrugada quando um grupo de artistas, de olhos vendados, deixou uma pousada numa ilha colombiana. Sem enxergar o caminho, os participantes seguiram até a praia, embarcaram e partiram para uma travessia noturna. O barulho do motor, o balanço do barco, o vento e a presença do mar passaram a fazer parte de uma experiência em que enxergar não era uma possibilidade. Ao fim do exercício, entraram na água e retiraram as vendas enquanto o sol nascia.

A travessia fazia parte de uma residência artística do First Body Programme, projeto criado em Brasília pelo artista, professor e pesquisador Diego Borges. A experiência aconteceu na Colômbia e permanece entre as lembranças mais marcantes de Pablo Magalhães, integrante da equipe do programa. Na ocasião, ele já havia deixado a condição de aluno para atuar como professor.

“Naquele momento, compreendi que o que podemos proporcionar como formadores vai muito além da técnica teatral que se pretende passar adiante. Somos capazes de proporcionar experiências de vida que podem marcar esses artistas para sempre”, recorda.

A proposta não era ensinar uma coreografia ou preparar uma apresentação. O exercício buscava despertar a percepção dos participantes por meio de sensações concretas, transformando o contato com o ambiente em matéria de criação. A viagem, o escuro, o medo e a expectativa diante do desconhecido faziam parte do trabalho.

Para Pablo, a experiência em si já tinha valor artístico, independentemente do que pudesse surgir depois dela. “Essa experiência, por vezes, tem muito mais valor do que um resultado estético proveniente dela. Essa experiência, para nós, já é a prática artística.”

A ideia ajuda a compreender o First Body Programme, que completa dez anos em 2026. Nascido de uma investigação sobre as possibilidades expressivas do corpo, o projeto se tornou um programa internacional de pesquisa, criação e formação nas artes da cena. Ao longo dessa década, passou por 12 países, em três continentes, reunindo artistas, pesquisadores, professores e pessoas sem formação artística.

Antes da palavra, o corpo

Tudo começou em 2016, numa oficina realizada na Universidade de Brasília (UnB). Diego Borges queria investigar o que aconteceria se os artistas deixassem de partir de formas previamente estabelecidas e passassem a observar as próprias sensações, os movimentos espontâneos e as relações com o espaço.

“O First Body Programme nasceu de uma inquietação que era, ao mesmo tempo, artística, pedagógica e pessoal: como investigar as possibilidades expressivas do corpo para além dos padrões que normalmente organizam nossa relação com ele?”, conta.

A pergunta inicial levou a outras. O que uma sensação pode produzir artisticamente? Como um movimento aparentemente banal se transforma em cena? Que conhecimentos existem no corpo e não dependem necessariamente da linguagem verbal?

“O corpo sabe. Essa é uma máxima que adotamos em nossa metodologia”, afirma Diego.

Para ele, pensar não é uma atividade restrita à razão ou à organização das ideias. O pensamento também acontece nos movimentos, na respiração, nas tensões musculares e nas relações que estabelecemos com outras pessoas.

Na prática, isso significa permitir que a criação comece por uma experiência física, sem a obrigação de encontrar imediatamente uma explicação para ela. Um gesto, uma alteração no ritmo da respiração ou o deslocamento do peso corporal podem desencadear uma cena, um personagem ou uma composição artística.
“Para nós, é importante reduzir o espaço entre o pensamento e a ação. Pensar fazendo ou processar o que aconteceu depois da ação”, explica.

O nome First Body, que pode ser traduzido como Primeiro Corpo, também carrega essa investigação. Diego associa o conceito a duas possibilidades: o corpo da primeira infância, marcado pela liberdade de experimentar movimentos sem tantos julgamentos, e o corpo primordial, relacionado à percepção sensorial e à memória ancestral.

Não se trata, segundo ele, de encontrar um corpo completamente livre da cultura ou das experiências acumuladas ao longo da vida. A intenção é suspender, ainda que temporariamente, alguns comportamentos habituais para descobrir outras formas de expressão.

“O First Body propõe investigar o que acontece quando suspendemos algumas dessas respostas habituais e nos permitimos descobrir outras possibilidades.”

Uma floresta, uma venda e o desconhecido

Entre os exercícios utilizados pelo programa está o chamado Limpar o Quadro, inspirado numa prática do coletivo português Teatro O Bando.

