[RJ] Muito além da tela: o trabalho do Circuito Cine Curta

[RJ] Muito além da tela: o trabalho do Circuito Cine Curta

Ricardo Kaettano, ator, participante do projeto/crédito: Wagner Uchoa 

Entre sessões de cinema e oficinas práticas, o Circuito Cine Curta amplia o acesso ao audiovisual e transforma a cultura em ferramenta de formação

Por Angélica Cabral

Entre o barulho constante da Linha Amarela, a correria das vans e a rotina das escolas públicas do entorno, um desejo começou a surgir com frequência: acesso ao cinema. Foi durante as exibições do projeto Curta na Praça, ainda em 2008, que nasceu o Circuito Cine Curta, idealizado pela atriz Juliana Teixeira, que, ao perceber as barreiras que existiam entre o cinema e os alunos da rede pública, decidiu transformar a exibição em formação.

Ao longo do caminho, no entanto, o projeto também redesenhou a própria trajetória da idealizadora. Atriz de origem, Juliana encontrou na produção cultural uma vocação inesperada. A criação e o desenvolvimento de projetos ganharam espaço em sua vida até se tornarem o foco principal... E foi justamente essa virada que a levou a investir, sobretudo, em iniciativas de capacitação, onde enxerga um impacto mais direto e duradouro. Assim, o programa aposta hoje no audiovisual como ferramenta de formação e possibilidade de futuro para jovens e adultos de áreas carentes de cultura do Rio.

Juliana Teixeira

Realizado no Centro Paroquial Dom Helder Câmara, no Leblon, o projeto reúne alunos a partir dos 16 anos em uma imersão que percorre todas as etapas da produção cinematográfica. Em pouco mais de dois meses e cerca de 60 horas de atividades, eles passam por roteiro, direção, fotografia, captação de som e edição, até chegar à realização de um curta-metragem coletivo. E o objetivo vai muito além de ensinar técnica; o processo aposta na troca: histórias pessoais, vivências e olhares distintos se encontram para dar forma a narrativas que nascem de uma realidade comum, ainda que múltipla.

Essa diversidade é uma das marcas da iniciativa. A cada edição, o Cine Curta prioriza alunos de regiões com menos acesso a equipamentos culturais, reunindo participantes de territórios como Vidigal, Rocinha, Manguinhos, Duque de Caxias e Cruzada São Sebastião. São diferentes trajetórias que se cruzam em sala de aula e encontram, no fazer artístico, um ponto de conexão. “A oficina é boa pela interação, pela cooperação entre os pares e pela oportunidade de fazer arte”, resume o ator Ricardo Kaettano, de 67 anos, um dos participantes. Com experiência no teatro e no cinema, ele vê na formação uma chance de se reinventar e seguir em movimento.

Andre Louis

Desde sua criação, em 2010, o Circuito Cine Curta já alcançou mais de 100 mil alunos e professores. Só em 2020, na versão online, foram 115 escolas atendidas, em 43 bairros. Números que ajudam a dimensionar o alcance da proposta, mas que não escondem um desafio persistente: a continuidade. Manter o projeto ativo depende, em grande parte, da captação de recursos, e esse já é um obstáculo comum a iniciativas culturais que atuam fora dos grandes centros de investimento.

Dentro da sala de aula, outro contraste se impõe. Os alunos têm acesso a equipamentos profissionais: câmeras, sistemas de som e ilhas de edição, semelhantes aos utilizados no mercado audiovisual, mas esse universo ainda está distante da realidade da maioria. A experiência acontece justamente nesse contraste, pois ao mesmo tempo em que apresenta possibilidades concretas de atuação no audiovisual, também evidencia as barreiras de acesso a um setor ainda distante da maioria dos participantes.

Ao final do ciclo, o curta-metragem desenvolvido coletivamente ganha uma sessão aberta para alunos e familiares, e pode seguir para festivais. Mais importante do que o destino do filme é o percurso até ele ficar pronto. E num contexto onde o acesso à cultura ainda é desigual, iniciativas como o Circuito Cine Curta não apenas exibem só histórias, elas ajudam a criar quem vai contá-las.

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