[RJ] A arte de viver por inteiro

[RJ] A arte de viver por inteiro


Há um roteiro invisível que a sociedade insiste em escrever para pessoas com deficiência: o que podem fazer, como devem se comportar, até onde podem ir. Andréa Neves decidiu não decorá-lo

Por: Angélica Cabral
Foto divulgação

Atriz, dramaturga, produtora, apresentadora, taróloga e ativista, ela construiu uma carreira ocupando palcos, telas e espaços de criação enquanto questiona justamente os limites impostos a esses corpos. Para ela, amar, dançar, sentir-se bonita, trabalhar, desejar e fazer escolhas também pode ser um gesto de ruptura. “Diante de tantos estigmas, viver é um ato revolucionário”.

E os primeiros passos dentro da arte já começaram cedo, mais precisamente, aos oito anos, quando encontrou no balé o caminho para o palco e, mais tarde, trocou as sapatilhas pelas Artes Cênicas. Carioca, passou parte da infância e adolescência em Brasília, onde se formou pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e começou a carreira.

Na capital federal, fundou o Grupo Teatral Má Companhia com outros jovens artistas. A experiência misturava Shakespeare, frases de para-choque de caminhão e trilhas “bregas”, numa combinação que traduzia o desejo de experimentar e contar histórias próprias. De volta ao Rio, ampliou sua atuação para o teatro, o cinema e a TV.

Um dos capítulos mais marcantes veio com "Conselho Tutelar". Andréa, ou Deinha Neves, como é conhecida, tornou-se a primeira atriz com nanismo a protagonizar uma série brasileira, interpretando uma psicóloga forte e doce, que vivia inserida em histórias delicadas envolvendo crianças e adolescentes. O nanismo existia, mas não era o ponto focal para aquela mulher. “Busquei naturalizar a vivência de uma personagem com múltiplas camadas, mas que a deficiência não viesse na frente”.

É justamente essa perspectiva que ganha outra dimensão no filme "90 Decibéis", que estreia em setembro, na TV Globo: a oportunidade de olhar para “o diferente” com profundidade, respeito e complexidade. O roteiro de Julia Spadaccini, dirigido por Felipe Barbosa, aborda subjetividades que, muitas vezes, desaparecem quando personagens PCD são reduzidos a diagnósticos, limitações ou histórias de superação.

A discussão se amplia quando o assunto é mulher. Ao lado da atriz Rosanne Mulholland, Deinha criou "A Grande Beleza", projeto que parte das diferenças entre as duas para conversar sobre as muitas experiências possíveis do feminino. Embora amigas e mulheres de pele clara, elas vivem circunstâncias distintas: Andréa é uma mulher com deficiência; Rosanne, não. Uma é mãe; a outra, não. A partir desses contrastes, vieram outras vozes: mulheres negras, maduras, periféricas e ocupantes de cargos de poder.

A proposta parte de uma convicção: “Mulher não é uma narrativa universal". Não existe uma única experiência feminina, e ignorar essas diferenças significa deixar muita gente à margem da conversa.

Fora dos palcos, Deinha também rejeita os limites impostos pelo imaginário social. Durante a pandemia, aprofundou-se no tarô, que já fazia parte de sua relação com amigos e familiares. Agora, enquanto se prepara para novos trabalhos no audiovisual, estuda antropologia e se aprofunda nos estudos da deficiência. Também planeja uma segunda temporada de “A Grande Beleza”. Entre tantos projetos, permanecem desejos pessoais: viajar, estar com amigos, apaixonar-se e adotar uma cachorrinha. Porque sua luta passa por uma reivindicação simples e poderosa: o direito de viver uma vida inteira, com todas as suas possibilidades.

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