Os participantes têm os olhos vendados e são conduzidos por experiências sensoriais. Sem a visão, precisam prestar atenção aos sons, às texturas, à temperatura, ao vento e aos movimentos do próprio corpo.

Pablo Magalhães conheceu o exercício ainda como estudante, numa floresta de eucaliptos. Até então, estava acostumado a pensar os espaços externos apenas como lugares onde uma atividade teatral poderia acontecer. Naquela ocasião, percebeu que o ambiente também poderia participar diretamente da criação.

“O ar livre se tornou um parque de diversões sensorial, onde tudo que me acontecia ali me servia de material criativo”, lembra.

A experiência ganhou outra dimensão quando ele conheceu uma variante realizada durante a madrugada. O horário alterava a percepção do espaço e acrescentava sensações que não apareciam da mesma maneira durante o dia.

Foi essa combinação que, anos depois, levou à travessia de barco na Colômbia. Diego conseguiu uma embarcação para transportar os participantes durante o exercício noturno.

Mesmo com o acompanhamento da equipe e de um barqueiro profissional, a situação provocava reações distintas. Havia entusiasmo, medo, curiosidade e uma atenção redobrada ao que acontecia ao redor.

Para Pablo, essas emoções não eram obstáculos ao trabalho. Eram parte dele. O estado de cada participante, modificado pela experiência, poderia alimentar a criação artística.

O que os artistas podem aprender com quem nunca pisou num palco

Uma característica do First Body é reunir pessoas com experiências muito diferentes. A pesquisa não se limita a atores, bailarinos ou profissionais das artes. Crianças, adolescentes, adultos e idosos também participam das atividades, realizadas em oficinas, residências internacionais, escolas e comunidades.

Essa convivência produz encontros que, segundo Lara Santos, integrante da equipe, desafiam a ideia de que a formação técnica é sempre uma vantagem.

Pessoas que nunca estudaram teatro ou dança chegam às atividades sem algumas das preocupações que acompanham artistas experientes. Não estão necessariamente tentando executar um movimento corretamente ou reproduzir uma técnica aprendida.

“Elas sempre oferecem uma qualidade de presença, uma qualidade de espontaneidade, de simplicidade na comunicação corporal que ensina muito”, observa Lara.

Para ela, o treinamento profissional também pode criar hábitos difíceis de abandonar. O contato com participantes sem formação artística oferece outras referências e possibilidades de experimentação.

"É muito bonito enxergar uma pessoa que não é artista contribuindo dessa forma.”

Essa troca está entre os princípios do First Body Comunidade, frente do programa que desenvolve atividades em periferias, escolas públicas e espaços fora dos circuitos tradicionais de formação artística.

Diego considera que essas experiências não representam simplesmente uma oportunidade de levar conhecimento a outros públicos. Elas também modificam a própria pesquisa.

“As pessoas que participam produzem conhecimento, questionam os procedimentos e fazem surgir outras possibilidades de investigação.”

A diversidade de idades, trajetórias e condições de vida exige adaptações constantes. Por isso, Diego prefere definir o First Body como uma pesquisa em movimento, e não como um método fechado.

“Democratizar o acesso à formação artística também significa reconhecer que a produção de conhecimento não pertence exclusivamente aos espaços acadêmicos ou aos profissionais das artes”, afirma.

Doze países, muitas maneiras de existir

A circulação internacional acrescentou outras questões ao trabalho iniciado em Brasília. Em países como França, Lituânia, Polônia e Colômbia, Diego encontrou artistas com diferentes relações com o movimento, o contato físico, a exposição do corpo e a ocupação dos espaços.

Aquilo que parecia espontâneo para determinado grupo podia representar um desafio para outro. Gestos cotidianos, distâncias corporais e formas de interação revelavam diferenças culturais que precisavam ser consideradas durante as atividades.

“Não existe uma maneira universal de experimentar o corpo”, observa.

Em vez de buscar uma linguagem corporal padronizada, o programa passou a trabalhar com as particularidades de cada participante. As diferenças não precisavam ser superadas para que a criação coletiva acontecesse.

Essa perspectiva aparece no documentário Self-Portrait, que acompanha um processo de criação realizado na Itália, em 2025, com artistas de seis países.

Na experiência, cada participante trouxe referências pessoais, culturais e artísticas para construir um trabalho coletivo. O autorretrato, nesse contexto, deixou de ser apenas uma representação individual e passou a considerar também as relações estabelecidas entre os artistas.

