O musical "Os Olhos de Nara Leão", estrelado por Zezé Polessa e dirigido por Miguel Falabella, está em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea. O espetáculo revisita a trajetória de uma das vozes mais marcantes da música brasileira.
Por Angélica Cabral
Fotos: Flávio Colker (capa) e Priscila Prade
Sabe aquela expressão: “saudade do que a gente não viveu”? Pois é, a arte tem esse poder de levar as pessoas para tempos e espaços conhecidos ou não, provocando sempre o encantamento de quem presencia o ineditismo, mas com a sensação de coração quentinho, tal qual a que sentimos quando acessamos nossa memória afetiva.
E é esse o espírito que toma conta da plateia que assiste “Os olhos de Nara Leão”, em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea. O musical é escrito e dirigido por Miguel Falabella, e tem Zezé Polessa, em mais uma de suas encantadoras interpretações, revisitando a trajetória da cantora que ajudou a transformar os rumos da música brasileira nas décadas de 60, 70 e 80.

Conhecida como a “Musa da Bossa Nova”, Nara foi muito mais do que um rótulo. Nara Leão foi uma das vozes centrais da bossa nova e figura importante da música brasileira a partir dos anos 1960. Sua carreira atravessou movimentos e estilos, refletindo as inquietações culturais e políticas de um Brasil em transformação. Essa multiplicidade é justamente o fio condutor do espetáculo, que chega ao Rio no momento em que se completam 60 anos da apresentação histórica de “A Banda”, interpretada por Nara e Chico Buarque no II Festival de Música Popular Brasileira. A canção dividiu o primeiro lugar com “Disparada”, defendida por Jair Rodrigues, e se tornou um marco na história da MPB.
Sozinha em cena, Zezé conduz o público por lembranças, histórias e reflexões que ajudam a reconstituir a personalidade singular de Nara. O texto não segue uma ordem cronológica rígida; ao contrário, se constrói em fluxo de consciência, costurando episódios da vida da artista com algumas das canções que marcaram época. Temas como a repressão da ditadura militar, o exílio, o avanço do debate feminista, a maternidade, os célebres casos de amor e as demais paixões da cantora são abordados, todos regados à delicadeza, humor e muita emoção.

No repertório, estão os clássicos “Diz que Fui por Aí”, “Corcovado”, “Marcha da Quarta‑Feira de Cinzas”, “Opinião” e “Acender as Velas”. E eles não entram como meros números musicais... São pontos de passagem da história de uma mulher à frente de seu tempo, pertencente à elite carioca, mas que fez da consciência social um pano de fundo para demonstrar sua inquietação e fincar posicionamento político.
Se você está se perguntando como nasceu o espetáculo, a ideia veio do fascínio de Zezé Polessa pela cantora. A atriz cresceu ouvindo seus discos e, durante a pandemia, mergulhou em biografias e entrevistas que acabaram despertando o desejo de levá-la aos palcos. Em conversa com Falabella, amigo e parceiro de uma série de projetos teatrais, surgiu a proposta de transformar essa admiração em obra viva. O resultado não é uma imitação da artista, mas uma evocação sensível de sua presença e de sua liberdade criativa.

E liberdade talvez seja a palavra que melhor define Nara Leão. Presente no nascimento da bossa nova, ela também participou dos festivais da canção, dialogou com o tropicalismo, ajudou a resgatar o samba de compositores tradicionais e deu voz a músicas de protesto em tempos de censura. Na peça, esse percurso tão plural ganha forma de retrato pulsante de alguém que nunca deixou de experimentar e que se tornou ícone de uma geração.
A Revista Traços conferiu o fim de semana de estreia de “Os Olhos de Nara Leão” e reafirma: a montagem vai muito além de um musical biográfico. É um convite para escutar com o coração. Dos acordes delicados da bossa nova às canções que ecoaram resistência durante os anos de chumbo, cada lembrança resgata a voz de uma mulher que cantou o Brasil com firmeza, doçura e coragem.
Serviço:
Os Olhos de Nara Leão
Local: Teatro Clara Nunes – Shopping da Gávea
Temporada: de 6 de março a 26 de abril
Sessões: sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h
Ingressos: entre R$ 60 e R$ 160
Vendas: Sympla e bilheteria do teatro
Duração: 80 minutos
Classificação: livre