Produtora audiovisual encontrou nos bastidores um espaço para unir comunicação, criação e coletividade e defende um cinema em que a acessibilidade também exista atrás das câmeras
Por Carol Boueri
Foto: Ana Paula (Paulet)
Cinema nunca foi um sonho de infância para Joyce Carvalho. Não houve aquela descoberta precoce diante de uma tela, nem a certeza adolescente de que passaria a vida em sets de filmagem. A escolha apareceu aos poucos, enquanto ela tentava entender onde caberiam características que sempre fizeram parte de quem é: a curiosidade pelas pessoas, a necessidade de se comunicar e a vontade de criar.
Antes do audiovisual, Joyce chegou a pensar no jornalismo. Gostava da possibilidade de ouvir opiniões, expressar ideias e circular por diferentes universos, mas queria uma liberdade criativa maior. Até que surgiu uma pergunta aparentemente simples: e se fosse cinema?
“Ele foi aparecendo conforme eu fui entendendo melhor quem eu era e percebendo que ali existia um espaço onde várias características minhas poderiam se encontrar”, conta.
Hoje, aos 29 anos, Joyce trabalha com produção audiovisual — justamente uma das áreas menos percebidas por quem está diante da tela. Enquanto fotografia, atuação, direção e roteiro chegam diretamente ao espectador, existe nos bastidores uma engrenagem responsável por fazer com que tudo aquilo seja possível.
É a produção que precisa transformar desejos criativos em realidade, conciliando orçamento, tempo, logística e os inevitáveis imprevistos de um set. Para Joyce, porém, não se trata apenas de resolver problemas.
Para viabilizar uma ideia, ela precisa compreendê-la. “Se eu não entendo o que aquele projeto está querendo fazer artisticamente, eu também não consigo entender direito o que estou tentando produzir”, explica. A criatividade do produtor, diz, está justamente em encontrar soluções possíveis sem perder de vista aquilo que o filme pretende ser.
Quando tudo dá errado — e o filme acontece
Um dos trabalhos fundamentais dessa formação foi Chão de Marte, seu Trabalho de Conclusão de Curso, no qual assumiu a direção de produção. Joyce já acumulava experiências profissionais fora da universidade, mas rejeita a ideia de que projetos acadêmicos devam ser tratados como trabalhos menores.
E Chão de Marte tratou de ensinar a lição de maneira pouco delicada. “Literalmente tudo que eu não queria que acontecesse, aconteceu”, lembra.
Problemas surgiram, decisões tiveram de ser tomadas e soluções precisaram aparecer. Foi quando veio uma sensação decisiva: “agora eu estou realmente fazendo cinema”.
A experiência ajudou a confirmar uma escolha que, segundo ela, faz um caminho quase contrário ao mais comum entre estudantes de audiovisual. Enquanto muitos chegam querendo dirigir ou escrever, Joyce se apaixonou pela produção. “Quase como uma filha rebelde, porque quem gosta de produção? Ninguém. Eu gosto”, brinca.
Um set que precisa aprender a ouvir
Há, entretanto, uma camada particular nessa relação com um trabalho movido por comunicação. Joyce tem deficiência auditiva.
Ela não nasceu assim. Foi ouvinte até os 15 anos, quando perdeu a audição subitamente. Hoje é uma pessoa oralizada, não utiliza Libras e depende bastante da leitura labial e corporal. Isso significa que, em um set — onde informações circulam rapidamente, pessoas falam simultaneamente e ruídos estão por toda parte —, ouvir alguma coisa não significa necessariamente compreendê-la corretamente.
Joyce define a experiência com humor: é um “duplo desespero”. Um vem da própria produção, função em que decisões dependem de informações precisas. O outro, da necessidade de confirmar se realmente entendeu o que lhe disseram.
“Não basta eu ouvir, eu preciso ter certeza de que ouvi direito para depois entender o que precisa ser feito a partir dali.”
As adaptações necessárias, no caso dela, são muitas vezes simples. Falar olhando em sua direção ajuda mais do que aumentar o volume da voz. Chamar sua atenção antes de começar uma conversa, repetir ou reformular uma informação quando necessário e, na pré-produção, priorizar determinadas orientações por escrito em vez de áudio já mudam sua experiência de trabalho.
O problema, para Joyce, é que a acessibilidade nos bastidores ainda costuma surgir como reação, e não como parte natural do planejamento. Ela chega ao trabalho, explica que é surda, apresenta suas necessidades e a equipe começa a aprender a partir dali.
