Brasília respira design: entrevista com Caetana Franarin, diretora geral da BDW

Brasília respira design: entrevista com Caetana Franarin, diretora geral da BDW

Um passeio pela Brasília Design Week e pelas inspirações que nascem na capital federal

Por Marianna França

Fotos: Cristiano Costa
 

Quem mora em Brasília sabe: é na seca intensa do cerrado que a capital fica mais bonita. Os tons alaranjados do pôr do sol sobrepõem a estrutura planejada por Lúcio Costa e os prédios desenhados por Oscar Niemeyer sublinhando o design tão único da cidade. É quando os ipês florescem em seu maior esplendor, decorando a paisagem com as suas flores rosas, amarelas, brancas e roxas. 

É nesse cenário tão brasiliense e inspirador que a segunda edição da Brasília Design Week (BDW) acontece. Caetana Franarin, diretora geral do evento, bateu um papo com a Traços e contou para gente a importância do projeto e a movimentação que ele gera na economia criativa da cidade.

Vamos conferir?

Caetana, para quem não conhece, qual é o objetivo da BDW?

Fomentar a cidade para que ela abrace essa semana e todos os designers, arquitetos e comerciantes que têm alguma ligação com o design. Para que eles façam os seus lançamentos, promovam eventos dentro da semana, porque daí você ganha cada vez mais conteúdo e com isso você passa a atrair turistas. Você cria um movimento grande. 

 

E é isso que vocês querem fazer? Fazer essa economia circular por aqui? Tornar Brasília um ponto?

Isso! A gente até já viu um pouco desse movimento porque alguns designers de Goiânia vieram especificamente para a BDW e aí conversando com eles, eles falaram: “Vocês precisam divulgar primeiro no entorno”. Achei interessante, porque se a gente chega primeiro na borda fica mais fácil, depois esse movimento vai ampliando. Ano que vem o desafio é esse, divulgar também em Goiânia, em cidades próximas, fazer esse recorte e atrair mais público, porque daí a gente gira a economia. As pessoas usam hotel, usam restaurantes e começa um fluxo também de mexer com a economia da cidade. Além de divulgar o design de Brasília, a gente também gera divisas com o turismo.

 

E você pode falar da economia circular? É algo muito presente na BDW.

Esse ano a gente buscou trabalhar o evento todo dentro dos preceitos da certificação do Lixo Zero. Então a gente contratou consultores do Lixo Zero para conseguir ter essa chancela de fazer um evento sustentável. Além disso, a gente trabalhou dentro do nosso conceito mesmo, tanto é que trouxemos a Marina Otte, por exemplo. Ela é uma arquiteta que trabalha com  os preceitos da sustentabilidade. Ela só usa madeira reflorestada, certificada. Então a gente também procurou trazer para dentro da nossa amostra designers que trabalham dentro dessas premissas da sustentabilidade.



Um exemplo são as exposições da BDW, né? Com a curadoria do Dimitri Lociks e da Nina Coimbra. O conceito das peças tem toda uma história por trás. 

Sim, por exemplo, a Rafaela Gravia que é uma designer aqui de Brasília, ela faz uma espécie de uma argamassa de restos de pneus. Então, assim, eu acho que esse é o futuro. No talk que a gente teve com o Marcelo Rosenbaum eu falei isso, a gente não pode trabalhar o design pelo design. Por isso também que estamos trabalhando a questão das nossas raízes. A gente fez questão de trazer a exposição do Marcelo Rosenbaum porque ela está conectada com a história das mulheres jalapoeiras, do Jalapão, quilombolas e que tão na luta para manter o capim dourado em pé. Que já tem diminuído muito, porque não tem como fazer plantio de capim dourado, ele é nativo. Já tentaram fazer o plantio, mas não dá porque ele precisa de um solo encharcado com ph X. E aí a gente trouxe essas mulheres e tivemos a oportunidade também. Isso é uma coisa que eu acho muito interessante, como a gente está no centro do poder, a gente tem acesso a pessoas que outras cidades e outros estados não têm. Por exemplo, a gente aproveitou a vinda dessas lideranças, dessas mulheres quilombolas e as levamos para uma reunião com o presidente do IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional].

 

Fizeram elas serem ouvidas. 

Exatamente. Eu acho que a centralidade dessa cidade que tem o governo federal aqui, que tem a Esplanada, também coloca a DW de Brasília no lugar de voz, que outras DW 's não conseguem alcançar. E isso ficou nítido, porque quando a gente contratou o Marcelo Rosenbaum ele falou para mim assim: “Caetana, eu só quero uma coisa, eu só preciso chegar com essas mulheres no IPHAN, porque elas estão querendo tombar os quilombos”. Então, foi ótima a reunião. O Leandro Grass [Presidente do IPHAN] já juntou a equipe técnica ali com a gente e eles vão abrir o processo.

 

Isso é tão importante, já que estão acontecendo tantos desmatamentos. 

Essas quatro comunidades são diretamente afetadas pelo agro da região. O campo que elas colhiam, quando elas eram crianças e adolescentes, eram campos encharcados, hoje todo mundo associa o capim dourado a areia, mas não tem nada a ver, não era assim. Porque o capim dourado nasce no brejo, na área alagada, só que não tem mais porque acabou a água, entendeu? Então muito do capim dourado já se foi e os resistentes conseguiram se adaptar a essa mudança climática, mas não sabe-se até quando.

 

 

 

Agora falando das frentes da DW, a gente tem a questão da economia circular, da sustentabilidade, de sair do eixo Rio-São Paulo e tornar Brasília um polo. 

Acho que é necessário trazer também discussões qualificadas para o design daqui. Por isso que a gente trouxe esses grandes designers, para a gente conseguir fazer essa troca. Tem sido muito rico e eu acho que Brasília precisa mesmo aproveitar esse lugar de destaque que ela tem, porque nós somos a capital de todos os brasileiros, né? Aqui é o berço de todas as pessoas, porque aqui é a capital do Brasil.

Tem uma outra coisa que eu acho que é uma conexão que só a gente pode proporcionar. Pela primeira vez a gente fez um circuito de embaixadas, o sucesso é absoluto. A gente se uniu, convidou as embaixadas a desenvolverem um conteúdo durante a semana do design. Então, por exemplo, a embaixada de Portugal fez uma exposição de Design português, montou uma exposição.

A embaixada da República Tcheca pegou o próprio acervo, porque ela tinha mais de 50 peças de design tcheco, e montou uma exposição. Aí a embaixada da Argentina tá fazendo visitação guiada, então eles falam um pouco da história da Argentina, porque a embaixada é inspirada nas casas argentinas, os quartos são todos virados para o campo, eles tem uma área verde porque um grande arquiteto argentino fez. Assim, foi realmente surpreendente. 

A gente também fez uma parceria com o SEBRAE-DF e o SEBRAE mobilizou influenciadores para fazer os circuitos, então a gente tem um circuito de embaixadas e o circuito de lojas e ateliês, tem os talks, tem as oficinas e tem essas agendas todas paralelas, que os próprios lojistas, comerciantes tão promovendo. Por exemplo, hoje a Acervo Mobília tá promovendo um talk dentro da loja e tá dentro da nossa programação.

 

Qual é o diferencial do Design de Brasília. Porque torna aqui tão especial?

Eu acho que é porque Brasília já é inspiração, né? O que tem de diferente nessa cidade? Essa cidade nasceu do design e ela renasce diariamente do design, independente de você ser designer ou não.


Saiba mais: @bsbdesignweek


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