O 4º Festival de Cultura Inclusiva de Brasília abre inscrições para oficinas gratuitas de teatro, cenografia e monitoria cultural no Espaço Cultural Renato Russo. Voltado para pessoas com e sem deficiência, o projeto aposta na convivência e na criação coletiva como ferramentas de inclusão, formação artística e transformação social
Por Carol Boueri
Foto: Cristiano Sérgio
Em 2013, o cenário cultural de Brasília assistia a um marco pioneiro: nascia o Festival de Cultura Inclusiva. Na época, a presença de pessoas com deficiência (PCDs) em teatros e galerias, no palco ou na plateia, era uma raridade ditada pela falta de acessibilidade estrutural. As pessoas simplesmente não frequentavam os espaços por falta de condições. Mais de uma década depois, o evento chega à sua quarta edição provando que, embora muitas conquistas tenham sido garantidas por lei, a mobilização ainda exige fôlego.
"O maior aprendizado desses treze anos é que a luta continua. Ainda temos muita dificuldade de mobilizar o público e fazer com que a pessoa com deficiência chegue aos espetáculos", resume Lurdinha Piantino, idealizadora e coordenadora do festival.
Unindo as forças do Instituto Entre Nós e da Associação Mães em Movimento (Amem/D) - esta última fundada por Lurdinha em 2004 e presidida por ela -, o festival retorna em 2026 ao seu berço afetivo: o Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul). A parceria com Tatiana Corrêa Leite, presidente do Instituto Entre Nós, vem desde a segunda edição e fortalece o princípio de cuidar para que todos ocupem seus espaços de direito.
"O Renato Russo é um espaço maravilhoso e que já possui acessibilidade. Assim, não gastamos o recurso com adaptação física e podemos investir integralmente no que mais importa: as pessoas", destaca Lurdinha.
Criação coletiva e o resgate da memória
A quarta edição resgata o formato que consagrou o festival em sua estreia (e que, inclusive, foi tema de reportagem nas páginas da revista Traços na época): a criação de um espetáculo teatral construído do zero. Na primeira edição, dos 15 atores no palco, 10 tinham algum tipo de deficiência. "Tínhamos uma variedade fantástica: surdos, cegos, cadeirantes, autistas, pessoas com síndrome de Down e deficiência múltipla ou intelectual. E o resultado foi maravilhoso", relembra a coordenadora.
Para 2026, a sinergia será total, integrando os núcleos de Teatro, Cenografia e Figurino de forma paralela. A dramaturgia nascerá das vivências cotidianas, dos questionamentos, das críticas e do humor dos próprios participantes. "Não dá para pensar no figurino antes de conhecer o actor que vai dar vida ao personagem. É um processo paralelo e coletivo", explica.
Além do teatro, Lurdinha traz na bagagem memórias emocionantes de outras artes do festival, como as oficinas de pintura que ela mesma ministrou em 2013. "Tivemos cerca de oito alunos cegos pintando quadros que foram para exposição na Galeria Parangolé e na praça central do Renato Russo, e depois para o CCBB. Também tivemos um jovem autista que nunca tinha pintado na vida e produziu tanto, e de forma tão maravilhosa, que ganhou uma exposição individual no Renato Russo. Isso muda a forma como a pessoa se vê e como a sociedade a enxerga."
A essência da monitoria cultural
O festival, que se orgulha de ter inserido artistas e produtores PCDs no mercado do DF, também lança luz à raiz do preconceito: a falta de convivência. Para isso, propõe a capacitação de monitores culturais no mesmo espaço das oficinas artísticas, colocando candidatos a monitores e alunos com deficiência para criar juntos.
"Você só aprende a conviver com as pessoas com deficiência convivendo com elas. O monitor precisa aprender a se relacionar com a pessoa, e não com a deficiência dela. Na convivência e na criação do dia a dia, as pessoas se conversam e se entendem mesmo sem falar a mesma língua, como acontece com os surdos antes da intermediação do intérprete de Libras. É uma troca rica onde as diferentes vivências - do cego, do surdo, do cadeirante - se ensinam mutuamente", pontua Lurdinha.
Serviço
4º Festival de cultura inclusiva de Brasília
De 3 de junho a 5 de julho de 2026,
no Espaço Cultural Renato Russo (Comercial da 508 Sul)
Vagas disponíveis: 120 vagas gratuitas no total
Oficinas com inscrições abertas:
• Teatro inclusivo (prática teatral e montagem do espetáculo)
• Cenografia e figurino (criação visual e cenográfica do show)
• Capacitação de monitores culturais (focada em acessibilidade atitudinal)
Quem pode se inscrever? Pessoas com e sem deficiência, a partir de 14 anos
Como se inscrever? Por meio do formulário online disponível no Instagram oficial do festival: @festivalculturainclusivadf
Prazo de inscrição: até o preenchimento total das vagas