Mariana Chaves tem 29 anos, dança desde os primeiros anos da adolescência. No Projeto Carioca Sobre Rodas, no Rio de Janeiro, ela transformou a cadeira de rodas em extensão do próprio corpo e a dança em uma gramática nova, que expande padrões e conceitos. Para ela, quando a cadeira entra na coreografia, a dança deixa de ser a dois e passa a ser a três.
Por: Angelica Cabral
No palco, a dança começa antes do primeiro movimento. Começa no olhar atento da plateia, no silêncio que antecede a música e na expectativa do corpo que se prepara para contar uma história. Quando Mariana Chaves entra em cena, essa história ganha um elemento a mais: a cadeira de rodas, que deixa de ser apenas objeto e se transforma em extensão do gesto, do ritmo e da presença.
Entre o balé da infância e o palco do Carioca Sobre Rodas
Aos 29 anos, Mariana constrói sua trajetória artística dentro do Projeto Carioca Sobre Rodas, iniciativa que, há anos, amplia as fronteiras da dança ao reunir pessoas com diferentes corpos, idades e histórias. "Sempre gostei de dançar. Fazia balé quando criança e entrei no projeto em 2014", conta. Desde então, a dança deixou de ser apenas uma atividade e passou a ocupar um lugar central na sua vida, tanto no palco quanto nas entrevistas, participações em programas de TV e apresentações que vêm marcando sua trajetória.

Mariana nasceu com mielomeningocele, uma condição congênita que afeta a sensibilidade e os movimentos da cintura para baixo. Mas, no universo da dança, o que poderia ser visto como limitação se transforma em linguagem.
Quando a cadeira de rodas entra na dança, o movimento se multiplica
No palco, o movimento ganha novas possibilidades quando a cadeira de rodas entra na coreografia. Segundo ela, "pessoas andantes dançam a dois. Quando entra mais um elemento, que no caso é a cadeira, a dança passa a ser a três. A cadeira faz parte do nosso corpo".
É justamente essa relação entre corpo, objeto e narrativa que define a estética do grupo. No processo de criação, a história vem antes do passo. A narrativa da cena surge primeiro, guiando os movimentos que irão dar forma à coreografia. O resultado é uma dança que não busca imitar padrões tradicionais, mas expandir o que se entende por movimento.

Criado com o objetivo de promover inclusão, o Projeto Carioca Sobre Rodas, no Rio de Janeiro, reúne pessoas com diferentes perfis: pessoas com deficiência, pessoas obesas, idosos e qualquer interessado em dançar. A proposta é simples e potente ao mesmo tempo: eliminar rótulos e abrir espaço para que todos possam experimentar o palco. "É um projeto de inclusão para qualquer tipo de pessoa, sem distinção", resume Mariana.
Acessibilidade nos espaços culturais: o desafio que ainda persiste
Ainda assim, o caminho para artistas com deficiência no mercado cultural está longe de ser livre de obstáculos. "A acessibilidade muitas vezes não é adequada em espaços culturais e urbanos, e isso continua sendo um dos principais desafios". Mesmo assim, ela reconhece as transformações que a dança trouxe para sua própria vida. Com o passar dos anos, tornou-se mais confiante, mais comunicativa e menos tímida.
As políticas públicas de inclusão, na sua visão, avançaram, mas ainda estão distantes do ideal. Para que a inclusão seja real, é preciso que pessoas com deficiência sejam vistas como parte natural da sociedade, não como exceção. "Precisamos estar inseridos como qualquer outra pessoa. As pessoas deveriam se colocar mais no lugar do outro", afirma.

No palco, a bailarina Mariana Chaves traduz essa ideia em movimento. Cada coreografia é um convite para olhar o corpo de outra maneira, não a partir das limitações, mas das possibilidades. E, quando a música termina, fica a sensação de que a dança, ali, não serve apenas para entreter. Serve para ampliar horizontes.