[DF] De Brasília a Paris: design autoral amplia fronteiras

[DF] De Brasília a Paris: design autoral amplia fronteiras

Casa da Abelha, Danilo Vale Design e Natteca participaram da Maison&Objet e mostram diferentes caminhos da produção brasiliense 

Por Carol Boueri
Fotos: Divulgação Apex e designers

Uma lembrança das brincadeiras nos pilotis, o vazio que dá a Brasília sua paisagem particular e pedaços de madeira que antes ficavam pelo caminho em um reflorestamento. As referências são diferentes, mas ajudaram a formar o trabalho de três marcas do Distrito Federal que chegaram neste mês a uma das principais feiras internacionais do setor. 

Casa da Abelha, Danilo Vale Design e Natteca participaram da Maison&Objet 2026, realizada entre 10 e 14 de setembro, em Paris. As marcas integraram a seleção brasileira promovida pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (@apexbrasil), que levou ao evento empresas de diferentes regiões do país. 

Mariana Bueno, da Casa da Abelha (@casa.da.abelha), acompanhou tudo à distância. Desde que engravidou pela primeira vez, em 2023, reduziu as viagens profissionais. Para estar representada em Paris, contratou fotógrafo e uma pessoa para acompanhar a feira — embora faça questão de destacar o suporte oferecido pela ApexBrasil. 

O que chegou à França foi também um pouco da maneira como Mariana enxerga Brasília. Arquiteta formada na capital, ela diz que viver na cidade ensinou a perceber e trabalhar o vazio. 

“Não importa onde eu vá, voltar para Brasília sempre é um alívio visual. Ter me formado arquiteta aqui me fez trabalhar muito bem o vazio, que está presente nas minhas peças”, conta. 

Na Maison&Objet, a Casa da Abelha apresentou a coleção Acaso Composto. As peças podem ser organizadas de diferentes maneiras, permitindo que o próprio usuário escolha a composição. Outro aspecto que despertou atenção foi o emprego de madeira de reuso. 

A presença internacional da marca, segundo Mariana, acabou tomando uma proporção que ela não havia planejado. Os primeiros sinais vieram com uma premiação na Eslovênia e continuaram com outros reconhecimentos. Depois da Maison&Objet, ela conta que surgiram novos convites e oportunidades, que pretende avaliar sem pressa. 

“Eu sempre olhei para minha produção como algo feito por nós e para nós, sempre priorizando mãos e não máquinas. Sou apaixonada por artesanato”, afirma. 

Infância vira desenho 

Para Danilo Vale (@danilovale), Brasília aparece em uma memória bem específica. Nascido na capital, ele viveu em diferentes regiões do Distrito Federal, mas foi uma mudança de Taguatinga para a Asa Norte, ainda na infância, que anos depois ajudou a dar origem à Mesa Superquadra. 

“Quando morava em Taguatinga, eu podia brincar em frente de casa e minha mãe dizia que eu podia ir apenas até a ‘rua de cima’. Quando nos mudamos para uma superquadra, a realidade mudou completamente: o limite passou a ser toda a quadra.” 

Os pilotis viraram espaço para as brincadeiras e a mudança na relação com a cidade ficou guardada. Danilo transformaria essa lembrança em móvel anos depois. 

Na Maison&Objet, seu estúdio foi representado pelo espelho Pelle. Danilo não viajou a Paris nesta edição, mas acompanhou a repercussão da peça. Segundo ele, a moldura despertava a curiosidade do público, que a tocava para tentar descobrir de que era feita e como havia sido construída. 

O designer já vende para consumidores de outros países, ainda em pequena escala, e busca agora estabelecer parcerias com lojas e revendedores no exterior. Para ele, estar fora do eixo Sul-Sudeste torna mais cara a participação nos principais eventos e circuitos comerciais do setor. 

Nesse cenário, cita a importância de iniciativas realizadas no próprio DF, como a Associação dos Designers de Produto do Distrito Federal (ADEPRO), a Brasília Design Week e a DW! Tour no CasaPark. 

Da floresta para Brasília 

A história da Natteca (@natteca.store) começou longe da capital. Daniela Queiroz trabalhava com o pai na exportação de teca de um reflorestamento familiar de 650 hectares, no sul do Pará, quando passou a observar pedaços de madeira de qualidade que sobravam durante o manejo. 

“Eu falava: ‘Gente, a gente precisa agregar valor nisso. Como vamos fazer?’”, recorda. 

Depois de dois anos tentando terceirizar a fabricação das peças, Daniela decidiu assumir a produção. Instalou uma pequena indústria em Brasília e passou a comprar do pai a madeira que não seria destinada à exportação. Parte dela dá origem a peças únicas, que são numeradas justamente porque o formato original da madeira impede a reprodução exata.

    

A preocupação com o aproveitamento chega às sobras da fábrica. Maravalha é destinada a produtores rurais, enquanto serragem já foi doada para utilização em derramamentos de óleo e até para produtores que a empregam na defumação de queijos. “Nada aqui é desperdiçado”, resume Daniela.     

Ao contrário de Mariana, que não planejava alcançar o mercado estrangeiro, Daniela pensou a Natteca desde o início também para exportação. Site, redes sociais e catálogo foram preparados em dois idiomas, enquanto materiais e acabamentos foram escolhidos levando em conta exigências internacionais. 

Foi em Brasília também que Daniela conheceu a designer de moda Tatiana Rodrigues. A primeira parceria colocou madeira em um vestido apresentado durante a Brasília Design Week. Quando a Natteca foi selecionada para a Maison&Objet, as duas decidiram avançar na experiência. 

Nasceu assim a coleção CO.EXISTÊNCIA, que combina teca e tramas têxteis em objetos que podem mudar de uso. Elo pode sair da parede e ser usado como colar; Ninho reúne um coração de madeira removível a uma trama que também vira bracelete.   

Os caminhos percorridos por Mariana, Danilo e Daniela são diferentes, assim como a maneira como Brasília entra em seus trabalhos. Em setembro, porém, eles se encontraram no mesmo endereço: o espaço brasileiro da Maison&Objet, em Paris, com apoio da ApexBrasil. Uma vitrine internacional para peças que começaram a ser desenhadas, produzidas — ou imaginadas — no Distrito Federal.