“O desafio não é fazer com que todos pensem ou se expressem da mesma maneira. É criar condições para que essas diferenças possam coexistir e estabelecer relações”, explica Cesar Ferreira, integrante da equipe.

Para ele, essa escolha também tem uma dimensão política. A diversidade deixa de ser apenas um assunto abordado artisticamente e passa a orientar a maneira como o trabalho é construído.

Quando o processo é a obra

As experiências acumuladas durante a década também levaram Diego a questionar a importância atribuída ao resultado final de uma criação artística.

No teatro, na dança e em outras linguagens, ensaios e experimentações costumam ser compreendidos como etapas preparatórias para a apresentação pública. O First Body propõe outra perspectiva: aquilo que acontece durante o processo pode ter tanto valor quanto a obra apresentada.

“Existe uma tendência de considerar o processo como um caminho que precisamos percorrer para chegar a algum lugar: o espetáculo, a apresentação, a cena ou o produto artístico”, observa Diego.

Essa reflexão se aprofundou durante sua pesquisa de doutorado, desenvolvida na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em cotutela com a Universidade Paris 8, na França.

A partir do conceito de poiética, associado ao poeta e pensador francês Paul Valéry, Diego desenvolveu a noção de dispositivos poiéticos, procedimentos e situações capazes de mobilizar experiências de criação e aprendizagem.

A expressão pode parecer distante do cotidiano, mas encontra exemplos concretos nas atividades do programa. Uma caminhada vendada, uma travessia de barco ou o contato com pessoas desconhecidas podem provocar experiências que posteriormente se transformam em cenas, textos, desenhos e outras manifestações artísticas.

Nem sempre, porém, precisam resultar em alguma coisa. “A palavra progresso é proibida para falarmos das artes. Preferimos falar de processo, transformação”, diz Diego.

O pesquisador questiona a lógica produtivista que também atravessa o universo artístico. Uma experiência importante pode acontecer durante um ensaio e nunca chegar ao público. Isso não significa, para ele, que tenha menos valor.

“O processo é a obra.”

Dez anos de encontros

A trajetória do First Body é revisitada em 2026 por meio de atividades comemorativas que incluem espetáculos internacionais, oficinas, encontros e a exposição Corpo Primordial: quando o processo é a obra.

Fotografias, objetos, documentos e registros audiovisuais recuperam experiências realizadas ao longo da década. Mais do que apresentar uma retrospectiva, o material permite observar como a pesquisa se transformou a partir das pessoas que passaram por ela.

Para Wesley Ribeiro, integrante da equipe, a exposição também revela a permanência dos vínculos construídos durante as atividades. “O First Body é, no fundo, uma grande comunidade que conecta artistas do mundo todo.”

Muitos participantes das primeiras experiências continuam próximos ao programa. Outros se tornaram parceiros ou passaram a integrar as equipes nacional e internacional.

Ao rever os registros, Diego percebeu que algumas questões presentes nas primeiras oficinas continuam orientando o trabalho. Outras foram reformuladas ou ganharam novos significados. Ele também reconhece que gostaria de ter começado antes a documentação sistemática das atividades. Parte das experiências vividas durante os primeiros anos não foi registrada com a atenção que hoje considera necessária.

A comemoração dos dez anos, portanto, não representa a conclusão de um percurso. Ao contrário, reforça a ideia de que a pesquisa permanece aberta.

Quando perguntado sobre o que aprendeu a respeito de si mesmo durante essa década, Diego fala das viagens, das pessoas que conheceu e das certezas que precisou rever.

“Criar não significa necessariamente saber aonde queremos chegar. Muitas vezes, significa construir condições para encontrar aquilo que ainda não conhecemos.”

Na ilha colombiana, naquela madrugada, os artistas entraram no barco sem saber exatamente o que encontrariam. A viagem terminou com os pés na água e os olhos descobertos diante do amanhecer. Não havia uma cena pronta para apresentar, nem um personagem a interpretar. Havia a experiência compartilhada e tudo o que cada um levaria dela.

Dez anos depois da primeira oficina na UnB, Diego continua interessado nessa possibilidade de descoberta. “Se existe algo que esses dez anos me ensinaram, é que o corpo permanece uma possibilidade inesgotável de descoberta.”