[RJ] Literatura para se reconhecer e transformar realidades

[RJ] Literatura para se reconhecer e transformar realidades

Por Angélica Cabral
Foto: Aline Reis 

Uma história pode começar em um gibi, ganhar forma na imaginação e, anos depois, se transformar em instrumento de mudança. É nesse encontro entre criatividade, memória e identidade que se constrói a trajetória de Estevão Ribeiro. Escritor, quadrinista, ilustrador e roteirista audiovisual, o capixaba, radicado em Niterói desde 2008, encontrou nas narrativas um caminho para falar de pertencimento e ampliar a presença negra na literatura.

A relação com as histórias começou na infância, em uma família que cultivava o hábito da leitura de quadrinhos. O acesso limitado a livros, televisão e cinema, porém, também contribuiu para desenvolver sua imaginação. O primeiro filme que viu em uma sala de cinema foi aos 15 anos. Antes disso, conhecia enredos por fragmentos e relatos de amigos, reconstruindo mentalmente aquilo que não conseguia acompanhar na tela.

"Isso me forçou a imaginar as histórias contadas e desenvolveu em mim a vontade de criar minhas próprias histórias”. A experiência ajudou a formar um autor que transita por diferentes linguagens, combinando referências visuais, oralidade e escrita. Um conselho de Marcelino Freire, seu antigo professor e hoje amigo, também permaneceu como norte: não perder a capacidade de “escrever com as palavras”.

Essa busca por uma voz própria ganhou outra dimensão quando Estevão passou a refletir sobre identidade racial e paternidade. No início da carreira como quadrinista, seus personagens eram inspirados principalmente em super-heróis norte-americanos e figuras japonesas, em sua maioria brancas. O amadurecimento pessoal o levou a questionar as referências que consumia e as imagens que ajudava a colocar em circulação.

“Foi preciso me entender como um agente de mudança a partir de um amadurecimento como homem negro e como pai”. Pai de duas meninas autistas, ele ampliou o olhar sobre representatividade, incorporando também questões de gênero e deficiência às histórias que cria.

Uma de suas personagens mais conhecidas, Rê Tinta, é uma menina negra cuja trajetória aborda temas como cabelo, identidade e autoestima. Para o autor, esse tipo de narrativa ultrapassa o entretenimento. Ele relata ter encontrado crianças que passaram a reagir a situações de racismo depois de ler suas tirinhas. “Nossa literatura entretém, educa e transforma”.

A preocupação com o acesso à leitura também orienta sua visão sobre o mercado editorial. Em um país onde os livros ainda podem ser tratados como artigos de luxo, Estevão defende que a literatura seja reconhecida como necessidade básica. Em entrevista à Revista Traços, ele fez uma declaração que continua ecoando: “Botar literatura e cultura na cuca é tão importante quanto botar comida na mesa”.

É nesse cenário que ele participa da 11ª Festa Literária Internacional de Maricá (FLIM), marcada para 30 de outubro a 8 de novembro, na Orla do Parque Nanci, com entrada gratuita. Ao lado da escritora e jornalista Eliana Alves Cruz, Estevão Ribeiro assina a curadoria do Língua ao Mar:  A arte que fala português, espaço dedicado ao encontro entre escritores, artistas e pensadores do Brasil e de países africanos de língua portuguesa.

Para ele, iniciativas como essa ampliam a circulação de vozes que historicamente tiveram menos espaço. “Eventos como a FLIM são amplificadores de nosso afeto”, e a mensagem que fica é que o encontro entre autores e leitores reafirma o sentido de criar: descobrir quem se reconhece naquelas páginas e permitir que experiências antes pouco representadas encontrem novos públicos.

Para saber mais sobre o artista, escritor, quadrinista e roteirista audiovisual, siga o perfil @oestevaoribeiro no Instagram. Ah, e tem também a pagina @flimrj... Vamos lá??