[DF] 50 artistas LGBTQIAP+ que marcam a cultura candanga

[DF] 50 artistas LGBTQIAP+ que marcam a cultura candanga

Por Carol Boueri
Fotos: Lê Reis (1), Bruna Araújo (2) 

Brasília é uma cidade jovem, que ainda não completou seu primeiro centenário, mas cuja identidade cultural ferve graças a braços e mentes diversos. É com o objetivo de registrar, celebrar e, acima de tudo, homenagear em vida quem constrói essa história que a exposição "Retratos, Cultura Candanga LGBTQIAP+" ocupa a Casa da Cultura da América Latina (CAL), no Setor Comercial Sul, até o dia 25 de junho.

O projeto, realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do DF, nasceu de um incômodo profundo da coordenadora-geral, Ava Scherdien, artista trans não binária. Após a pandemia, ao ver uma sequência de perdas na comunidade artística, Ava percebeu um padrão institucional incômodo: a mania de homenagear os grandes nomes apenas após a morte, batizando ruas ou teatros.

"Eu acho muito bonito homenagear as pessoas, mas eu prefiro homenagear em vida. A comunidade artística acolhe muito os corpos dissidentes. Por que não reconhecer essas pessoas que já estão aí fazendo arte há um tempo, enfrentando tantas dificuldades? Quanto mais dissidência você tem, mais difícil é."


O que inicialmente seria apenas uma revista catálogo expandiu-se. Por provocação de Letícia Helena, parceira de trabalho de Ava na produção e na coordenação do Bloco do Amor, o projeto ganhou as paredes de uma galeria. "A Letícia falou: 'Amiga, por que a gente não faz uma exposição? Esses rostos têm que ser vistos'. A exposição traz esse lugar de celebração, de deixar tudo mais concreto", conta a coordenadora.

A curadoria começou do absoluto zero e mapeou cerca de 200 nomes da cena cultural do Distrito Federal. Diante da limitação física, a equipe precisou selecionar 50 personalidades para esta primeira etapa — o objetivo final é realizar quatro edições do projeto, alcançando 200 homenageados.

O processo de seleção revelou a natureza multifacetada do artista brasiliense contemporâneo. "O desafio é que percebemos que não temos mais aquele artista que se especializou em uma coisa só. Nós temos multiartistas. Foi difícil encaixar a maioria em uma função só da arte", explica Ava.

A mostra se divide entre seis categorias: Artes Visuais, Artes Cênicas, Música, Dança, Produção Cultural e Técnica. Para garantir a máxima representatividade, a produção estabeleceu métricas sociais rígidas: cada categoria deveria incluir, pelo menos, uma pessoa trans, uma pessoa negra e uma pessoa com deficiência (visível ou não). O resultado é um painel plural que une pioneiros da velha guarda a jovens que estão começando a trilhar seus caminhos.

A graxa, o som e a luz: o topo para os bastidores

Um dos grandes méritos de "Retratos" é deslocar o olhar do público do centro do palco para as coxias. A exposição faz questão de colocar iluminadores, sonoplastas, técnicos e produtores no mesmo patamar de destaque dos atores e cantores.

Para Ava, que também atua na produção, o fazer artístico é indissociável da coletividade. "A gente vai a um show ou espetáculo, vê que deu tudo certo e esquece de agradecer quem está na luz, no som, no figurino, quem bota a mão na massa, 'a graxa', como a galera fala", pontua. 

"Eu moro com uma pessoa da técnica de som e vejo a luta. É o primeiro a chegar e o último a sair. Se você for fazer um show sem essas pessoas, você não consegue. Quisemos enfatizar esse lugar e dar a eles o seu momento de glória, de homenagem e de reivindicação", frisa.

Duas gerações, a mesma potência artística

A exposição também se divide em dois tributos de forte carga emocional. De um lado, a homenagem em vida ao veterano Similião Aurélio, carinhosamente chamado por Ava de "vovó". 

"O Similião está na cultura do DF há muitos anos. Já deu aula para muita gente, bota fé e ajuda todo mundo que está começando. Ele é uma grande ponte entre as gerações e os processos, da cultura tradicional à TV", elogia.

Do outro lado, o espaço de memória dedicado a Josias Silva, jovem artista da Casa dos Quatro que faleceu recentemente devido a complicações da dengue. "Josias tinha a minha idade. Uma bicha periférica, que fazia direção, iluminação, sempre com uma energia muito para cima e tomado por um rompante que a gente não esperava.”

Segundo Ava, os artistas “são duas oposições muito parecidas: pessoas que tinham a arte como meta de vida. Eles viviam a arte e a arte vivia neles."

Identidade candanga e acessibilidade total

Investigar a história da cultura de Brasília é, inevitavelmente, esbarrar na comunidade LGBTQIAP+. De nomes históricos do teatro e da música como Hugo Rodas, Saulo Ribeiro e Renato Russo, a presença desses corpos sempre esteve na vanguarda das revoluções estéticas da capital. "Se você investigar, sempre vai ter uma pessoa da comunidade na técnica, no palco ou na produção. A comunidade está aí existindo, resistindo e fazendo a identidade da cidade", afirma Ava.

Para que essa história chegue a todos, o projeto foi desenhado sob a premissa da acessibilidade universal. Cada artista possui um QR Code no catálogo e na exposição que direciona para um site com audiodescrição, entrevista em áudio na íntegra e links para as redes sociais. Além disso, o projeto contará com uma versão impressa em braille, que será destinada a escolas de pessoas com deficiência visual e museus locais.

Com planos de desdobrar o projeto para uma segunda edição e levar a exposição itinerante para outras cidades, Ava resume o sentimento de ver esse painel de rostos ocupando o Setor Comercial Sul:

"A pluralidade é o que faz a comunidade artística e a arte serem tão incríveis. Nós temos histórias de tudo que é tipo: gente preta, periférica, do centro, branca, travesti, com deficiência, gente que mora fora... É tanta narrativa linda que não tem dimensão. Reconhecer essa pluralidade é ver o que faz a arte e a cultura do DF serem o que são."

Serviço
Exposição: Retratos, Cultura Candanga LGBTQIAP+
  • Visitação: Até 25 de junho
  • Horário: Das 8h às 18h
  • Local: Casa da Cultura da América Latina - CAL (Setor Comercial Sul, Quadra 4, Edifício Anápolis)
  • Entrada: Gratuita
  • Classificação indicativa: Livre