E faz uma ressalva importante: suas necessidades não representam as de todas as pessoas com surdez. Em Concreto, por exemplo, trabalhou com outro profissional surdo que se comunicava por Libras e contou com duas pessoas fazendo a intermediação com a equipe.
Pertencer é diferente de estar
A trajetória também trouxe situações em que Joyce percebeu dúvidas sobre sua capacidade. Na universidade, depois de dirigir um filme, viu a surpresa de um professor ao descobrir que ela havia sido a diretora. Em outra ocasião, uma profissional sugeriu que estudasse para um concurso público em vez de apostar no cinema: se a área já era difícil para todos, argumentou, seria ainda mais para ela.
Joyce ‘ouviu’. E continuou fazendo cinema.
ara ela, esse percurso ajuda a mostrar a diferença entre inclusão e pertencimento. Estar incluída significa conseguir integrar uma equipe e exercer sua função. Pertencer é não precisar administrar sozinha a própria deficiência enquanto tenta trabalhar.
Às vezes, essa diferença cabe em gestos mínimos: alguém lembrar de olhar para ela enquanto fala, perguntar se compreendeu uma informação ou se oferecer para repeti-la sem demonstrar incômodo.
“Me sinto pertencendo de verdade quando não sinto que estou incomodando ou atrapalhando porque preciso que uma informação seja repetida ou comunicada de outra forma.”
É esse olhar que Joyce gostaria de encontrar com mais frequência no audiovisual brasileiro. Não apenas oportunidades de contratação para profissionais com deficiência, mas condições de permanência, crescimento e chegada a espaços criativos e de decisão.
Sem apagar a deficiência — e sem fazer dela a definição inteira de uma pessoa.
Entre dois mundos
A surdez também atravessa a maneira como Joyce recebe uma obra. Quando percebe que determinada cena depende fortemente de música ou de outro elemento sonoro, às vezes se pergunta o que está acontecendo artisticamente naquele espaço ao qual não tem acesso por inteiro.
Sua relação com o silêncio talvez seja ainda mais particular justamente porque ele não esteve ali desde o começo.
“Eu conheci o mundo ouvindo”, diz. “Precisei aprender, aos poucos, a habitar um mundo muito mais silencioso do que aquele que eu conhecia.”
Joyce ainda não sabe quanto dessa experiência aparecerá conscientemente na artista que deseja desenvolver. Prefere descobrir criando. Mas reconhece que ter conhecido um mundo com mais som e viver hoje em outro muito mais silencioso inevitavelmente atravessa sua percepção e seu trabalho. Sua linguagem artística, imagina, talvez esteja sendo construída justamente entre esses dois lugares.
E há muito que ela ainda quer experimentar. Joyce escreve desde pequena e deseja se aprofundar em roteiro. Quer dirigir profissionalmente e guarda também uma curiosidade pelo figurino — fora dos sets, costura, borda, faz crochê, cria e transforma roupas.
Nada disso significa que a produção seja apenas uma sala de espera para chegar a outra função. “Eu escolhi esse departamento e continuo me reconhecendo nele.”
Talvez porque, no fim, produzir também seja estabelecer elos. Durante um filme, pessoas que muitas vezes acabaram de se conhecer precisam formar uma pequena comunidade capaz de criar alguma coisa juntas. Para Joyce, estar na produção significa ajudar a construir e manter essas conexões.
E isso a leva de volta à característica que, muito antes do cinema e muito antes da surdez, já fazia parte dela: comunicar-se.
Por muitos anos, Joyce teve medo de dizer que tinha deficiência auditiva. Temia deixar de ser vista como Joyce para ser enxergada primeiro pela deficiência — ou não ser chamada para um trabalho por causa dela; ou, no extremo oposto, ser chamada apenas por ela. Hoje fala sobre a surdez com tranquilidade, mas sua reivindicação permanece essencialmente a mesma.
“Se eu fizer um bom trabalho, quero que gostem porque eu fiz um bom trabalho. Se eu fizer alguma coisa que não foi boa ou se tiverem uma crítica, quero que possam falar também, sem medo ou receio porque eu sou surda. Acho que isso também é igualdade.”
A surdez faz parte de Joyce Carvalho (@joycecarvalho___). Só não é a régua com a qual ela aceita que todo o resto seja medido.